quarta-feira, 24 de março de 2010

Antes de Partir

É EXTREMAMENTE RECOMENDÁVEL QUE SE LEIA O TEXTO "SEMPRE MAIS" E EM SEGUIDA "TEMPO DE CAMINHADA" ANTES DE SE INICIAR A LEITURA DESTE. - O Pierrot


Me espreguicei e sentei ao lado da cama. A luz da manhã pulava pela janela e caia sobre minha mesa. Levantei e fui em sua direção. Os livros de moda abertos ao lado do notebook com a tela ainda ligada. Tinha ido dormir muito tarde e me esquecera de desligá-lo. Olhei o relógio. Sete e meia. Olhei as fotos em meu mural na parede. "James e Nika" estava escrito em uma delas. Era uma foto em preto-e-branco. Eu havia tropeçado enquanto tomava um sorvete e acabara sujando de creme a ponta do nariz. James tinha uma mão em meu ombro e me beijava na bochecha enquanto eu ria. Ele tirara a foto com o outro braço. Sorri. Beijei a ponta dos dedos e os levei até o rosto de James no mural.
Tomei banho e me arrumei para sair. Sentei à mesa da cozinha para comer uma maçã antes de partir. James havia me ligado na noite anterior. Lembrei de nossa conversa.

- Querida não vou passar ai hoje, mas amanhã jantamos juntos. Vamos naquele restaurante que você tanto gosta, ok senhorita?
Eu ri.
- Claro amor. Tudo bem, eu também estou com bastante trabalho aqui pra terminar. Escuta, você vai passar na casa do Jeff amanhã?
-Vou sim. Tenho de pegar meu paletó preferido, esqueci ele lá naquela terça que fomos visitá-lo.
- Oba! Escuta, então me encontra lá antes de irmos ao restaurante. Estou com algumas peças de uma provável nova coleção. - Eu e James rimos.
- Tudo bem Nika. Nos vemos amanhã a noite na casa dele então.
- Certo.
- Ok amor, beijos, te amo.
- Também te amo James. Beijos.

Terminei a maçã. Me levantei, peguei minha bolsa e o pacote com as roupas da nova coleção. Desci até a garagem. Coloquei o pacote na mala e a bolsa no banco do carona.

Dei a partida no motor.

Enquanto ajustava o retrovisor, lembrei dos dias em que James me ensinara a dirigir. Lembrei de como eu estava louca para aprender logo, mas me desesperava toda vez que haviam mais de dois carros na rua. James ria e pacientemente colocava sua mão sobre a minha no volante. "Embreagem", ele dizia, "agora passe a marcha com calma... isso, agora vá soltando o pedal da embreagem e pisando com calma no acelerador.". Eu acreditava que nada de ruim aconteceria enquanto a mão dele estivesse sobre a minha. Talvez estivesse certa.

Saí com o carro. No caminho avistei uma floricultura já aberta tão cedo. Resolvi parar. Tinha algum tempo sobrando e a muito não entrava numa daquelas lojas. Adorava o cheiro das flores, a beleza em cada ramo, a delicadeza em cada pétala. Uma atendente esguichava água nos botões. Vi as rosas. Tão belas. Em vermelho tão vivo, tão intenso quanto um beijo de rubros lábios. Não era de se surpreender que representassem o amor. Resolvi comprar uma. Intuição feminina, achei. Coloquei um botão de rosa em meu coque. Paguei e voltei ao carro.

Dei a partida e segui em direção ao trabalho.

Não sei exatamente quando aconteceu. Lembro do som de pneus derrapando. Um farol piscando. Vidro, muito vidro. Perfurando minha pele. Não lembro quem foi o culpado. Tive medo por não ter a mão de James sobre a minha.

Quando acordei, estava deitada em uma maca. Uma sirene tocava. Um rapaz estava ao meu lado observando uma bolsa de soro ligada a meu braço. Quando me movi ele começou a conversar comigo. Tentava me manter acordada. Disse que se chamava Allan. Disse que eu sofrera um acidente e que logo chegaríamos ao hospital. Pediu para que eu prestasse atenção em sua voz. Me mandou não adormecer.
Lembro que lentamente levei a mão à cabeça. O botão ainda estava embaraçado entre meu cabelo. Havia perdido muitas pétalas. Estava tão machucado. Lembro de colocá-lo entre as mãos de Allan e fechá-las com as minhas. Disse o nome de James, James Connor.

