segunda-feira, 15 de março de 2010

Sempre Mais



- Como assim não liga mais? - perguntou meu velho amigo James Connor
- Não ligo ora, cansei. - disse arrastado
- O que quer dizer com isso Jeff?
Não tinha certeza. Eu sempre fora o conselheiro dos amigos. Quando disse que estava cansado de me preocupar com os problemas alheios, não sabia exatamente o que isso ia mudar.
- Mas o que vai fazer se alguém lhe pedir um conselho, como sempre acontece? Vai negar? Se abster?
- Provavelmente.
James estalou a lingua e me olhou severamente.
- Ai tem coisa Jeff. O que houve?
- Está na sua hora Connor. Melhor ir ou vai se atrasar.
James olhou o relógio no pulso e deixou escapar um "merda". Agarrou a maleta sobre a mesa e saiu apressado. Fiquei da porta, observando enquanto ele apertava freneticamente o botão do elevador.
- Você esqueceu de dar o nó na gravata e abotoou o paletó uma casa errada James. - disse, rindo descontraidamente
- Droga, droga droga! - o elevador chegou e Connor entrou fazendo o nó da gravata. Quando a porta começou a se fechar, ele parou o nó e apontou para mim - Quando eu voltar quero saber o que raios houve!
A porta fechou. O elevador bipou e desceu.

Retornei à cozinha. Peguei uma xícara de café e me recostei a parede. Pensei em fumar um cigarro, mas estava tentando parar. Tinha mais algum tempo até que minha hora de partir para o trabalho chegasse. Observei a fumaça subindo de minha xícara de café. A deixei me levar.

A alguns dias havia me reencontrado com uma velha amiga chamada Bia. Lembrava de quando saíamos juntos, de como ela sempre me dizia estar buscando alguém para amar. Ela dizia sempre que queria um homem como eu, seu melhor amigo. Lebrava de como os namorados dela iam e vinham. Sempre a maltratando, a machucando. Eu a consolava e dizia que estava apenas procurando na pratileira errada. Aconselhava-a a nunca desistir, a mirar alto. Ela me contava sobre as decepções, todos arranhões que levara, tantos tapas que ganhara. Eu dizia que todos tinhamos nossa cota de dor. Com o tempo Bia foi me envolvendo. Ganhando espaço no meu coração. Por fim me apaixonei por ela. Me declarei. Ela disse que sentia o mesmo. Fizemos amor. Dei a ela todo meu respeito, todo meu peito. No entanto, quando a pedi em namoro, ela recusou. Tinha acabado de terminar um relacionamento. Eu entendi.
Uma semana depois de pedi-la em namoro, ela me confidenciou que estava amando loucamente alguém que conhecera. Me perguntei como diabos ela poderia ter começado a amar loucamente alguém em apenas uma semana. Confesso que me surpreendi com a velocidade que fora trocado. Eu, que sempre tentara ajudá-la, apoia-la, e por fim amá-la.
A alguns dias então, ao reencontrá-la, me contou que casara com o rapaz. Moravam em algum fim de mundo do qual não recordo o nome. Bia trabalhava de vendedora em uma loja de roupas. Ele tinha uma banda e ela acreditava que um dia seriam famosos. Quanta tolice. Quanta tristeza.

Terminei o café. Coloquei a caneca sobre a pia e peguei minhas chaves ao lado da porta. O trabalho me esperava. Desci pelo elevador até o subsolo. Me lembrei de James e de como costumávamos brincar no playground do condomínio. Certa vez quando brincávamos de pique-esconde e eu resolvera me esconder no poço do elevador. Lembrei de quando o elevador veio e me apertou contra o chão. A claustrofobia que me acometeu. Lembrei do medo de morrer ali só. Lembrei de quando o elevador subiu novamete. De quando abri os olhos e vi Connor aos prantos, seu pequeno braço estendido em minha direção para que eu pudesse sair dali.

Dei a partida no carro. Guiei pelas ruas tão connhecidas. Costumava andar de bicicleta por ali com Felipe Andersonn. Podia nos ver pedalando pelo asfalto, por entre as fachadas antigas e gastas. Andersonn tinha uma saúde impecável. Estava sempre praticando algum esporte. Eu sempre lhe dizia para tentar ser profissional. "Você é o melhor esportista que conheço!". Certo dia ele resolveu seguir meu conselho e se tornar ciclista profissional. Era bom. O melhor que eu já tinha visto. Suas arrancadas eram surpreendentes. Abria metros de vantagem em pouco tempo. Eramos bons amigos então. Eu sempre o incentivava a continuar, a nunca deixar de cuidar do corpo e da saúde.
Cheguei ao trabalho. Cumprimentei meus colegas, e rumei até minha sala. Comecei a revisar os documentos que me haviam sido encaminhados. Havia sido num dia exatamente como aquele em que eu ficara sabendo da morte de Felipe.
Foi durante uma pausa para beber água que escutei a televisão da cafeteria anunciando a manchete fúnebre. "Acidente", pensei. "Overdose", esclareceu a repórter. De acordo com o noticiário, ele vinha consumindo substâncias ilegais a tempos e driblando exames anti-dopping. Lembro de como a única coisa que pronunciei foi um sonoro "filho-da-puta". O desgraçado havia me enganado durante anos. Eu jamais desconfiara. Porque nunca havia me contado? Eu podia tê-lo ajudado, não eramos amigos? Não éramos?

