terça-feira, 10 de novembro de 2009

Mármore


Disse que iria me atrasar e desliguei o telefone. Olhei nossa foto na cabeceira e sorri. Meu doce anjo. Me arrumei com terno e gravata. Ela costumava dizer que eram a minha cara. "Meu bom menino", ela ria. Desci para comprar flores. A loja tinha a própria estufa ao fundo, da entrada se viam os arbustos floridos. O badalar de um pequeno sino me denunciou quando abri a porta. Nina saiu do balcão e preparou um buquê antes que eu pudesse pronunciar qualquer coisa.
-Vai visitar Patrícia hoje Renam? - perguntou com o sorriso habitual ao me ver
-Sim, se fico muito tempo longe ela se sente sozinha. - disse
-Velhos hábitos não se perdem, sempre rosas vermelhas. Você também sente falta de visitá-la, admita. - ela riu enquanto ajeitava minha gravata
-Sim é verdade - disse com largo sorriso
-Queria eu que meu noivo fosse assim, e moro a duas quadras dele.
Ela soltou minha gravata e me deu um tapinha no ombro. Acenou quando saí da loja carregando o buquê. Imaginei ter visto uma mulher de vermelhos cabelos a me sorrir por entre as roseiras.

Os transeuntes me observavam com discretos olhares de curiosidade. Talvez dar flores tivesse saído de moda, talvez um homem de terno a carregar um buquê não não fosse comum de se ver. Me perguntava o por quê.
Um homem atravessou a rua e veio em minha direção. Reconheceria aquele caminhar a mil quilômetros de distância.
-Renam! Meu garoto! - urrou ao me abraçar
Eu sorri e retribuí o abraço com o braço livre.
-Como está Doug?
-Estou bem, mas poderia estar mais rico. - ele riu
-Indo aonde? - disse voltando a caminhar
-Vou para o lado da Torre Velha.
-Quer uma carona? Vou passar por lá, estou apenas indo pegar meu carro.
-Opa claro! E esse buquê é para...?
-Patrícia.
-Há, há, há entendo. Uma vez cavalheiro, para sempre cavalheiro certo?
-Se você diz... - eu ria
Doug era meu melhor amigo desde que me lembrava. O considerava meu irmão. Tínhamos muitas histórias juntos. Vitórias, derrotas, concessões. Eu aos 35 e ele aos 36 anos, nunca havíamos brigado. Sempre chegávamos a um acordo em nossas discussões. Ele esteve presente em grande parte dos acontecimentos de minha vida. Havia conhecido todas as minhas namoradas, inclusive Patrícia, de quem gostara muito na época. Tínhamos códigos de conduta e regras entre nós que poucos entenderiam. Mas como toda regra e código tem de ser moldado conforme a situação, ele estava prestes a invadir uma barreira que tínhamos estabelecido a muito tempo.
Quando dei a partida no carro, imaginei ter visto uma criança de curiosos olhos castanhos a me espreitar através do vidro de uma cafeteria.

O carro avançou pela estrada, ocupantes em mudo silêncio.
-Renam você não acha que está gastando seu tempo demais com a Patrícia?
-Já não conversamos sobre isso Doug? - disse sem tirar os olhos da estrada
-Não é querendo reclamar, mas você sabe que ela nunca poderá te dar o que precisa Renam. Sei que a separação foi difícil, mas você tem de aceitar.
-Eu sei disso Doug, você sabe que sei, por que falar sobre isso?
-Me preocupo com as crianças Renam, sei que esse assunto é delicado e me pediu para não falar nisso, mas o que seus filhos vão pensar? Eles estão crescendo.
-Fique calmo Doug, eu venho pensando nisso a tempos. Já fiz minha escolha.
-Bom, então está certo. Já falei o que tinha de falar, me desculpe por tocar nesse assunto.
-Tudo bem, sei que isso estava entalado na sua garganta a muito tempo.
Pensei ter visto uma senhora de branca pele a chorar em um ponto de ônibus.