Quando fechei os olhos, lembro que Allan disse algo para o outro paramédico. Lembro das frias placas de metal sobre meu peito. "Limpo!", ele gritou. Então veio a corrente elétrica que atravessou meu coração. Meu corpo pulou. Tudo se tornou lento, o segundo era tão longo. Eu caía devagar. Vieram as memórias. Vi o parque por onde minha mãe costumava passear comigo. Meu primeiro cachorro, e como ele insistia em lamber meu rosto quando estava feliz. Lembrei de James e todo o amor que me dera. A mania que ele tinha de tirar fotos quando eu menos esperava. Quantas fotos em preto-e-branco tiradas no momento em que eu acordava e sorria para ele. Podia ver nossas fotos sendo carregadas pelo vento. Meu corpo terminou de cair. As chapas de ferro voltaram ao meu peito.

"Limpo!".

Um trovão.

Envolta em nuvens, uma queda macia. Talvez assim se sentissem os bebês no ventre materno. Tão silencioso.

Me vi a caminhar de mãos dadas com uma pequena criança. Ela ia na frente. Me conduzindo pelo branco sem fim. As vezes ela olhava para trás. Então eu via seu rosto. Grandes bochechas, olhos castanhos, cabelos negros. Descobri ser eu mesma quando pequena. Ela parou, coçou a cabeça com a pequena mão e me olhou curiosa.
- Nika, para onde vamos agora? - ela perguntou
- Não sei. - eu disse, olhando o infinito branco
- Estou com medo, Nika. - ela disse enquanto puxava a ponta de minha camisa
- Tudo bem querida, não se preocupe. Vai dar tudo certo. - eu afaguei-lhe a cabeça e ela se agarrou à minha perna
- Tou cansada Nika. - disse ela sonolenta
-Tudo bem, não se preocupe, venha.
Apanhei-a no colo. Ela colocou os braços em torno do meu pescoço e apoiou a cabeça em meu ombro. Não demorou muito para adormecer. Avistei um banco no meio daquela vastidão. Me sentei nele. Tinha sono. Me deixei levar. Meus olhos começaram a se fechar. Pensei em James. Desejei ter tido tempo para um último beijo, um último sorriso, uma última foto.

sábado, 20 de março de 2010

Tempo de Caminhada

É ALTAMENTE RECOMENDÁVEL QUE SE LEIA O CONTO "SEMPRE MAIS" ANTES DE SE INICIAR A LEITURA DESTE. - O Pierrot


- Como assim não liga mais? - perguntei a meu velho amigo Jeff Black
- Não ligo ora, cansei. - ele disse arrastado
- O que quer dizer com isso Jeff?
Ele parou, pensou por um momento e permaneceu calado.
- Mas o que vai fazer se alguém lhe pedir um conselho como sempre acontece? Vai negar? Se abster?
- Provavelmente.
Estalei a língua e o olhei severamente.
- Ai tem coisa Jeff. O que houve?
- Está na sua hora Connor. Melhor ir ou vai se atrasar.
Olhei o relógio no pulso e deixei escapar um "merda". Agarrei a maleta sobre a mesa e saí apressado. Jeff ficou na porta, observando enquanto eu apertava freneticamente o botão do elevador.
- Você esqueceu de dar o nó na gravata e abotoou o paletó uma casa errada James. - disse ele, rindo descontraidamente
- Droga, droga droga! - o elevador chegou e entrei fazendo o nó da gravata. Quando a porta começou a se fechar, parei o nó e apontei para Black - Quando eu voltar quero saber o que raios houve!
A porta fechou. O elevador bipou e desceu. Terminei a gravata e abotoei o paletó novamente. Observei as paredes metálicas à minha volta. Detestava elevadores desde pequeno. A porta abriu e eu fugi dali. Caminhei até o trabalho.

Pensava no trabalho. Odiava aquela rotina, aquele emprego, aquela situação. Meu único consolo vinha do fato de que fora graças àquele escritório que eu conhecera Nika, minha noiva. Mas ela agora trabalhava com uma empresa de moda e desistira daquele emprego a muito tempo. Lembrei de como ela adorava testar suas novas linhas masculinas em Jeff. Os dois se davam muito bem. Eu ria da expressão no rosto de Jeff sempre que Nika aparecia com algum modelo bufante. Amava o jeito espontâneo dela, seus pequenos olhos orientais. Tinhamos um jantar marcado para depois de meu expediente.

