terça-feira, 20 de abril de 2010

Fogo no Circo


PRELÚDIO DE UMA PAUSA NO BLOG.

Eis que o fogo sobe pelas paredes. Eis que o incêndio deixa os corações e leva a lona colorida em seu tremular.
Quantas vezes coração de Pierrot é posto a prova, quantas chamas que lhe queimam a pele sem acender o coração.

Mário acendeu o cigarro com receio. Tantos meninos mais velhos o faziam com gosto. A tempos era malabarista abaixo do pano colorido. Com suas tochas e seus sopros de fogo. O encanto do público não era o suficiente. Queria o encanto de bela dama na platéia.

Trago profundo, desgosto profundo. A brasa ainda acesa voou longe. Na palha dos leões veio a cair. Animais selvagens, instinto imediato. O rugir veio acompanhado da primeira labareda. A violência acompanhou o fogo.

O vermelho tremulou, subiu, tomou. O Pierrot por algum tempo ignorou a presença do mesmo. Invisível a seus olhos o terror comum, ele apenas percebeu que o público corria... corria e fugia... fugia e gritava. Suas piadas teriam ficado tão ruins assim? Seus contos haviam por fim causado aos outros o terror que lhe causavam? Mas então viu as dançarinas a se abrigar. Viu os anões a correr com baldes d'agua. Viu domadores controlarem os animais em debandada.

A forma do fogo lhe tomou os olhos, a fúria de um incêndio. Por algum tempo ainda ficou no meio do picadeiro. Por um tempo ainda ficou a observar a fome das chamas. Subindo, degustando, lambendo cada parte de seu palco.

Então veio a chuva. E em meio a cinzas e lágrimas dos circenses, ficou o Pierrot. Quando todos o rodiaram, uma azeda poetisa de nome Pris o perguntou:
- Senhor da lágrima solitária, que será de nossas canções? Quem escutará o rugido dos leões? Quem verá a graça dos malabaristas? Que será de nosso encanto agora sem casa?
O Pierrot permanceu imóvel a observar os escombros de seu circo. Por fim, riu baixinho, olhou a todos a sua volta e respondeu:
- Que casa? Eu estou em casa.

sábado, 10 de abril de 2010

Mão Vazia


O ato da escrita nos é impelido pelo que? Tantos escrevem diários, tantos contam contos, tantos recitam poemas. Em comum o que há? Palavras que tem como único propósito serem lidas. Por si mesmo, as vezes por outros, tantas vezes por ninguém. O lápis tenta desenhar no papel aquilo que a mente se recusa a dar forma. Escritores de mão vazia e vivência cheia.
Há aqueles que preferem a escrita que esconde a própria história, há quem não a esconda. Há aqueles que escrevem sem medo, e quem escreva por ter medo.

E tantos lindos poemas de amor,
a esconder a dor no peito do escritor.

Escrever liberta tanto quanto aprisiona. A carta que é redigida com o objetivo de aliviar a consciência, termina por criar um documento que relata permanentemente aquele momento. Cartas que lutamos para destruir, sempre voltando atrás no último segundo.

Escreve-se porque aquilo deve ser contado, porque alguém precisa ficar sabendo. Hoje, amanhã, talvez nunca. Mensagens abandonadas em papel com tinta.