Deixei Doug em seu destino e continuei até o meu.

Estacionei o carro e caminhei até a entrada com o buquê em mãos. Poucas árvores faziam contraste ao verde gramado. Balançando sozinhas, chorando folhas ao fraco vento. Fui ao encontro de Patrícia no lugar de sempre. Observei o mármore branco por alguns segundos. Entre todos os outros que se viam a distância, aquele me era tão importante. Abaixei e coloquei as rosas a sua frente. "Patrícia Rodriguez Lemos, doce amiga e amada esposa" li.
-E amada esposa. - repeti

Fiquei ali em pé, parado.

-Não poderei mais te visitar.

As palavras se perderam distantes, levadas pelo vento brando. De mãos nos bolsos esperei alguma resposta. Me lembrei de seus belos cabelos ruivos, sua suave pele branca, seus doces olhos castanhos. Olhei para o céu procurando por um sinal, procurando por qualquer coisa, procurando por mim.
Uma campainha ecoou pelo campo. Procurei a fonte daquele som por algum tempo até a encontrar em meu bolso. O visor do celular piscava com o nome de Lara.

Atendi.

-Alô amor, o Bruno está impaciente aqui. Ele me pediu para te ligar e perguntar se ainda vai atrasar. Espera, ele quer falar com você.
O telefone trocou de mãos e a voz infantil de meu filho me afagou.
-Pai, a mamãe disse que você vai demorar um pouco, mas você ainda vai demorar muito?
-Papai já vai chegar ai, agora deixa eu falar com a mamãe meu anjo.
-Tá bom, mas não esquece meu bolo pai!
O telefone voltou para as mãos de minha esposa que ria.
-Melhor você vir logo amor, ele está ficando sem unhas para roer.
Eu sorri.
-Já vou chegar amor, beijos, te amo.
Desliguei o telefone e o guardei no bolso novamente. Olhei para o mármore e sorri largamente. Estava feliz.
Quando parti, imaginei ter visto Patrícia a me soprar um beijo.

9 comentários:

  1. conto branco mt bom....
    mt legal as citações sobre ela durante o texto....quase me enganou....ahuahauhaua

    isso aew Pierrot....mostre à esses "nOObs" como se escreve um conto....

    grande abraço

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  2. Parabéns meu caro Pierrot!
    Sua leveza ao escrever, suas citações e teu enredo são empolgantes demais! Gostei imenso de ver essa tua epopéia familiar urbana aqui!
    Vou agora ao meu, escrever algo.
    Ah, também sou o Siegrfried.
    Abraços!

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  3. Belíssimo conto.
    Gostei muito de seu blog. Parabéns.

    beijos sangrentos da vampira Laysha.

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  4. Bem interessante. Há um que de fantasia, onde a ficção e a realidade se misturam no que acontece com ele e o que imagina ver e sentir. Muito bem escrito. Gostei, apesarcde não ser muito do estilo que escrevo.
    abraços libertários

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  5. gostei de mais, vistes..
    queria conseguir escrever bem assim. rs.

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  6. Magnífico! maravilhoso! estou até com vergonha das minhas historinhas depois de ler o que vc escreve...lindo! o conto que mais me tocou até agora, o que mais me deixou emocionada...lindo e lindo! parabéns mais uma vez!

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  7. Nossa.
    Bem que vc me disse no meu blog que eu ia gostar desse texto. Fiquei curiosa e resolvi vim olhar, e gostei mesmo!
    Há muito tempo eu não vejo em um blog alguém que escreva tão bem, parabéns!
    Com certeza vou ler muitos dos seus posts!
    :D

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  8. Curioso, totalmente intrigante. Sua total sobriedade me assusta. Você leva o texto todo ao ápice das emoções e ao mesmo tempo sincroniza a mais bela leveza que meus olhos me permitem reagir.

    Bom, bom mesmo.

    R. Jones

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  9. Adorei o texto...é fantástico.
    E seu blog é ótimo, gostei muito.
    Abraços.

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