Cheguei a meu andar. As portas do elevador se fecharam como barras às minhas costas.
- Bem vindo de volta à nossa empresa! - zombou um de meus colegas - espero que aproveite a estadia!
- Cooonnor! - gritou o chefe enquanto se aproximava com uma pasta de documentos nos braços - Porque diabos está parado ai? Tenho doze clientes insatisfeitos e uma pilha de formulários incompletos. Mas parece que você está disponível, não? Pois bem, pode ficar com eles.
O chefe me entregou os documentos e partiu. Permaneci ali por mais alguns momentos, então me dirigi à minha célula e iniciei minha jornada diária.
Deixei os olhos correrem por ali. Era o mesmo cubículo branco onde eu me sentava todo dia entre as nove e as seis. Olhei a tela do computador. Nomes, telefones, motivos pelos quais nos estavam processando. Cada um queria algo de mim. Olhei as células adjacentes à minha. Cada uma precisava de algo de mim. Olhei a pasta e seus documentos. Em cada um faltava minha assinatura. Olhei a foto de Nika colada ao lado do monitor. Cada pedaço de mim precisava dela.

O telefone disparou seu chamado sobre minha mesa. Ignorei-o. Ele tocou mais algumas vezes antes de desistir de mim. Assinei relatórios e liguei para clientes. Me levantei e fui entregar alguns documentos. O telefone reclamou novamente na mesa, mas eu estava longe. Não tardou a desistir de me chamar.

Chegou a pausa do almoço e como de costume saí com Alex. Almoçamos em restaurante perto do edifício da firma. Conversamos sobre a vontade de deixar a empresa muito em breve. Eu pretendia abrir uma loja de aeromodelos para colecionadores.
Quando retornamos alguém me disse que o telefone havia reclamado incessantemente. "Nem durante meu almoço a firma quer me deixar em paz...", pensei. Me sentei e observei a foto de Nika mais uma vez. Eu a tirara pouco depois de termos nos conhecido. Fora em um restaurante. Ela tinha o braço estendido em minha direção, tentando agarrar a câmera e impedir que eu batesse a foto.

Terminei o expediente e me aprontei para sair. Passava pela porta quando uma mão me deteve.
- Seu telefone está tocando Connor. - disse meu chefe com pouca graça
Me voltei e escutei a campainha saindo de minha célula. Relutei um pouco se devia me dar ao trabalho de atender aquela chamada. Observei a beleza rústica do telefone sobre a mesa. Era um modelo antigo, negro, com o tambor de números brancos. Eu o adorava. Tomei o fone do gancho e o apoiei no ouvido.
- Senhor James? James Connor? - perguntou uma voz feminina do outro lado
- Sim, ele mesmo.
- Senhor Connor, tenho tentado entrar em contato com o senhor o dia inteiro.
- Do que se trata madame?
- Senhor Connor, sinto em ter de lhe relatar isso, mas sua noiva se envolveu em um acidente de trânsito. Os paramédicos foram acionados, mas ela não resistiu e faleceu a caminho do hospital.
Fiquei em silêncio. Tinha certeza de estar em sono profundo. Logo eu acordaria e aquela piada de mal gosto terminaria.
- Senhor Connor, o senhor está ai?
- Sim - respondi sem saber porque
- Sua noiva entregou um item a um de nossos paramédicos e o pediu para entregar o item ao senhor.
- O que é?
- Não sei informar senhor. O paramédico saiu a pouco e disse que iria pessoalmente lhe entregar.
- Obrigado.
Deixei o fone escorregar por entre meus dedos e voltar ao gancho. Me sentei. Fiquei ali. Não escutava nada além de um zunido. Não via nada além da foto dela embaçada. Não produzi qualquer som além da respiração. Me sentia como em outro mundo. Um universo paralelo onde a dor não podia me ferir. Sentado, fiquei a esperar o momento em que acordaria.

Esperei... ele não veio. Ninguém me acordou.

Então o mundo se tornou tão intangível. A realidade tão suja. Meu desejo era chorar e chorar. Até que meus olhos secassem, até que minha visão se fosse. Queria cair em algum lugar que me levasse para aquele outro mundo. Um local sem lembranças ou falsas promessas. Senti vontade de desabafar com alguém, mas que diferença faria? Não seriam palavras de consolo que a trariam de volta. Não era um abraço amigo ou um "sinto muito" que eu queria. Queria ela. Só ela. Precisava dela. Ela era mais que uma mulher, era mais do que eu, era mais do que eu pudesse explicar. Ela seria aquela que me salvaria de mim mesmo.

