quinta-feira, 4 de março de 2010

Certo em Sua Lógica



Otto sonhava com algo sobre um ventríloquo russo quando o telefone o acordou em seu trim-trim costumeiro.
Atendeu sem muita vontade.
- Oi? - perguntou uma voz feminina muito grave.
- Opa quem é?
- Luana.
- Nossa, oi Lu, como você está?
Otto apoiou o aparelho entre o ombro e o ouvido e se espreguiçou. A voz dela sempre o animava. Havia muito que não trocavam palavras. A última vez que tentara falar com ela havia sido por meio de uma carta. Palavras enviadas pelo correio com o intuito de contá-la como a amava. Ela não respondera. Na época imaginou que o namorado tivesse dado um basta em seus infantis galanteios.
- Oi você já leu a carta que te mandei em resposta? - ela perguntou.
- Não, não li. - se apoiou na janela e observou a floresta lá fora.
- É que não quero que entenda errado Otto, eu fiz uma escolha, mas não quer dizer que não goste de você entende? Eu escolhi ele porque ele é real... você é um sonho, não é real... - a ligação começou a chiar e logo o telefone estava mudo.

Otto se encontrava em um sítio afastado, a linha do telefone estava sempre falhando ou inexistia.
- Então ela respondeu... - ele pensou em voz alta.
Não havia como saber o que havia naquela carta, ele estava muito longe de sua casa, assim como de qualquer vontade de saber o que era. Otto não esperava que ela o respondesse, não havia o que responder, não haviam perguntas, pensou. Ele dissera que a amava e ponto. Quantas respostas haviam para isso? Se ela o amava ou não era uma história sobre a qual ele não havia perguntado. Se sentou na janela e ali se deixei. Um pouco de névoa vinha longe entre as árvores. Lembrou de Lu, menina como nenhuma outra, vivendo seus altos e baixos de forma desgovernada. Sempre entre lágrimas ou gargalhadas. Era uma dama de perdas e paixões. Em algum ponto ele a havia deixado, a havia abandonado. Talvez tivesse sido pouco antes de começar as viagens, não sabia ao certo. Ele era um homem que nunca permanecia muito tempo no mesmo lugar, com as mesmas pessoas ou a mesma mulher. Mesmo nunca havendo se visto pessoalmente, sabiam quase tudo um sobre o outro.

Arrumou suas coisas e partiu novamente. Como sempre, não sabia para onde ou porque, apenas rumava em frente e cada vez mais adentro daquela névoa sempre presente em suas memórias.

Chegou a um local encontrado ao acaso. Colocou a mala no chão e enfiou as mãos no bolso em busca das chaves. Viu seu reflexo no metal da caixa de correio ao lado da porta, viu o envelope amarelado em seu interior, encontrou a chave. Abriu a porta, cruzou a sala, entrou no quarto. A bolsa ficou sobre a cadeira da escrivaninha, as chaves no criado-mudo, as roupas sobre a cama. Enquanto tomava banho tentava decidir o que faria com a correspondência em sua caixa postal. Não conseguiu decidir.

Sentado na sala ele olhava para o envelope fechado sobre a mesa. Devia abrir? Chegou a uma conclusão lógica, sabia que não havia nada ali que o fizesse se arrepender de ter lido. Seu amor era inabalável. Rompeu o lacre e leu a primeira letra, depois a primeira palavra, a primeira frase, o primeiro parágrafo. Seu rosto não se modificou, talvez tenha sequer piscado. A carta era curta. Ela sentia saudades, mas não acreditava que pudessem ficar juntos. Disse o quanto o amou, disse porque passou e por quem seu peito ardia agora. Disse que era a hora, disse-lhe adeus. Recolocou a carta dentro do envelope e se recostou na cadeira com as mãos na nuca. Pensativo ficou. Estava certo em sua lógica, não ligava. O adeus dela fora meramente simbólico, havia muito ele fora dado por um dos lados. Otto não se importava com o que aquela carta simbolizava. Sabia que haviam peças faltando naquele quebra-cabeça. Sabia que iria visitá-la.

Havia encontrado sua casa em boa hora.

10 comentários:

  1. Olá, ^^
    Nossa amei os seus textos,
    *-*
    Parabéns
    Beijos

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  2. Que bom ser louco num mundo em que normais desencadeiam tragédias devastadoras a todo momento, não é mesmo? Adorei seus textos também. Fico feliz pelo elogio que me fez. Infelizmente meu blog anda meio improdutivo. Sou fiel aos meus escritos e não quero digitar umas dúzias de palavras que nada representem. Voltarei a postar quando a criatividade se fizer presente. Mas vou acompanhar o seu pois seus escritos me agradaram. Tenha uma boa semana. Um abraço!

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  3. Gostei muito de sua forma de escrever, amores vem e vão em nossas vidas, mas acredito que o que é para ser da gente um dia será.

    beijos

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  4. Obrigada pela visita em meu blog. Achei muito interessante o seu, quero ler com mais calma os textos. Já estou seguindo. Abraços.

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  5. Olha, gostei muito daqui também, em especial, do visual e fotos daqui.
    Parabéns!
    Vou segui-lo tmabém, abraço.

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  6. omg, você escreve absurdamente bem, invejei *-*
    obg por seguir, vou te seguir tb (:

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  7. Parabéns pelo show de blog companheiro,e por suas palavras colocadas da maneira correta e impactantes.
    Um abraço!

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  8. Gosteii do texto :)
    sigo simm ;)
    obrigadaa :)
    beijoos
    ;**

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  9. agradecendo e visita e correpondendo!
    realmente gostei de mais do que há por aqui, fico mto feliz em saber que existem pessoas nesse mundo que ainda o sentem de uma maneira assim...mais sensível. Vou seguir vc! vou ler o que escreve, quero ler! vc merece!

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  10. Obigado pela sua visita em meu blog, e tbm agradecendo pelos elogios ! Parabéns pelos textos.
    te seguindo (:

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Queres sussurar algo ao Pierrot? Vá em frente, mas talvez ele esteja demasiadamente imerso na própria loucura para escutar suas palavras sibiladas...