terça-feira, 3 de novembro de 2009

Em Seu Nome


O avião finalmente aterrissou. Vitor desembarcou e rumou ao saguão. De barba mal feita e olhos fundos comprou um sanduiche. Tomou o taxi para seu hotel. A paisagem era bela, havia escolhido bem o destino daquelas férias. As palmeiras balançavam ao ritmo do vento, o mar ecoava não muito longe. Vitor ficou a observar as pessoas se banhando enquanto o taxi avançava.
Chegou ao hotel, subiu ao quarto, sentou à janela, avistou o mar. Lembrou do motivo de estar ali. Sentiu como se tivesse esquecido de trazer algo.

Vitor se arrumou e desceu para a praia. Sentou-se na areia, sob a sombra de um coqueiro, enquanto observava e tomava uma água de coco. Uns surfavam, umas tomavam banho de sol, alguns caminhavam e outros construiam castelos de areia. O vento soprou fazendo com que a sombra lhe fugisse. Desejou que a esposa e filhos estivessem ali. Uma onda estourou e desfez os castelos erguidos com tanto trabalho.

Quando o sol caiu e todos se abrigaram dos ventos gélidos, Vitor ficou a observar o vermelho que tingia o céu. No topo da duna, o vento soprava forte em suas costas. Tirara a camisa, queria sentir o frio. Lembrou da noite do acidente. Lembrou de sua esposa e filhos caídos. Lembrou de voltar a si tarde demais.

O rubro se foi do céu e de sua mente, dando lugar à escuridão que lhes era habitual, céu sem estrelas. O vento continuou a soprar quando Vitor se foi, o mar não estourou em seu nome uma única vez, nenhuma palmeira o observou enquanto partia.

De volta ao quarto, entrou no chuveiro. A areia escorria da pele e do cabelo. Deixou as mãos sob a água corrente. Queria lavar a culpa entre os dedos. Se tivesse voltado a si um pouco antes eles ainda estariam ali, pensou. Abriu a mala e pegou a roupa de dormir. Via a pasta ao lado das camisas, dentro dela havia um documento oficial. Carimbos, assinaturas e um grande "Homicídio culposo, réu absolvido por falta de provas." em negrito. Cobriu a pasta com uma camisa e fechou a maleta. Trocou-se, deitou, não dormiu.

Tinha medo de reviver o dia do acidente.

3 comentários:

  1. Mt bom o texto. gostei da ambiguidade de algumas expressões usadas... inteligência e um conteúdo dramático, somados a seu jeito unico de ambientar as cenas....

    esso aew eddy...continue assim!!

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  2. "inteligência e um conteúdo dramático, somados a seu jeito unico de ambientar as cenas." [2] Adoorei.

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  3. Concordo,Myllon...a ambiguidade de algumas partes deixou o texto muito bom. Mesmo pequeno, a história me prendeu. Queria saber logo o final e o tormento do personagem. Adoro texto assim.

    Adorei, Pierrot! (Ou Mário, apesar do texto ser bem mais a cara do primeiro.)

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Queres sussurar algo ao Pierrot? Vá em frente, mas talvez ele esteja demasiadamente imerso na própria loucura para escutar suas palavras sibiladas...