terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Pintada Com Faixas


O moinho girava rangendo sua roda. A água brotava dentre as pedras e seguia seu curso até a madeira em movimento circular.
Gabriella parou de observar aquele ambiente em miniatura na vitrine. Uma pequena fonte que a lembrou de um lugar que um dia chamara de lar. Apertou a jaqueta de couro cheia de bottons contra o corpo. Vestiu as luvas e o capacete. Subiu em sua moto estacionada perto do loja. Chutou o kicker e acelerou aos poucos até a estrada.

Talvez fizessem 12, talvez 13 anos. Não lembrava quanto tempo havia desde que deixara sua casa. A vida na estrada não era fácil. O pouco dinheiro que juntava em bicos era suficiente apenas para comer e dormir. Se juntava um pouco mais, guardava para possíveis reparos na moto. Ela sabia que muitos queriam viver aquele sonho, aquela aventura eterna. Gabriella também sabia que não mais do que um punhado aguentaria um mês daquela vida. Não havia sonho. Não havia aventura. Havia apenas um falso sentimento de liberdade entre cidades desconhecidas e hotéis baratos. Ela não estava de férias, também não tinha dinheiro o bastante para o luxo de um dia de descanso.
Mas na estrada pintada com faixas ela havia se encontrado. Quando o sol raiava às suas costas naquela rodovia sem fim, quando a paisagem das grandes cidades dava vez aos longos campos verdes, às montanhas, ao som de ondas em um litoral infinito, eram nesses momentos que ela recarregava as baterias. Nesses momentos ela se sentia diferente. Sentia como se tudo aquilo pertencesse à ela. Um presente deixado ali para que encontrasse. Só para ela. Quantas pessoas tinham essa oportunidade? Quantas passavam por essa ou aquela rodovia em um único dia? Centenas. Quantas tinham a mesma iniciativa dela, de sair da moto, se sentar na beirada da estrada e observar as montanhas ao fundo dos enormes campos. Deixar os dedos afagarem a relva molhada, escutar o barulho de uma cachoeira, sentir o cheiro do mar. Depois voltar para cima da moto e mais uma vez partir.

Não se lembrava mais o motivo exato da briga pela qual deixara sua casa e família. Lembrava de algo sobre querer ser livre. Talvez aquilo funcionasse nos filmes, mas na vida real não era tão simples assim. Agora sabia como havia sido inconseqüente, como fora tola ao achar seus pais queriam prendê-la, quando tudo que queriam era protegê-la das garras de um mundo que já lhes havia ferido tanto. Confundira amor com tirania. Como pudera pudera cometer um erro desses? E em sua infantil rebeldia os abandonou, certa de que aquela era a melhor opção.

A saudade lhe acertava a cada quebra-molas.

Onde estava seu pai para lhe socorrer quando sofrera o primeiro acidente na moto? E quanto à sua mãe, onde ela estava quando Gabriella acordou no hospital? Quando o médico passou pela porta em sua direção e ela procurou uma mão para segurar.A mais bela paisagem jamais recarregaria aquela parte de seu coração.

Na estrada pintada com faixas ela havia se perdido.

Gabrielle parou perto de uma bifurcação. Uma via levava de volta para sua cidade natal, a outra levava a uma cidade que jamais visitara. Talvez fosse hora de voltar. Seus pulsos estavam cansados de guiar aquela moto. Cansados de escolher o futuro através de rodovias.
Mas não sabia se já tinha a coragem necessária. Talvez precisasse tocar o orvalho de mais alguns campos verdes. Talvez precisasse lavar a alma em mais algumas cachoeiras. Talvez precisasse de mais tempo...

Gabrielle acelerou aos poucos e escolheu seu caminho na bifurcação.

6 comentários:

  1. a busca de suprir nossos vazios é incessante... a vida pode ser bastante amarga/ingrata, mesmo em poucos anos.

    senti falta dos contos.

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  2. Tem certas vezes que nos perdemos entre encontros e desencontros, mas essa é só mais uma forma de se viver a vida... como aquelas pessoas que precisam abrir a geladeira pra pensar em algo ou simplesmente olhar o que há dentro... quando vc volta a realidade não sabe por que estava ali... vc simplesmente vai... e aqui estamos, vivendo...

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  3. Cara... Parece-me que tu está sentado no calor do quarto, com um cigarro aceso a olhar pela janela e a chuva quente e úmida que abafa o pequeno cômodo.

    Tua escrita é fria, gelada. Muito boa mesmo.

    E na minha opnião Gabriela escolheu a estrada novamente. A Rebeldia é como um vício. Difícil de se largar.

    Abraços do Conde.

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  4. A vida é uma busca incessante de algo que nem sabemos o que é... Às vezes necessitamos de liberdade, em outro momentos de sermos puxados. É necessário entender o queremos de verdade, assim fica mais fácil decidir o caminho a seguir.

    beijos...

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  5. Gostei muito. Adoro contos!

    Abraço!

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  6. Amo a forma que escreves!!!!!!!!! Os detalhes e a profundidade de tuas palavras nos levam a crê que estamos ali... que fazemos parte de teus contos!!!!!! Parabéns!!!

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Queres sussurar algo ao Pierrot? Vá em frente, mas talvez ele esteja demasiadamente imerso na própria loucura para escutar suas palavras sibiladas...