sábado, 20 de março de 2010

Tempo de Caminhada

É ALTAMENTE RECOMENDÁVEL QUE SE LEIA O CONTO "SEMPRE MAIS" ANTES DE SE INICIAR A LEITURA DESTE. - O Pierrot


- Como assim não liga mais? - perguntei a meu velho amigo Jeff Black
- Não ligo ora, cansei. - ele disse arrastado
- O que quer dizer com isso Jeff?
Ele parou, pensou por um momento e permaneceu calado.
- Mas o que vai fazer se alguém lhe pedir um conselho como sempre acontece? Vai negar? Se abster?
- Provavelmente.
Estalei a língua e o olhei severamente.
- Ai tem coisa Jeff. O que houve?
- Está na sua hora Connor. Melhor ir ou vai se atrasar.
Olhei o relógio no pulso e deixei escapar um "merda". Agarrei a maleta sobre a mesa e saí apressado. Jeff ficou na porta, observando enquanto eu apertava freneticamente o botão do elevador.
- Você esqueceu de dar o nó na gravata e abotoou o paletó uma casa errada James. - disse ele, rindo descontraidamente
- Droga, droga droga! - o elevador chegou e entrei fazendo o nó da gravata. Quando a porta começou a se fechar, parei o nó e apontei para Black - Quando eu voltar quero saber o que raios houve!
A porta fechou. O elevador bipou e desceu. Terminei a gravata e abotoei o paletó novamente. Observei as paredes metálicas à minha volta. Detestava elevadores desde pequeno. A porta abriu e eu fugi dali. Caminhei até o trabalho.

Pensava no trabalho. Odiava aquela rotina, aquele emprego, aquela situação. Meu único consolo vinha do fato de que fora graças àquele escritório que eu conhecera Nika, minha noiva. Mas ela agora trabalhava com uma empresa de moda e desistira daquele emprego a muito tempo. Lembrei de como ela adorava testar suas novas linhas masculinas em Jeff. Os dois se davam muito bem. Eu ria da expressão no rosto de Jeff sempre que Nika aparecia com algum modelo bufante. Amava o jeito espontâneo dela, seus pequenos olhos orientais. Tinhamos um jantar marcado para depois de meu expediente.

Cheguei a meu andar. As portas do elevador se fecharam como barras às minhas costas.
- Bem vindo de volta à nossa empresa! - zombou um de meus colegas - espero que aproveite a estadia!
- Cooonnor! - gritou o chefe enquanto se aproximava com uma pasta de documentos nos braços - Porque diabos está parado ai? Tenho doze clientes insatisfeitos e uma pilha de formulários incompletos. Mas parece que você está disponível, não? Pois bem, pode ficar com eles.
O chefe me entregou os documentos e partiu. Permaneci ali por mais alguns momentos, então me dirigi à minha célula e iniciei minha jornada diária.
Deixei os olhos correrem por ali. Era o mesmo cubículo branco onde eu me sentava todo dia entre as nove e as seis. Olhei a tela do computador. Nomes, telefones, motivos pelos quais nos estavam processando. Cada um queria algo de mim. Olhei as células adjacentes à minha. Cada uma precisava de algo de mim. Olhei a pasta e seus documentos. Em cada um faltava minha assinatura. Olhei a foto de Nika colada ao lado do monitor. Cada pedaço de mim precisava dela.

O telefone disparou seu chamado sobre minha mesa. Ignorei-o. Ele tocou mais algumas vezes antes de desistir de mim. Assinei relatórios e liguei para clientes. Me levantei e fui entregar alguns documentos. O telefone reclamou novamente na mesa, mas eu estava longe. Não tardou a desistir de me chamar.

Chegou a pausa do almoço e como de costume saí com Alex. Almoçamos em restaurante perto do edifício da firma. Conversamos sobre a vontade de deixar a empresa muito em breve. Eu pretendia abrir uma loja de aeromodelos para colecionadores.
Quando retornamos alguém me disse que o telefone havia reclamado incessantemente. "Nem durante meu almoço a firma quer me deixar em paz...", pensei. Me sentei e observei a foto de Nika mais uma vez. Eu a tirara pouco depois de termos nos conhecido. Fora em um restaurante. Ela tinha o braço estendido em minha direção, tentando agarrar a câmera e impedir que eu batesse a foto.

