segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Em Direção ao Pó


Precisamos conversar - ele disse.

O telefone ficou mudo por alguns segundos. Trocamos mais algumas palavras antes de desligar. Eu sabia que havia terminado. Conhecia bem aquele "Precisamos conversar", já estivera ali antes, sabia que aquelas duas palavras ditas de forma fria e cansada eram tão válidas quanto um atestado de óbito.

Permaneci recostada na poltrona ao lado do telefone. No televisor subiam os créditos de um filme de amor que eu acabara de assistir. Ironia quase bela. Me levantei e caminhei até a varanda. Estava quente lá fora. Respirei fundo, deixei meus pulmões ferverem por um segundo. Tinha uma imensa vontade de fumar, mas tinha parado a algum tempo, e uma recaída naquele momento me parecia uma péssima idéia. Observei as montanhas e vales. O verde cobrindo cada centímetro daquela imensidão. Algo estava diferente, quase errado. Eu sentia aversão àquilo tudo. Não havia beleza ali para mim. Eu não era bem vindo naquele veludo verde. Me perguntava por que, quem me roubara aquele direito?

Rumei ao meu quarto. O calor era sufocante. Conseguia senti-lo sob minha pele... crescendo... me envolvendo. A temperatura era alta dentro de mim.

Liguei o ventilador.

Assim que me sentei à escrivaninha lembrei do armário de bebidas atrás de mim. Fiquei em dúvida sobre um drink, não sabia se devia. Divaguei para longe. Divaguei para aquele tempo onde tudo no meu relacionamento começou a desabar.

Eu agora achava graça na forma como nossas brigas eram guerras para decidir quem estava certo. Ri para mim. Nenhum dos dois estava certo. Lembro-me de como brigamos por ele ter ciúme da forma como meus amigos me abraçavam. Parecia uma grande bobeira agora. Eu teria o mesmo ciúme se tivesse a chance, mas por sorte ele não tinha amigas com quem mantivesse contato. De uma forma um tanto quanto estranha, tudo que ele estava fazendo era dizer "eu te amo". E quantas vezes havíamos brigado por ele ser rude e tosco. Tantas vezes me ofendeu, me atacou com palavras. Como eu odiava quando ele falava daquela forma comigo. Mas ele costumava dizer que eu fazia o mesmo a meu modo. Dizia que eu o magoava várias e várias vezes com palavras calmas e insinuações que ele detestava. Talvez estivesse certo. Talvez os dois estivessem errados.

Após as primeiras brigas, quando tentamos concertar os erros, apenas começamos a piorar tudo. Se eu sentia saudades e ele estava sempre ocupado, eu estava sendo grudenta e desagradável. Se eu o tratava docemente, por temer dizer algo que o magoasse, ele achava que eu estava sendo falsa. E assim os problemas iam crescendo e crescendo, se enrolando um no outro. Um imenso novelo de desavenças. Eu não o culpava, jamais o faria. Meus erros eram apenas meus, mas não entendia ao certo aquele caminho pelo qual avançava. Nenhum de nós queria que terminasse daquela forma, mas parecia não haver outra saída. Nós havíamos trancado todas as portas e incendiado a casa. Queimávamos lentamente em direção ao pó.

Me levantei da escrivaninha e fui até o armarinho escolher uma dentre as garrafas de bebida.Quando vi a tequila deixei escapar um riso baixo. Ele sempre dizia não conseguir entender o que as mulheres viam nela. Me servi num copinho sentei novamente. Apoiei a mão sobre o rosto e voltei a divagar.

Por que Deus não dera a um amante a habilidade de escutar os pensamentos do outro? E porque eu tinha a cruel sensação de que ele me odiava? Sabia que não era verdade, mas não conseguia me convencer. Ele não sabia o que eu estava sentindo, não sabia como eu o via na minha cabeça, não sabia que eu tentara concertar as coisas tão desesperadamente que acabara piorando tudo. Estava tudo perdido. Me sentia uma médica que se recusava a deixar um doente terminal partir. Cada novo tratamento apenas aproximava-o um pouco mais do fim.

Costumava dizer que se pudesse voltar no tempo eu faria muitas coisas diferentes. Agora sabia que era mentira. Se mudasse algo, não teria aprendido nada.

