quarta-feira, 24 de março de 2010

Antes de Partir

É EXTREMAMENTE RECOMENDÁVEL QUE SE LEIA O TEXTO "SEMPRE MAIS" E EM SEGUIDA "TEMPO DE CAMINHADA" ANTES DE SE INICIAR A LEITURA DESTE. - O Pierrot


Me espreguicei e sentei ao lado da cama. A luz da manhã pulava pela janela e caia sobre minha mesa. Levantei e fui em sua direção. Os livros de moda abertos ao lado do notebook com a tela ainda ligada. Tinha ido dormir muito tarde e me esquecera de desligá-lo. Olhei o relógio. Sete e meia. Olhei as fotos em meu mural na parede. "James e Nika" estava escrito em uma delas. Era uma foto em preto-e-branco. Eu havia tropeçado enquanto tomava um sorvete e acabara sujando de creme a ponta do nariz. James tinha uma mão em meu ombro e me beijava na bochecha enquanto eu ria. Ele tirara a foto com o outro braço. Sorri. Beijei a ponta dos dedos e os levei até o rosto de James no mural.
Tomei banho e me arrumei para sair. Sentei à mesa da cozinha para comer uma maçã antes de partir. James havia me ligado na noite anterior. Lembrei de nossa conversa.

- Querida não vou passar ai hoje, mas amanhã jantamos juntos. Vamos naquele restaurante que você tanto gosta, ok senhorita?
Eu ri.
- Claro amor. Tudo bem, eu também estou com bastante trabalho aqui pra terminar. Escuta, você vai passar na casa do Jeff amanhã?
-Vou sim. Tenho de pegar meu paletó preferido, esqueci ele lá naquela terça que fomos visitá-lo.
- Oba! Escuta, então me encontra lá antes de irmos ao restaurante. Estou com algumas peças de uma provável nova coleção. - Eu e James rimos.
- Tudo bem Nika. Nos vemos amanhã a noite na casa dele então.
- Certo.
- Ok amor, beijos, te amo.
- Também te amo James. Beijos.

Terminei a maçã. Me levantei, peguei minha bolsa e o pacote com as roupas da nova coleção. Desci até a garagem. Coloquei o pacote na mala e a bolsa no banco do carona.

Dei a partida no motor.

Enquanto ajustava o retrovisor, lembrei dos dias em que James me ensinara a dirigir. Lembrei de como eu estava louca para aprender logo, mas me desesperava toda vez que haviam mais de dois carros na rua. James ria e pacientemente colocava sua mão sobre a minha no volante. "Embreagem", ele dizia, "agora passe a marcha com calma... isso, agora vá soltando o pedal da embreagem e pisando com calma no acelerador.". Eu acreditava que nada de ruim aconteceria enquanto a mão dele estivesse sobre a minha. Talvez estivesse certa.

Saí com o carro. No caminho avistei uma floricultura já aberta tão cedo. Resolvi parar. Tinha algum tempo sobrando e a muito não entrava numa daquelas lojas. Adorava o cheiro das flores, a beleza em cada ramo, a delicadeza em cada pétala. Uma atendente esguichava água nos botões. Vi as rosas. Tão belas. Em vermelho tão vivo, tão intenso quanto um beijo de rubros lábios. Não era de se surpreender que representassem o amor. Resolvi comprar uma. Intuição feminina, achei. Coloquei um botão de rosa em meu coque. Paguei e voltei ao carro.

Dei a partida e segui em direção ao trabalho.

Não sei exatamente quando aconteceu. Lembro do som de pneus derrapando. Um farol piscando. Vidro, muito vidro. Perfurando minha pele. Não lembro quem foi o culpado. Tive medo por não ter a mão de James sobre a minha.

Quando acordei, estava deitada em uma maca. Uma sirene tocava. Um rapaz estava ao meu lado observando uma bolsa de soro ligada a meu braço. Quando me movi ele começou a conversar comigo. Tentava me manter acordada. Disse que se chamava Allan. Disse que eu sofrera um acidente e que logo chegaríamos ao hospital. Pediu para que eu prestasse atenção em sua voz. Me mandou não adormecer.
Lembro que lentamente levei a mão à cabeça. O botão ainda estava embaraçado entre meu cabelo. Havia perdido muitas pétalas. Estava tão machucado. Lembro de colocá-lo entre as mãos de Allan e fechá-las com as minhas. Disse o nome de James, James Connor.