Terminei o expediente e me aprontei para sair. Passava pela porta quando uma mão me deteve.
- Seu telefone está tocando Connor. - disse meu chefe com pouca graça
Me voltei e escutei a campainha saindo de minha célula. Relutei um pouco se devia me dar ao trabalho de atender aquela chamada. Observei a beleza rústica do telefone sobre a mesa. Era um modelo antigo, negro, com o tambor de números brancos. Eu o adorava. Tomei o fone do gancho e o apoiei no ouvido.
- Senhor James? James Connor? - perguntou uma voz feminina do outro lado
- Sim, ele mesmo.
- Senhor Connor, tenho tentado entrar em contato com o senhor o dia inteiro.
- Do que se trata madame?
- Senhor Connor, sinto em ter de lhe relatar isso, mas sua noiva se envolveu em um acidente de trânsito. Os paramédicos foram acionados, mas ela não resistiu e faleceu a caminho do hospital.
Fiquei em silêncio. Tinha certeza de estar em sono profundo. Logo eu acordaria e aquela piada de mal gosto terminaria.
- Senhor Connor, o senhor está ai?
- Sim - respondi sem saber porque
- Sua noiva entregou um item a um de nossos paramédicos e o pediu para entregar o item ao senhor.
- O que é?
- Não sei informar senhor. O paramédico saiu a pouco e disse que iria pessoalmente lhe entregar.
- Obrigado.
Deixei o fone escorregar por entre meus dedos e voltar ao gancho. Me sentei. Fiquei ali. Não escutava nada além de um zunido. Não via nada além da foto dela embaçada. Não produzi qualquer som além da respiração. Me sentia como em outro mundo. Um universo paralelo onde a dor não podia me ferir. Sentado, fiquei a esperar o momento em que acordaria.

Esperei... ele não veio. Ninguém me acordou.

Então o mundo se tornou tão intangível. A realidade tão suja. Meu desejo era chorar e chorar. Até que meus olhos secassem, até que minha visão se fosse. Queria cair em algum lugar que me levasse para aquele outro mundo. Um local sem lembranças ou falsas promessas. Senti vontade de desabafar com alguém, mas que diferença faria? Não seriam palavras de consolo que a trariam de volta. Não era um abraço amigo ou um "sinto muito" que eu queria. Queria ela. Só ela. Precisava dela. Ela era mais que uma mulher, era mais do que eu, era mais do que eu pudesse explicar. Ela seria aquela que me salvaria de mim mesmo.

Teria de seguir em frente sozinho. Sem poder chorar, sem poder me deixar cair. Se caísse talvez nunca me levantasse. Me perguntava porque o peso de minhas pernas havia subitamente aumentado em algumas toneladas. Me perguntava quanto tempo de caminhada eu ainda teria.

Me levantei. Não vi ninguém, uma sombra me disse algo enquanto eu entrava no elevador. Não sei o que foi. Não queria saber. O elevador desceu lentamente. Aquela caixa de ferro parecia tão fria, tão apertada. Olhei para cima. Através da luz vi Jeff. Ele estava lá em cima, na porta aberta. Não havia elevador, apenas o fosso. Ele me olhava com a mão estendida. Ele queria que eu a agarrasse. Não. Eu lembrava daquela cena. Sim. Mas porque era ele lá e não eu?
A luz se foi. O frio metal voltou. A porta do elevador abriu. Não lembro como cheguei em casa. Não sei quanto tempo demorou. Não sei se fui direto para lá. Quando abri a porta vi Jeff sentado no sofá. Ele assistia ao noticiário. Peguei um copo de café e me deixei cair sobre o banco na bancada. Lembrei da decisão que ele havia tomado pela manhã. Talvez eu o entendesse um pouco mais agora.
- Não é ajuda o que eles querem é? - eu perguntei com voz rouca enquanto olhava o café sobre a bancada.
- Não... não acho que seja. - ele respondeu
Deixei que a fumaça do café subisse e me levasse embora. Pensei no item do paramédico. O noticiário falava sobre uma frente fria que se aproximava.

20 comentários:

  1. Que maestria tens de entreter meu caro Pierrot, acertou em dizer que gostaria da continuação. E honestamente gostaria de saber sobre o desfecho que esta por vir desta triste história.
    E penso "Não é ajuda que eles querem é?", talvez a sombra esteja me consumindo meu caro.
    Não encontro respostas, e me sinto cansado em persistir.

    Abraços esta de parabéns meu caro. Espero que possa nos presentear com o desfecho.

    Abs.

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  2. Anciosa pelo desfecho² !!
    Realmente encantador o modo que narra a história, nos remete á ela... muito bom mesmo!

    Beijos sangrentos da vampira Laysha.

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  3. Não é justo vc fazer isso não.....

    Me fez chorar mesmo...

    Beijos

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  4. Opa!!!
    Nossa aqui que é bom! também gostei bastante do seu trabalho. mt bom.Gosto demais de coisas assim.
    Eu sou mt estranha , e gente estranha e coisas estranhas me atrai ( sem ofensas , realmente isso é um elogio rs)
    Aparece sempre ..
    Eu sempre vou aparecer ...
    :)

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  5. Nossa, eu realmente não sei o que dizer sobre. Consegui imaginar todas as cenas claramente e consegui sentir exatamente o que Jeff sentiu, se ele existisse, talvez tomaria uma chícara de café com ele em silêncio. Meus parabéns, incrivelmente bom.
    Obrigada pelo comentário no blog e por ter gostado, isso é sinal de que estou fazendo algo direito (ou pelo menos tentando), como você o conheceu? Sempre que puder de uma passada lá, vai ler coisas que não lia a tempos. Estou seguindo aqui, se puder seguir lá, ficaria agradecida.
    Beijinhos e... Se puder manter contato seria legal.
    Até outros posts :)

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  6. Cara.. isso ficou muito muito muito bom!!
    parabens pelo trabalho..
    escreve muito bem e com detalhes o suficiente pra não deixar massante mas intrigante..

    grande abraço!