Teria de seguir em frente sozinho. Sem poder chorar, sem poder me deixar cair. Se caísse talvez nunca me levantasse. Me perguntava porque o peso de minhas pernas havia subitamente aumentado em algumas toneladas. Me perguntava quanto tempo de caminhada eu ainda teria.

Me levantei. Não vi ninguém, uma sombra me disse algo enquanto eu entrava no elevador. Não sei o que foi. Não queria saber. O elevador desceu lentamente. Aquela caixa de ferro parecia tão fria, tão apertada. Olhei para cima. Através da luz vi Jeff. Ele estava lá em cima, na porta aberta. Não havia elevador, apenas o fosso. Ele me olhava com a mão estendida. Ele queria que eu a agarrasse. Não. Eu lembrava daquela cena. Sim. Mas porque era ele lá e não eu?
A luz se foi. O frio metal voltou. A porta do elevador abriu. Não lembro como cheguei em casa. Não sei quanto tempo demorou. Não sei se fui direto para lá. Quando abri a porta vi Jeff sentado no sofá. Ele assistia ao noticiário. Peguei um copo de café e me deixei cair sobre o banco na bancada. Lembrei da decisão que ele havia tomado pela manhã. Talvez eu o entendesse um pouco mais agora.
- Não é ajuda o que eles querem é? - eu perguntei com voz rouca enquanto olhava o café sobre a bancada.
- Não... não acho que seja. - ele respondeu
Deixei que a fumaça do café subisse e me levasse embora. Pensei no item do paramédico. O noticiário falava sobre uma frente fria que se aproximava.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Sempre Mais



- Como assim não liga mais? - perguntou meu velho amigo James Connor
- Não ligo ora, cansei. - disse arrastado
- O que quer dizer com isso Jeff?
Não tinha certeza. Eu sempre fora o conselheiro dos amigos. Quando disse que estava cansado de me preocupar com os problemas alheios, não sabia exatamente o que isso ia mudar.
- Mas o que vai fazer se alguém lhe pedir um conselho, como sempre acontece? Vai negar? Se abster?
- Provavelmente.
James estalou a lingua e me olhou severamente.
- Ai tem coisa Jeff. O que houve?
- Está na sua hora Connor. Melhor ir ou vai se atrasar.
James olhou o relógio no pulso e deixou escapar um "merda". Agarrou a maleta sobre a mesa e saiu apressado. Fiquei da porta, observando enquanto ele apertava freneticamente o botão do elevador.
- Você esqueceu de dar o nó na gravata e abotoou o paletó uma casa errada James. - disse, rindo descontraidamente
- Droga, droga droga! - o elevador chegou e Connor entrou fazendo o nó da gravata. Quando a porta começou a se fechar, ele parou o nó e apontou para mim - Quando eu voltar quero saber o que raios houve!
A porta fechou. O elevador bipou e desceu.

Retornei à cozinha. Peguei uma xícara de café e me recostei a parede. Pensei em fumar um cigarro, mas estava tentando parar. Tinha mais algum tempo até que minha hora de partir para o trabalho chegasse. Observei a fumaça subindo de minha xícara de café. A deixei me levar.

A alguns dias havia me reencontrado com uma velha amiga chamada Bia. Lembrava de quando saíamos juntos, de como ela sempre me dizia estar buscando alguém para amar. Ela dizia sempre que queria um homem como eu, seu melhor amigo. Lebrava de como os namorados dela iam e vinham. Sempre a maltratando, a machucando. Eu a consolava e dizia que estava apenas procurando na pratileira errada. Aconselhava-a a nunca desistir, a mirar alto. Ela me contava sobre as decepções, todos arranhões que levara, tantos tapas que ganhara. Eu dizia que todos tinhamos nossa cota de dor. Com o tempo Bia foi me envolvendo. Ganhando espaço no meu coração. Por fim me apaixonei por ela. Me declarei. Ela disse que sentia o mesmo. Fizemos amor. Dei a ela todo meu respeito, todo meu peito. No entanto, quando a pedi em namoro, ela recusou. Tinha acabado de terminar um relacionamento. Eu entendi.
Uma semana depois de pedi-la em namoro, ela me confidenciou que estava amando loucamente alguém que conhecera. Me perguntei como diabos ela poderia ter começado a amar loucamente alguém em apenas uma semana. Confesso que me surpreendi com a velocidade que fora trocado. Eu, que sempre tentara ajudá-la, apoia-la, e por fim amá-la.
A alguns dias então, ao reencontrá-la, me contou que casara com o rapaz. Moravam em algum fim de mundo do qual não recordo o nome. Bia trabalhava de vendedora em uma loja de roupas. Ele tinha uma banda e ela acreditava que um dia seriam famosos. Quanta tolice. Quanta tristeza.