Quando fechei os olhos, lembro que Allan disse algo para o outro paramédico. Lembro das frias placas de metal sobre meu peito. "Limpo!", ele gritou. Então veio a corrente elétrica que atravessou meu coração. Meu corpo pulou. Tudo se tornou lento, o segundo era tão longo. Eu caía devagar. Vieram as memórias. Vi o parque por onde minha mãe costumava passear comigo. Meu primeiro cachorro, e como ele insistia em lamber meu rosto quando estava feliz. Lembrei de James e todo o amor que me dera. A mania que ele tinha de tirar fotos quando eu menos esperava. Quantas fotos em preto-e-branco tiradas no momento em que eu acordava e sorria para ele. Podia ver nossas fotos sendo carregadas pelo vento. Meu corpo terminou de cair. As chapas de ferro voltaram ao meu peito.

"Limpo!".

Um trovão.

Envolta em nuvens, uma queda macia. Talvez assim se sentissem os bebês no ventre materno. Tão silencioso.

Me vi a caminhar de mãos dadas com uma pequena criança. Ela ia na frente. Me conduzindo pelo branco sem fim. As vezes ela olhava para trás. Então eu via seu rosto. Grandes bochechas, olhos castanhos, cabelos negros. Descobri ser eu mesma quando pequena. Ela parou, coçou a cabeça com a pequena mão e me olhou curiosa.
- Nika, para onde vamos agora? - ela perguntou
- Não sei. - eu disse, olhando o infinito branco
- Estou com medo, Nika. - ela disse enquanto puxava a ponta de minha camisa
- Tudo bem querida, não se preocupe. Vai dar tudo certo. - eu afaguei-lhe a cabeça e ela se agarrou à minha perna
- Tou cansada Nika. - disse ela sonolenta
-Tudo bem, não se preocupe, venha.
Apanhei-a no colo. Ela colocou os braços em torno do meu pescoço e apoiou a cabeça em meu ombro. Não demorou muito para adormecer. Avistei um banco no meio daquela vastidão. Me sentei nele. Tinha sono. Me deixei levar. Meus olhos começaram a se fechar. Pensei em James. Desejei ter tido tempo para um último beijo, um último sorriso, uma última foto.

25 comentários:

  1. Saudações meu caro Pierrot.
    Seus textos são realmente incríveis, regados à uma tristeza, a bem querer, amor, compaixão.
    Enfim, uma mescla enorme de sentimentos que são espalhados em cada pensamento.

    Meus parabéns meu caro.
    Realmente esta de parabéns.

    Abs

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  2. Oi amigo

    Obrigada por me avisar, e você realmente me toca na forma que escreve.

    E saiba que a muito tempo, uma leitura não me faz chorar, e vc ja fez isso duas vezes.

    Estou aqui aos prantos, por imaginar como a vida pode ser tão breve e o quanto somos frageis.

    É uma bela historia, triste, mas que me fez pensar em muitas coisas.

    Obrigada por partilhar este teu dom.

    Beijos

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  3. Muito bom..
    conseguiu descrever bem tres pontos de vista de tres pessoas com personalidades diferentes..

    parabens cara..
    muito bom mesmo!

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  4. Lindo. Sua descrição lembrou-me o nascimento do meu filho mais novo (hoje com 10 anos) qdo de repente no meio da cesárea minha pressõa baixou muito. E eu percebia tudo, sem conseguir falar, como sussuros longinguos. Não sentia medo, nem dor...Pensava "estou morrneodo" e não temia. Tudo foi rápido, mas passava lentamente em minha mente. E eu via uma criança-sorrindo e pensava: é meu filho.

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  5. Só poderei sussurar baixinho...

    Sua narrativa é sublime.
    Encanta-me o desfecho triste e verdadeiro da história.
    Ela só pensou no amor na hora da partida... espero que seja assim com todos!

    Parabéns!

    Beijos sangrentos da vampira Laysha.

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  6. Bah! Muito bom isso!

