quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Talvez Culpa


O ventilador gemia e balançava no teto. Richard abriu os olhos devagar. Estava deitado de bermuda perto da cama. Afastou algumas latas de cerveja de seus pés e se sentou à beira do colchão. Olhou ao redor. Alguém havia dormido no sofá, haviam se esquecido de um boné ao lado da TV, havia uma calcinha do lado do abajur. Richard sabia que o quarto de janelas fechadas estava impregnado pelo cheiro de cigarro, mas nada sentia. Tateou a mesa de cabeceira até encontrar o isqueiro e o maço, acendeu um cigarro, esfregou o rosto. Ficou na beira da cama a tentar se lembrar quem era. Deu mais um trago e deixou as cinzas caírem no chão.

Não sabia o peso do próprio corpo até se levantar. A boca amargava como o jornal dia. Abriu a geladeira. Bebeu água, não foi o bastante. Viu uma solitária lata de cerveja. Tentou pegá-la, mas algo o deteu. Talvez culpa.

O chuveiro aliviava a dor nos ombros. Se secou, fez a barba, arrumou o cabelo, trocou a roupa, passou desodorante, escarrou, acendeu outro cigarro.

Pegou um saco e se livrou de todas as latas e bigas espalhadas pela casa. Na mesa, ao lado de uma garrafa de Vodcka vazia havia um cupom. "Ressaca Show, A FESTA!" era o que se lia. Rasgado em cima, um troféu trazido para casa. Atrás um número de celular e uma caligrafia delicada que pedia "Me liga". Richard se sentou na mesa e observou o convite. Se lembrou de ter marcado de ir naquela festa com os amigos. Se lembrou de estar na porta do clube com o grupo. Se lembrou de terem prometido não deixar a noitada até que Carlos conseguisse o número de alguma garota. Se perguntou de quem era aquele número no bilhete, se perguntou para quem era aquele número no bilhete. O guardou na carteira. Acendeu outro cigarro.

Reconheceu um envelope em sobre o televisor. O observou por alguns instantes. Aberto, carta e foto semi-visíveis. Deu uma longa tragada no cigarro antes de pegar a foto. Uma mulher o abraçava por trás sorrindo. Ele tinha uma mão no bolso e a outra se erguia para tirar o cigarro dos lábios. Também sorria com o canto da boca. Recolocou a foto no envelope e passou os olhos pela carta. "Fazemos nossas escolhas" foi tudo que leu antes de guardá-la juntamente da foto. Jogou o envelope no lixo.

Sentado no sofá, apoiado nos joelhos, dedos cruzados, cigarro recém aceso. Tentava descobrir se se ficasse imóvel tempo o bastante vagando em pensamentos, chegaria à algum tipo de revelação ou iluminação. Bateu o cigarro na garrafa de Vodcka e esfregou o rosto. Se levantou e voltou à lixeira. Envelope sujo de cinzas. Fechou o punho e acertou a parede à sua frente. Retirou o envelope do lixo e o guardou em seu armário.

Richard colocou os fones de seu mp4, abriu a geladeira, pegou a última cerveja e a abriu com gosto. Sorriu. Tinha um encontro marcado em um churrasco e já estava atrasado.

Um comentário:

  1. A perda de uma pessoa as vezes faz com que vc encare a vida de um outro modo...as vezes só para cobir, com uma placa fina de vidro, um buraco dixado à muito...adorei o texto eddy...
    mandou mt bem...

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Queres sussurar algo ao Pierrot? Vá em frente, mas talvez ele esteja demasiadamente imerso na própria loucura para escutar suas palavras sibiladas...