Terminei o café. Coloquei a caneca sobre a pia e peguei minhas chaves ao lado da porta. O trabalho me esperava. Desci pelo elevador até o subsolo. Me lembrei de James e de como costumávamos brincar no playground do condomínio. Certa vez quando brincávamos de pique-esconde e eu resolvera me esconder no poço do elevador. Lembrei de quando o elevador veio e me apertou contra o chão. A claustrofobia que me acometeu. Lembrei do medo de morrer ali só. Lembrei de quando o elevador subiu novamete. De quando abri os olhos e vi Connor aos prantos, seu pequeno braço estendido em minha direção para que eu pudesse sair dali.

Dei a partida no carro. Guiei pelas ruas tão connhecidas. Costumava andar de bicicleta por ali com Felipe Andersonn. Podia nos ver pedalando pelo asfalto, por entre as fachadas antigas e gastas. Andersonn tinha uma saúde impecável. Estava sempre praticando algum esporte. Eu sempre lhe dizia para tentar ser profissional. "Você é o melhor esportista que conheço!". Certo dia ele resolveu seguir meu conselho e se tornar ciclista profissional. Era bom. O melhor que eu já tinha visto. Suas arrancadas eram surpreendentes. Abria metros de vantagem em pouco tempo. Eramos bons amigos então. Eu sempre o incentivava a continuar, a nunca deixar de cuidar do corpo e da saúde.
Cheguei ao trabalho. Cumprimentei meus colegas, e rumei até minha sala. Comecei a revisar os documentos que me haviam sido encaminhados. Havia sido num dia exatamente como aquele em que eu ficara sabendo da morte de Felipe.
Foi durante uma pausa para beber água que escutei a televisão da cafeteria anunciando a manchete fúnebre. "Acidente", pensei. "Overdose", esclareceu a repórter. De acordo com o noticiário, ele vinha consumindo substâncias ilegais a tempos e driblando exames anti-dopping. Lembro de como a única coisa que pronunciei foi um sonoro "filho-da-puta". O desgraçado havia me enganado durante anos. Eu jamais desconfiara. Porque nunca havia me contado? Eu podia tê-lo ajudado, não eramos amigos? Não éramos?

Terminei o trabalho do dia. Arrumei minhas coisas. Abri a gaveta para guardar o grampeador. No fundo havia um envelope de sedex aberto. Lá dentro estava o convite para o o enterro de Felipe. Uma cerimônia fechada à qual eu nunca comparecera.

Guiei meu carro de volta ao apartamento. Fernando, Lívia, John, Bella... quantas pessoas mais eu tentara ajudar? Quantos conselhos inúteis, apoios que de nada adiantaram? Nunca era o bastante. Eles queriam mais, sempre mais. O egoismo não tinha limites. Eu tentava dá-los esperanças, eles tentavam tomar as minhas. Cada vez eram mais bem sucedidos em me convencer de que nada podia fazer para ajudá-los.

Eu sabia que não queria mais tentar ajudá-las. Mas me lembrava de James. Me lembrava de sua mão estendida, das lágrimas correndo por seu rosto quando viu que eu estava vivo, de como chorava e soluçava. Lembrava de meu medo de terminar sozinho naquele poço. Só e esquecido. Sem ninguém por mim.

Entrei no apartamento, não demorou muito até que Connor chegasse. Eu estava na sala assitindo ao noticiário. Ele preparou café e ficou sentado na bancada da cozinha. Parecia abatido e triste. Me perguntou com voz rouca:
- Não é ajuda que eles querem é?
- Não... não acho que seja.
Continuou a tomar o café em silêncio. O noticiário falava sobre uma frente fria que se aproximava.

terça-feira, 9 de março de 2010

Carbono Musical


Amor, doce sinfonia que toca sempre em unissínuo. Poucas vezes para si, comumente para o para o próximo. Seu início tem fina beleza. Suas notas nunca repetidas. Mas com o tempo a mão se cansa, o ritmo se confunde, a pauta já não é legivel. Ahhh e que triste melodia então. Feia. Fracassada. Simplesmente triste.
Nota a nota ela segue rumo a fim inevitável. O fogo queima as partituras e a música cessa. Vento vem e espalha as cinzas. Leva ao mundo a antiga canção inicial. Sem erros ou notas iguais. Impregna de carbono musical os locais que lhes eram favoritos, suas palavras secretas, suas memórias.
Visite aquele banco antigo, aquela rua em que sempre passavam, o local do primeiro beijo.
Vai escutar aquela bela melodia, que já não traz mais alegria.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Certo em Sua Lógica