    A mudança de narrador, a voz de Nika no texto, a memória do conto anterior, você resgata as cenas na hora certa!
    As minudências tecem a trama, sem comprometer o dinamismo e o prazer da leitura! É muito bom isso!
    Além do mais, você narra com elegância a voz feminina, coisa de Escritor de verdade!

    Parabéns Pierrot!!!

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  7. Care all you...ficou belo..belo não, belíssimo..meio triste..tá bom confesso, ficou super triste.sniff..Mas fiquei maravilhada..
    Uma perguntinha, esse é o fim??? se for putz grila, cadê a felicidade nesses corações???
    Obrigada pelo coment lá no travessa, resolvi me soltar um pouquinho..
    agradecida...nany.

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  8. Muito bom mesmo, mas ainda prefiro o de antes
    Ah, eu já te disse o que achei do texto. Lindo pra variar. Parabéns, Senhor Pierrot, muito bom.

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  9. A vida pode ser tão triste e trágica. De uma forma diferente gostei tanto das versões de sua historia. Tão lindo, tão trágico também. Ultimamente ando vendo beleza nas tragédias Talvez realmente sejam as mais bonitas.

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  10. Nossa Pierrot, que final triste.
    Fiquei pensando enquanto lia, imaginando como é ser levado pela morte, pra que lugar nós vamos, imaginei também as vozes de James e Nika falando ao telefone...
    Incrível... é raro achar finais tristes assim, que não deixam aquele vazio, sabe. Geralmente a gente fica pensando: "e o resto?". Mas com seu conto não... acabou como sempre acaba, naturalmente.
    Beijo!

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  11. Seu estilo muito me atrai. Bem descritivo, transporta teus leitores para outros lugares, tempos e cenas.
    Estória bem amarrada, gostei muito e voltarei mais vezes.

    Beijos

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  12. primeiro obrigado pelos comentários em meu blog, depois mias uma vez parabéns! um excelente desfecho!

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  13. Sem palavras!
    Sou uma grande admiradora sua!

    boa noitee!

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  14. Como vc consegue? chega chorei(pode ser a tpm, mas chorei) bem que eu tinha percebido no fim "sempre mais" que james tava triste... parabéns! até te indiquei no twitter (entre mil besteiras algo que presta @nanda_ieda ) esperando os proximos posts! =) (iedananda.zip.net/)

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  15. meu caro...tu preciso morre pa rescreve???!!heheh
    muito bao...
    me lembbra memorias postumas do mestre machado...
    andas bebendo de uma rica fonte hein meu contista!!!
    abraaxx meu rei

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  16. ah manu se me permite uma intervenção...
    suas linhas nao precisam d trilha sonora!!!
    elas são soberanas por si proprias!!!abraxx

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  17. você, simplesmente me deixou sem palavras. Os três textos estão ótimos. Você tem grandeza e leveza em suas palavras.

    Só posso dizer que seus textos são lindos, e te deixar meus parabéns!

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  18. Oii.
    Primeiramente obg por ter passado no meu Blog e comentado lá..
    Adorei o texto, adorei o Blog, estou seguindo.
    Abs

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  19. Oi ;p
    te indiquei para o selo no meu blog, dá uma passada lá que eu fiz um post explicando melhor. Até mais

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  20. Claro claro, eu entendo (:
    Mas vc acha q devo tirar a indicação do seu blog da minha postagem??
    AH, eu li os tres posts, e adorei (:

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  21. Cara,de verdade, muito bom. Conheci teu blog hoje e lamento não ter antes. Mas agora tá valendo, voltarei sempre.Te seguindo. Parabéns. Ah! Passa lá no Molhe-se:

    http://molhe-se.blogspot.com/

    Beeejo.

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  22. Perfeito. maravilhoso como vê os ângulos pelos olhos de cada personagem, de uma maneira tão envolvente, é uma arte.
    Apesar de triste é lindo, e as cenas vão se reproduzindo calmamente na nossa frente.
    Parabéns amigo.
    Abraços.....

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  23. tantos comentários bons, que eu fico com vergonha de postar o meu!!! =D

    então oque estava dentro da caixa de ferro era a rosa?

    fiquei me perguntando oque seria =D...agora está respondido....

    adorei Pierrot...
    Ela me pareceu a Arian nesse texto, não sei o por que disso...

    um grande abraço

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