Terminei o trabalho do dia. Arrumei minhas coisas. Abri a gaveta para guardar o grampeador. No fundo havia um envelope de sedex aberto. Lá dentro estava o convite para o o enterro de Felipe. Uma cerimônia fechada à qual eu nunca comparecera.

Guiei meu carro de volta ao apartamento. Fernando, Lívia, John, Bella... quantas pessoas mais eu tentara ajudar? Quantos conselhos inúteis, apoios que de nada adiantaram? Nunca era o bastante. Eles queriam mais, sempre mais. O egoismo não tinha limites. Eu tentava dá-los esperanças, eles tentavam tomar as minhas. Cada vez eram mais bem sucedidos em me convencer de que nada podia fazer para ajudá-los.

Eu sabia que não queria mais tentar ajudá-las. Mas me lembrava de James. Me lembrava de sua mão estendida, das lágrimas correndo por seu rosto quando viu que eu estava vivo, de como chorava e soluçava. Lembrava de meu medo de terminar sozinho naquele poço. Só e esquecido. Sem ninguém por mim.

Entrei no apartamento, não demorou muito até que Connor chegasse. Eu estava na sala assitindo ao noticiário. Ele preparou café e ficou sentado na bancada da cozinha. Parecia abatido e triste. Me perguntou com voz rouca:
- Não é ajuda que eles querem é?
- Não... não acho que seja.
Continuou a tomar o café em silêncio. O noticiário falava sobre uma frente fria que se aproximava.

22 comentários:

  1. Bela reflexão. A maioria das vezes não é ajuda mesmo. É alguma coisa...além...é somente falar. Enfim, respondendo sua pergunta eu faço farmácia (curso improvável para quem gosta tanto de escrever..mais sou apaixonada pelo curso) e Carlos Drummond também era farmaceutico. Eu ganhei uma pergunta? rs

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  2. Gostei daqui, texto bem interessantes e muito bem escritos. To seguindo. Ah! Obrigada pelo elogio lá no blog , volte sempre.

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  3. Sussurando à ti Pierrot...

    Seus post é magnífico! Adorei!

    Beijos sangrentos da vampira Laysha.

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  4. como vou dizer isso???
    "apenas um tolo aprende com a própria experiência"...assim dizia o ditado....
    mas não seria a vida muito mais interessante se as pessoas n dissesem à nós oque e como fazer?
    é da natureza humana duvidar do óbvio...e tentar fazer as coisas à sua própria maneira...
    não se se consegui capturar a essência do seu Texto Pierrot....mas com toda a certeza está exelentemente redigido....como sempre digo...vc deixa o texto ambíguo....cada vê oque quer ver....

    muita sorte....desejo tudo de melhor....
    do seu parcero "Shogum"

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  5. Sabe..

    Tenho aprendido...que jamais ninguem ira conseguir viver a vida de ninguem.

    Por mais que tentemos ajudar...sempre irão tomar as decisões que lhes são cabiveis, afibnal cada um tem o seu proprio poder de decisão.

    Tenho aprendido a ser mais ouvinte do que dar palpites, justamente por saber disso.

    Conselhos são bons, mas são poucos os que seguem.

    Cada um irá aprender de acordo com as experiencias que a vida irá trazendo diariamente, e amadurecerão em seu proprio tempo.

    Por isso que a bobrboleta tem seu tempo dentro do casulo, e jamais poderemos tirar ela de lá antes da hora, suas asas ainda não estariam fomadas e ela seria defeituosa em sua pequena existencia.

    Então , creio que podemos ser amigos uns dos outros e apoiar, mas sem nada esperar...amar inconcicionalmente...

    Claroo que não é facil...um nunca disse que seria....

    Beijos

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  6. eu só reconheço quando alguma coisa é realmente boa. Ainda tenho minha pergunta..então...vamos lá.
    Porque você escreve?

    no aguardo da resposta.

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  7. lindissimo, de uma verdade arrebatadora!

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  8. Quando se trata da vida dos outros somos meros espectadores.
    Podemos até torcer por um determinado final,mas estamos longe,muito longe de sermos os roteiristas.

