sexta-feira, 31 de julho de 2009

Pique-Esconde

Renata se sentou à escrivaninha, pegou um lápis e observou o papel. A lâmpada estava fraca, mas ela se sentia melhor com pouca luz, a fazia se sentir oculta. Escutava Legião Urbana, Eduardo e Mônica era a música. Acendeu um cigarro e se debruçou sobre a folha.

"Meu nome é Renata Costa Santiago, minha vida se resume nos acontecimentos que preferi lembrar de esquecer.

A primeira das coisas que esqueci foi meu amor. Não lembro o nome dele nem quando foi. Prefiro não saber que ainda sei a data exata daquele dia, prefiro não saber que ainda lembro o gosto dos beijos, o perfume de seu corpo, o acalento de seus sorrisos, a paixão ao fazer amor. Prefiro não lembrar que o perdi por erros tolos da juventude. Não me lembro mais quando ele se foi, nem me lembro das lágrimas derramadas em noites de insônia. Escolhi fugir covardemente, pois lembrar uma única vez mais me tiraria a única paz que restou. A silênciosa paz da solidão.

Também esqueci meus amigos. Não lembro do rosto de minha mãe quando tive minha primeira vitória na vida. Não sei a força dos abraços de meu pai. O nome de meu melhor amigo, com quem convivi anos a fio, me é distante. Minha melhor amiga, não me lembro de como a amava como à uma irmãzinha. Prefiro não lembrar. Não lembrar de como os deixei se esvair por entre meus dedos sujos de nicotina. Não lembrar de ter me afastado, alegando que não queria que me vissem definhar em minha tristeza.

Não me lembro de meus namorados ou de como nunca entreguei meu coração a nenhum deles. Não me lembro de como nunca me deixei apaixonar por saber que não os amaria, ou de como sempre os fazia acreditar que que sofria ao perdê-los, apenas para que não descobrissem nunca terem sido capazes de aquecer meu coração. Nenhum pôde fechar o corte deixado por meu amor.

Não queria eu lembrar quando meus dias se tornaram tão iguais. Então apenas esqueci. Esqueci o dia em que o doutor me disse que eu estava doente. Esqueci o tenho. Prefiro não lembrar. Gosto de acreditar que tenho síndrome de solidão.

Fugitiva de mim, em um pique-esconde de memórias. Uma brincadeira de mal-gosto entre minhas lembranças e meu coração. Escondendo um do outro em gincana interminável. Enfim perdido entre eles.

Cançasso, me lembro do cançasso. Talvez seja tudo que me lembro.

Muitos seguem em frente, mas eu não consegui. Terminei por me conformar em patética covardia. Admito não ter sido forte o bastante. Não consegui superar minhas lembranças.

Não me digo arrependida, pois sabia as consequências de minha escolha, apenas gostaria de ter sido um pouco mais corajosa. Gostaria de ter sido um daqueles exemplos de superação que se vê na tv.

Estou cansada, termino minha carta aqui. Talvez consiga dormir um pouco, quero tanto poder finalmente lembrar de tudo que tive de esquecer..."

Renata terminou a carta e se sentou a beirada da cama. Outro cigarro no lado da boca. A lâmpada piscou e apagou, devolvendo ao quarto sua falta de iluminação habitual.

2 comentários:

  1. cansaço, sim. nao escondo também.

    ser forte é dificil. o mundo é suscetivel. nos viemos dele.

    Blog Suicide Virgin

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  2. Simplesmente sensacional. maravilhoso texto. tocou lá dentro. afinal, muitos de nós fazem as coisas como Renata fez.

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Queres sussurar algo ao Pierrot? Vá em frente, mas talvez ele esteja demasiadamente imerso na própria loucura para escutar suas palavras sibiladas...