Estendi a mão até meu celular. Procurei o número dele e apaguei, assim como todas as mensagens e qualquer resquício de informação sobre ele. Eu sabia que iria continuar a piorar a situação se pudesse falar com ele. Como dizer adeus quando não se está indo a lugar algum? Preferi aquela solução. Não queria ser lembrada como um erro. Não queria que a última memória de mim fosse uma briga ou despedida com lágrimas.

Me levantei e voltei à varanda. Olhei o sol a pino e respirei fundo. Deixei meus pulmões ferverem.


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Dedicado a todos aqueles que tiveram de dar o adeus sem saber por que.

14 comentários:

  1. Ótimo. E quem já não teve de dar adeus sem saber o motivo? Muitas são as vezes em que tentamos consertar e só erramos mais.Abração e bom início de ano Pierrot.

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  2. Quee lindo.
    Muito bom o texto,
    Sucesso,
    Beijo meu,
    Lilly M.

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  3. Ah cara, que texto! o desfecho muito evasivo, acho, mas existe muito do real nele.
    adorei... ouvir ou dizer adeus? abraços

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  4. Nossa adorei demais isso aki...Recebi um coment seu em 11/03/10,mas não estava mas escrevendo e só vi agora.Tinha até esquecido q tinha um blog em meio a tantas emoções vividas,rs. Agora voltei pra libertar os fantasmas da mente.TÔ adorando seus textos...Acredita q tenho um pierrot tatuado...e uma colombina,q tds me perguntam..."quem é essa mulher"??Me dá uma raiva...rsrs.Não sei como é a figura desta mulher,mas na minhas costas ela dança como na minha imaginação...e ele chorando,oferece-lhe uma rosa.Ainda não o terminei,mas um dia acabo...rs.Muito prazer,e seja sempre bem vindo!Bj grande.

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  5. dizer adeus sem porque... mas sempre tem um porque nas entrelinhas.

    http://terza-rima.blogspot.com/

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  6. Sinceramente... Para aqueles que não sabem porque deram um adeus, eu vos deixo um soco no estômago também. Pois se é inteligente o bastante para assumir uma relação não pode ser burro o bastante para saber pelo que ela terminou.

    Eu não tenho pena nenhuma.

    Abraços do Conde.

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  7. Me senti como um dos dois, passei por bucados assim, mas tenho conseguido consertar...nós, na verdade....oq realmente precisamos é aprender a falar a verdade e ouvir a verdade e então agir de acordo com o que falamos. As desconfianças existem e elas so podem ser sanadas com gestos. As promessas nos acalmam, mas se não são cumpridas só nos inflamam mais, então o melhor é fazer sem jurar, e só.

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  8. Muito bommmmm..
    Sem comentários sobre suas palavras ne? srsr
    primeira vez por aqui e gostei pra caralho, tenho 2 se quiser conferir:

    http://senhoritadinamitt.blogspot.com/ (novo)

    e

    http://coisasdeanitta.blogspot.com/ (mais antigo)

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  9. Obrigada por colocar em parágrafos pensamentos e sentimentos de uma determinada época da minha vida.
    Vim retribuir a visita e tive uma surpresa mais que agradável, que foi esse texto.
    Parabéns, é um texto muuito bom! Com certeza vou voltar mais vezes.

    Um beijo! =)

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  10. Que bello blog, me gustan los textos, las imagenes, y la musica, es sorprendente de hermoso.

    felicidades.


    besos

    (¯`•.•´¯) (¯`•.•´¯)

    *`•.¸(¯`•.•´¯)¸.•´

    ¤ º° ¤`•.¸.•´ ¤ º° ¤ •.¸¸.•´¯`•.¸¸.☆♡

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  11. Também já tive q dar adeus sem saber o porquê. As coisas acontecem assim de repetente mesmo, mas nada vale mais do que sua consciência tranquila e ser forte no momento certo. O Sol sempre nasce independente de nossas escolhas. Só não podemos deixar de apreciá-lo.

    Você escreve bem, o q que é raro na internet, tem muita coisa na internet, mas a maioria é lixo. Estou começando nessa vida de blog, escrevo só por prazer mesmo. Se tiver tempo, passe e deixe sua sincera opinião sobre algo por lá, estou procurando um feed-back honesto.
    http://escritoscomvidapropria.blogspot.com/

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  12. Porque me vejo em tantas palavras... suas

    http://iraemseda.blogspot.com/

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Queres sussurar algo ao Pierrot? Vá em frente, mas talvez ele esteja demasiadamente imerso na própria loucura para escutar suas palavras sibiladas...