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  7. Envolvente...me perdi no texto..viajei mesmo.
    Muito legal...quando será a próxima?
    Abraços..

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  8. Muito triste porém muito lindo o conto , você sabe que quando você descreve uma mulher é de um jeito impressionante que sempre meche comigo muito show , seu trabalho é muito bom mesmo!
    ps: espero anciosamente pelo próximo
    bjs :)

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  9. Eu quis dizer manter contato por messenger, e-mail e todos esses meios de comunicação virtual.
    E não sou do Rio de verdade, sou do interior do Rio. :/

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  10. Quero mais....maaaais!!!!

    Perfeito conto... espero ansiosamente a continuação!

    ;*

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  11. Oi Pierrot!

    Esse texto é demais! Gostei demais daqui, volto sempreeeeeee!!!

    Este conto é intenso, Gostei demais da figura do Jeff, um enigma na história, pra quem ele não vai mais ligar??? seria Jeff e Connor uma personalidade? Nika, ah, o que houve por trás desse acidente???

    Respostas: Isso é Conto de qualidade!!!!

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  12. Pierrot Apaixonado

    Claro!desse espetáculo já sou uma visitante assídua.

    Bju seja bem vindo

    volte sempre.

    :)

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  13. ola caro contista...vim para retribuir a visita...e acabei por me perder em suas linhas....num primeiro momento axei q se tratava de linhas machadianas...
    posteriormente vi q se tratava de uma tragédia anunciada numa tarde cinza...num sei!!!?algo sheakesperiano..
    não contente com isso..
    vc escreveu outro texto sob a perspectiva de jeff...
    muito bão..
    qto ao fim...
    axo q jazz
    é irrelevante !!!ela se foi!!!
    inté brow a proxima visita...vo passando e dexandu um coments am cada um q gosta!!abrxx

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  14. Eu me sinto ebaraçado de escrever algum comentário...
    embaraçado, pelo fato de duvidar de que eu possua as palavras nescessárias para descrever a beleza do texto...
    embaraçado, ao citar as emoções sentidas ao ler um texto...

    como a vida simplismente pode ser uma grande surpresa...você necessariamente não necessita fazer parte de um romançe para que algo do tipo he aconteça...

    "se conselhos fossem bons , alguns estariam ricos", não é verdade...

    encarar os desafios e obstáculos da vida são para pouco e fortes indivíduos...

    os fracos procuram ajuda!

    meus parabéns meu amigo....
    fico embaraçado ao dizer que...
    a emoção me tocou...e o texto está "foda"(desculpe o termo)

    muita sorte

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  15. hola, colega....

    gracias pelas palavras no meu blog...

    *por aqui tbm tudo mto massa... vou virar seguidor...

    abs grande,
    bai.

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  16. A única coisa que posso dizer é que é simplesmente fantástico! narrativas perfeitas que te colocam dentro da cena com uma riquesa de detalhes e sentimentos ímpares. parabéns!

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  17. maravilhoso paralelo! adorei! sinti sua falta pelo meu blog...achei que talvez minhas palavras tivessem deixado a desejar, enfim! fico feliz em saber que não! eu tenho e-mail, claro que sim

    carolinarz2010@hotmail.com

    a gente conversa então?

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  18. A continuação ficou excelente. Você tem a capacidade de enredar o leitor. Me faz imaginar todas as cenas, as expressões dos personagens, os lugares. Muito, muito bom.
    Parabéns!
    Beijo.

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  19. opá companheiro!
    posha, prometo de pé junto dar atenção ao forbidden memories quando estiver com tempo!
    caramba, muito massa o perfil do seu blog ...
    depois leio com calma seus textos,
    grande abraço.

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  20. Incrível, Pierrot!
    Outra vez fiquei com os olhos presos à tela do computador.
    O tédio e a monotonia fazem uns estragos em nós, né. Daí depois de telefonemas perdidos assim, ficam aquelas perguntas: "Porque eu não atendi?", "Será que se eu atendesse naquela hora as coisas teriam sido diferentes?" e o clássico: "Porque?"
    É sempre assim... será que um dia a gente aprende?

    Beijo!

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Queres sussurar algo ao Pierrot? Vá em frente, mas talvez ele esteja demasiadamente imerso na própria loucura para escutar suas palavras sibiladas...