sábado, 2 de outubro de 2010

A Melhor Sensação do Mundo


8:26, 23 de Outubro, sábado

Minha mão me esfregava o rosto. Queria limpar algo escondido debaixo da pele. Esfreguei os olhos, pareciam embaçados. Queria tirá-los das órbitas para polir-los. Terminei meu copo de café, e observei a vitrine de dentro da cafeteria. O forte frio e a chuva tentaram me convencer a não sair dali. A garçonete se aproximou. Com palavras doces me perguntou se desejava mais alguma coisa. Fiz que não, paguei a conta e me levantei. Apertei o capote contra o corpo ao sair. Deixei o calor e o conforto para tráz... entrei na chuva. Gotas no asfalto. Cada uma parecia ter o tamanho de uma uva. Explodindo contra o chão em unissínuo. Quem orquestrava aquela música? Intenso som sem notas aparentes. O vento forte tentava ajudar a chuva a engolir o calor por entre minhas vestes. Me resfriava.

Uma gota despencou de um fio de cabelo sobre minha testa, o vento a levou até meus cílios, que em um bater de pálpebras a deixaram entrar em meu olho. Tentei me lembrar para onde ia, não consegui, apenas acompanhei o caminhar de minhas pernas já adestradas. Parei por um instante. Alguém esbarrou em meu ombro e continuou a correr pela calçada. O frio não era aconchegante, mas parecia ser a melhor sensação do mundo naquele momento. Podia ficar ali para sempre, pensei, mas isso apenas iria piorar as coisas. Continuei a deixar minhas pernas me guiarem. Elas de repente pararam, tentavam me dizer algo, pareciam fracas. Olhei para cima. "Estação Rodoviária" em letras escurecidas se lia. Entendi por que minhas pernas haviam bambiado. O vento soprou com força nas minas costas, tentava ele me empurrar para a cobertuda das passarelas? Me sentei em um dos bancos. "Embarque plataforma 67" avisou a voz no microfone geral. Lembrei de quando Jonas pegara o ônibus ali. Eu e Carla havíamos prometido acampar com ele no outono seguinte quando retornasse do tratamento. Lembrei da expressão dele quando olhou para tráz antes de embarcar no ônibus. Faziam 8 anos que isso acontecera. "Um dia deixarei todos vocês para tráz. Não seria tão ruim se tivesse um pouco mais de tempo...", ele costumava dizer. Meu cabelo pingava, a água escorria pelo meu rosto...

18:12, 22 de Outubro, sexta-feira (dia anterior)

--SAI DO CARRO! SAI DO CARRO PORRA! -- ele gritava

Saí do carro com as mãos levantadas. Carla saiu pela outra porta também de mãos levantadas. A chuva era forte.

--AS CHAVES! TAMBÉM A CARTEIRA E O RELÓGIO!

Eu via os olhos dele por entre as gotas. A chuva parecia cair lenta. A boca dele se mexia gritando palavras, a arma dentro da manga apontava para meu rosto. Gotas estouravam no casaco dele. Suas pupilas eram enormes círculos negros. Estava drogado, eu tinha certeza. Estendi a mão com chaves, carteira e relógio. Ele os agarrou e lançou dentro do carro. O movimento da arma para a direita pareceu levar uma eternidade. A chuva congelou no ar. O tambor do revólver girou.

Eu segurava Carla nos braços. O carro já havia sumido pela chuva a algum tempo. O sangue corria pela roupa azul dela. O asfalto estava avermelhado. As sirenes estavam a caminho. Dizia a ela entre batidas do coração que tudo ficaria bem. A abracei com força. Minhas mãos tremiam. Meu coração estava acelerado. Tinha medo de perdê-la. Tinha medo de abrir os olhos e ela não estar mais ali. Tinha medo de que ela não abrisse os olhos. Beijei-a na testa. Tinha de manter a calma. Protegi-a da chuva com meu capote. Ela chorava. Não dizia nada, apenas chorava.

...

O médico se aproximou de mim na sala de espera.

-- Ela vai ficar bem, não se preocupe. --soltei um suspiro preso em minha garganta.

--A bala atravessou o ombro dela. Ela só terá de passar por uma cirurgia simples e ficar de repouso por alguns dias. -- ele continuou -- Sugiro que o senhor vá para casa e volte amanhã à tarde, pois não poderá vê-la antes disso senhor Lucas. Sinto, mas são as normas do hospital, é para o próprio bem dela.

Dois policiais se aproximaram de mim. Eu tinha de responder a algumas perguntas.

Passei toda a noite no saguão de espera. Quando a manhã chegou me levantei. Fui até uma cafeteria ali perto... minha mente estava distante. Ainda chovia... Sentei-me na cafeteria e pedi um café. Olhei pela janela. Gotas batiam no vidro como alguém que bate numa porta para entrar. Pensei no medo de perder Carla. Eu sabia como era perder alguém. Tinha muito medo de perdê-la, tinha muito medo de perder mais alguém que amava. Lembrei de Jonas.


8:40, 22 de Outubro, sexta-feira

Quando me levantei. Carla já estava de pé. Tinha de me arrumar para o trabalho e ela já estava quase pronta.

--Queriiida, porque não me acordou?
--Você parecia tão cansado ontem amor, fiquei com dó. - ele me disse com candura.
--Ainda quer ir àquele restaurante depois do trabalho amor? - perguntei como quem reclama
--Quero sim senhor Lucas! - ela riu - E não adianta tentar me enrolar hein! Disseram que tudo lá é excelente.
--Sei...
--Não seja ranzinza querido... - ela riu novamente
--Tudo bem, mas quero ser bem recompensado depois hein - eu disse beijando a nuca dela. Ela colocou um dedo nos meus lábios e apontou para o relógio. Me assustei com a hora e corri para me arrumar a tempo. Estava atrasado e nosso trabalho era longe.

Antes de sair olhei um dos quadros na parede. Eu, Carla e meu irmão Jonas sorríamos ainda crianças em um parquinho. Quem diria que um dia aquela pequena menina a bagunçar meu cabelo iria crescer e se casar comigo. Olhei meu irmão a fazer uma careta para a câmera. Amanhã seria o aniversário dele.

O dia foi longo no trabalho. O de sempre, com um pouco de cotidiano, um pouco de mesmice, e uma pitada de tédio.
Assim que terminamos o expediente ajeitamos as coisas e fomos ao restaurante que ela tanto queria. Após estacionar fiquei algum tempo olhando a chuva torrencial lá fora antes de tirar a chave e levantar o pino da porta para sair. Carla me segurou o braço.

--Querido o que foi? Você esteve tão calado hoje, está tudo bem?
Voltei me para ela e expirei. Recostei-me na cadeira.
--Amor, você sabe que amanhã seria o aniversário do Jonas?
--Ei sei amor... Não pense nisso... Já faz muito tempo. Você tem que deixar isso no passado.

Fiquei calado por um momento olhando a chuva no vidro. Pensei em quando ele falecera. Lembrei de como eu não dissera nada a ninguém. Só pedira um tempo para mim. Quando a perda é mediana nós choramos e nos debatemos publicamente... gritamos e nos desesperamos. Mas quando se perde algo maior que tolices mundanas, depois de um tempo nada fazemos... nada... quietos permanecemos, mudos e solitários. Sem suspirar pernoitamos em Damas de Ferro. Debaixo do chuveiro deixamos a tristeza vazar pelos olhos, nos aproveitamos dos gritos dos outros para nos aliviar... e calados continuamos a caminhar.

Alguém bateu no vidro da minha janela...