Otto sonhava com algo sobre um ventríloquo russo quando o telefone o acordou em seu trim-trim costumeiro.
Atendeu sem muita vontade.
- Oi? - perguntou uma voz feminina muito grave.
- Opa quem é?
- Luana.
- Nossa, oi Lu, como você está?
Otto apoiou o aparelho entre o ombro e o ouvido e se espreguiçou. A voz dela sempre o animava. Havia muito que não trocavam palavras. A última vez que tentara falar com ela havia sido por meio de uma carta. Palavras enviadas pelo correio com o intuito de contá-la como a amava. Ela não respondera. Na época imaginou que o namorado tivesse dado um basta em seus infantis galanteios.
- Oi você já leu a carta que te mandei em resposta? - ela perguntou.
- Não, não li. - se apoiou na janela e observou a floresta lá fora.
- É que não quero que entenda errado Otto, eu fiz uma escolha, mas não quer dizer que não goste de você entende? Eu escolhi ele porque ele é real... você é um sonho, não é real... - a ligação começou a chiar e logo o telefone estava mudo.

Otto se encontrava em um sítio afastado, a linha do telefone estava sempre falhando ou inexistia.
- Então ela respondeu... - ele pensou em voz alta.
Não havia como saber o que havia naquela carta, ele estava muito longe de sua casa, assim como de qualquer vontade de saber o que era. Otto não esperava que ela o respondesse, não havia o que responder, não haviam perguntas, pensou. Ele dissera que a amava e ponto. Quantas respostas haviam para isso? Se ela o amava ou não era uma história sobre a qual ele não havia perguntado. Se sentou na janela e ali se deixei. Um pouco de névoa vinha longe entre as árvores. Lembrou de Lu, menina como nenhuma outra, vivendo seus altos e baixos de forma desgovernada. Sempre entre lágrimas ou gargalhadas. Era uma dama de perdas e paixões. Em algum ponto ele a havia deixado, a havia abandonado. Talvez tivesse sido pouco antes de começar as viagens, não sabia ao certo. Ele era um homem que nunca permanecia muito tempo no mesmo lugar, com as mesmas pessoas ou a mesma mulher. Mesmo nunca havendo se visto pessoalmente, sabiam quase tudo um sobre o outro.

Arrumou suas coisas e partiu novamente. Como sempre, não sabia para onde ou porque, apenas rumava em frente e cada vez mais adentro daquela névoa sempre presente em suas memórias.

Chegou a um local encontrado ao acaso. Colocou a mala no chão e enfiou as mãos no bolso em busca das chaves. Viu seu reflexo no metal da caixa de correio ao lado da porta, viu o envelope amarelado em seu interior, encontrou a chave. Abriu a porta, cruzou a sala, entrou no quarto. A bolsa ficou sobre a cadeira da escrivaninha, as chaves no criado-mudo, as roupas sobre a cama. Enquanto tomava banho tentava decidir o que faria com a correspondência em sua caixa postal. Não conseguiu decidir.

Sentado na sala ele olhava para o envelope fechado sobre a mesa. Devia abrir? Chegou a uma conclusão lógica, sabia que não havia nada ali que o fizesse se arrepender de ter lido. Seu amor era inabalável. Rompeu o lacre e leu a primeira letra, depois a primeira palavra, a primeira frase, o primeiro parágrafo. Seu rosto não se modificou, talvez tenha sequer piscado. A carta era curta. Ela sentia saudades, mas não acreditava que pudessem ficar juntos. Disse o quanto o amou, disse porque passou e por quem seu peito ardia agora. Disse que era a hora, disse-lhe adeus. Recolocou a carta dentro do envelope e se recostou na cadeira com as mãos na nuca. Pensativo ficou. Estava certo em sua lógica, não ligava. O adeus dela fora meramente simbólico, havia muito ele fora dado por um dos lados. Otto não se importava com o que aquela carta simbolizava. Sabia que haviam peças faltando naquele quebra-cabeça. Sabia que iria visitá-la.

Havia encontrado sua casa em boa hora.

Por motivos a mim conhecidos...

Por motivos a mim conhecidos resolvi voltar a postar nesse blog... mais informações são desnecessárias...