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  9. Oi meu bem, é a Ismália do Ninho de Gato.
    Olha, ainda não tive tempo de ler os textos, mas preciso avisar uma coisa.
    Não sei se você já percebeu, mas há um aviso antes da pessoa acessar seu blog. Um aviso sobre conteúdo impróprio.
    Depois dá uma olhadinha nisso.

    No mais, amei teu blog, sou encantada por palhaços desse tipo que tem por aqui.
    Depois eu volto pra ler com calma ok?

    Beijinhos!

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  10. Oi, muito obrigada pelo comentário no meu blog! Sinceramente, fez o meu dia hoje. rs
    Adorei seu blog também! Beijos.

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  11. Vc escreve perfeitamente bem! Muito, mto bom! Gostei daqui, gostei do texto....do título do Blog!

    Sigo vc!

    :D

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  12. MUITO BOM SEU BLOG!
    PRAZER E HONRA ESTAR AQUI !
    VOLTAREI SEMPRE ,
    UM GRANDE ABRAÇO !

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  13. Como alguém tão "cabeçudo"(foi a única palavra que consegui definir, mas no sentido de centrado,argumentador, cê entende, né?!não foi um insulto, hein?!) como você, pode dizer que eu escrevo bem???me senti no chinelinho quando vi alguns dos seus textos, contos, poemas...você escreve bem pra "care all you"...não li todos, mas pelos que vi, deixo aqui meus parabéns...dôrei....

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  14. Sim, muito satisfeita com sua resposta. Eu não acho que foi um desperdício. É que eu realmente gosto de saber o que motiva as pessoas. E eu sei que o "porque eu amo" geralmente não é de todo verdade. Mas você foi verdadeiro. Senti que foi. Sabe eu também as vezes me escondo nos meus contos. Eu não sei bem como é meu blog, mais creio que seja em sua maioria de contos. Enfim, adoro que você escreva.

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  15. Olá Pierrot!
    As pessoas querem sempre mais, sempre muito mais do que temos a oferecer.
    Sabe, eu acho estranho que algumas pessoas venham me pedir conselhos. Sou tão jovem pra isso e por incrível que pareça as pessoas sempre voltam pra pedir conselhos novamente.
    O que dói, é que às vezes não encontro uma viva alma pra me aconselhar e isso é um problemão.
    Gostei muito do teu texto, você tem um talento raro. Sinceramente, minha atenção ficou presa na tela do PC.
    Beijos e parabéns pelo talento!

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  16. Nossa... muito bom! amo os q sabem escrever cronicas como estas, onde realmente nos fazer pensar. Agora vejo que valeu a pena vir visitar o blog do pierrot que tão solicitamente foi visitas meu bloguinho e deixou um comentario de acalentou meu blog. Parabéns! vc fala de coisas sérias com palavras fortes e que soam lindamente... vou te indicar no meu blog!Nanda (iedananda.zip.net)

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  17. Pierrot, primeiramente obrigado pela visita.
    E de fato seus posts são ótimos!
    Ganhas mais um seguidor.
    E qto ao conto, perfeito. Eles não querem nossa ajuda.
    Penso, no que continuar e no que encerrar de uma vez por todas.

    Abraços meu caro!

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  18. Olá! Muito obrigada pelos elogios, e pelo comentário! Você tinha razão, gostei muito daqui! To seguindo.
    E quando quiser, dê uma passada lá no meu :*

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  19. Belo lugar! Apareça do meu blog quando quiser. Um beijo. Estou a seguir-te.

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  20. O texto ficou muito bom, parabéns!
    Muito bem escrito, me levou a querer lê-lo rápido, me deu ânsia de saber o final.
    Ah, quantas pessoas ajudamos nesta vida. E quantas pessoas já nos ajudaram. Não é moeda-de-troca, acredito,sim, que é amizade; querer bem.
    Obrigada pelos elogios. Estou te seguindo.

    Beijo!

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  21. Te seguir é um prazer , uma honra . Não é segredo que adoro o jeito como você escreve , o conto me tocou muito é super lindo , super delicado , quando fala então de amizade e estender a mão estar ali pra ajudar e é isso que da forças pra ele ouvir e aconselhar os outros , é demais você sempre se supera! parabéns :)

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  22. Olá, tudo bem?
    Fiquei feliz com sua visita em meu blog.
    É sempre bom quando alguém faz algum comentário.
    Achei a sua escrita muito peculiar. O blog é original, parabéns!
    Acho que você vai gostar do blog de uma das minhas irmãs, a Adelita:
    www.querotecontarumsegredo.blogspot.com

    Beijos de luz,

    Aline***

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Queres sussurar algo ao Pierrot? Vá em frente, mas talvez ele esteja demasiadamente imerso na própria loucura para escutar suas palavras sibiladas...