terça-feira, 24 de agosto de 2010

Um Pouco de Si Mesmo



Em meio a escombros e cinzas o Pierrot caminhava. Olhos distantes observando memórias invisíveis. Os atores da lona colorida moviam-se organizadamente. Pouco a pouco vigas iam sendo re-erguidas, panos costurados, ferimentos fechados.
Uma menina procurava por seu gato perdido. O pierrot se aproximou, sentou-se em uma viga queimada e ficou a observar a criança por algum tempo:

-Gostaria de ouvir uma história senhorita? - perguntou o Pierrot

A menina se aproximou e observou o triste palhaço, quando tentou olhá-lo nos olhos ele os desviou. Sentou-se então a sua frente e esperou.

-Pois bem então - disse o Pierrot ainda olhando para outro lado - parece que a senhorita está interessada...

....................

Rapahel esperava sentado por ela na soleira da porta. Cotovelos apoiados nos joelhos, olhos na rua à frente. Ônibus passavam as vezes. Ele tentava ler os anúncios em cada um: "compre isso", "seja melhor", "o produto do homem moderno"; as promessas pareciam tão verdadeiras quanto os sorrisos.

Raphael se levantou e tocou a campainha mais uma vez. A casa permaneceu em silêncio. Ele voltou a se sentar. Ela provavelmente sequer continuava morando ali após tanto tempo. A casa deles. Comprada com tanto custo e entre tantas confusões. Lembrou do dia da mudança, como haviam arrumado a sala de um jeito que ambos se sentissem bem. Como haviam discutido sobre o lugar onde a TV deveria ficar. Como ela havia ganhado e como haviam feito amor depois.

Raphael riu um pouco para si mesmo, riu um pouco de si mesmo...

Achava engraçado pensar em como às vezes faziam amor e outras vezes faziam sexo. Como talvez tudo entre eles se dividisse assim. Beijos e gritos. Brisa e fogo. Quantas vezes ele desejara nada mais além de abraçá-la, beijá-la, amá-la. E quantas vezes o carinho dela nada significara para ele. Até quando o amor poderia sobreviver a tantas discussões?

Raphael se lembrava daquele tempo agora tão distante. Todos aqueles sorrisos, todos aqueles suspiros. Ele a amava, mas a odiava o bastante para nunca retornar. O que fazia ali então? se perguntou preferindo não responder. Tirou do bolso a velha aliança que ficara dentado após a última briga deles, quando Raphael acertara a porta do armário com raiva. Observou-a por um longo tempo. Aquele pedaço de prata lhe trazia lembranças o suficente para mil e uma noites de histórias. Talvez ela fosse sua Sherazade. Infelizmente seus contos eram tristes demais.

Ele olhou o relógio e tentou a campainha mais uma vez antes de partir. Pegou um taxi e voltou ao seu compromisso. Assim que Pablo o viu, sorriu e disse:
-- Rapha! A cerimônia já vai começar, onde estava?
-- Só fui resolver umas coisinhas antes, nada demais.
-- Haha, só não vai abandonar a noiva no altar hein. - Pablo riu - Sua calça está suja atrás - Ele disse dando umas palmadas para limpar - Pronto.
Raphael se arrumou e caminhou até o altar. Logo o órgão começou a ser tocado...

Quando o padre lhe fez a pergunta, Raphael sorriu, "sim" foi o que se ouviu na igreja.