segunda-feira, 15 de junho de 2009

Sim Estou

Brian Gigs balançava o lápis de um lado a outro. Palma segurando o queixo. Pêndulo silêncioso, pensamento centrado. Escrevia uma declaração para a namorada. Queria impressioná-la, então tomava cuidado a cada palavra. Tinha de ser perfeito, tinha de ser... perfeito.

O telefone tocou na borda da mesa. Não desviou o olhar. Desapoiou o queixo e atendeu enquanto pensava em algo que rimasse com sorriso. Reconheceu a voz feminina.

- Vou me matar! - Disse a voz do outro lado do aparelho.

Um "foda-se" lhe passou pela cabeça, mas preferiu o silêncio. Pretendia desligar o mais rápido possível, mas não era de seu feitio ofender as mulheres. "Conciso", ele pensou, rimava com sorriso. Construiu uma bela sentença e voltou a pensar. Telefone apoiado no ombro.
A voz feminina continuou:

- Não tá dando mais para mim... todos me deixaram para tráz, nem minha família me suporta mais. Você está ai?

Relutou um pouco se devia responder. Talvez se ficasse mudo ela imaginasse que não haviam atendido. Não soube ao certo porquê respondeu.

- Sim estou.
- Tomei várias pílulas já... mais algumas e me vou...

Brian colocou o telefone sobre a mesa, esfregou os olhos. Olhou o relógio no pulso, eram quase uma da manhã. Já estava tendo dificuldades o suficiente para escrever aquilo, realmente não lhe agradava a idéia de alguém lhe atrapalhando. Pegou o telefone e recolocou no ouvido.

- ...endo e então não sei mais o que fazer. Você sempre foi tão gentil comigo, sempre tentou me fazer sentir bem...
- Uhum.

Olhou a declaração sobre a mesa. Alguns rabiscos na borda do papel, palavras que pretendia usar no texto. Achou uma agradável, "inevitável". Pensou em uma frase. Talvez algo como "inevitável chegar a esse ponto" ficasse bom. Escreveu. A voz chiava no telefone, sons corriam pelo fio e eram lançados diretamente em seu ouvido. Ele falou:

- Escute mylady, por pior que as coisas fiquem, nunca vou achar o suicídio a melhor saída. Não que eu esteja dizendo que sua vida esteja maravilhosa... não acredito que esteja sequer perto disso, mas procurar em mim um apoio para essa idéia é bobeira.
- Não quero seu apoio nisso... não preciso dele...
- Então por que me ligou? Por que não ligou para seu namorado? Para alguém mais próximo de você? Por que ligar para um ex-namorado que não vê a tempos? O ex-namorado que você traiu.

Lágrimas despencaram do outro lado do fio. A ponta do lápis estava quase no fim. Gigs pegou um apontador e o apontou. Não gostava de lapiseiras, preferia o antigo lápis. Pensou em mais uma frase romântica e a escreveu. Um pouco de romantismo e perdão caíram bem no contexto.

- Acho melhor você desistir dessa idéia. - ele disse ao terminar de escrever mais uma linha.
- Não... não me sobrou nada... não tenho ninguém... todos se foram.
- Eu nunca me fui... engraçado não? Logo o que te tratou melhor, o que você traiu. Eu nunca te abandonei.
- ...
- Vou pegar um café. Espera.

A chaleira apitava na cozinha. Brian afastou a cadeira e se levantou. Colocou os óculos e caminhou até aquele assobio. Preparou um café amargo, gostava assim. Misturou um pouco de leite e voltou à mesa da sala. Se sentou. Observou sua declaração, escrita com tanto amor. Observou o telefone, fora do gancho, talvez uma última ligação.

- Oi? - falou baixinho ao recolocar o aparelho no ombro.

Não houve resposta. Escutou uma televisão ligada ao fundo. Passos se aproximaram.

- Desculpe, estava vomitando.

A voz dela era leve e calma, por um momento ele sentiu a tristeza dela.

- Já desistiu da idéia?
- ........ não achei q você fosse ser tão frio comigo. Esperei que você fosse ser diferente. Sempre me tratou com tanto carinho...
- Desistiu ou não?

Brian escutou um sim baixinho. Sem forças. Sem vontade de lutar.

- Você ainda mora no mesmo lugar não é?
- Sim.
- Então vou ai te dar uma bronca... não saia de casa.

Ele desligou o telefone. Escreveu a última linha de sua declaração e a deixou sobre a mesa. Amor em cada palavra, sentimento em cada linha. Sabia que teria de cuidar daquela ex-namorada, era provável que passasse muito mal depois de ter tomado tantos medicamentos. Seria perigoso deixá-la sozinha. Sabia que ela iria tentar o seduzir. Sabia que teria de se desvencilhar dela. Sabia que seria um longo caminho até lá. Sabia de muitos detalhes que viriam, mas não conseguia entender o por quê de estar indo. Deu uma última olhada na folha sobre a mesa.

"As vezes o telefone toca e imagino se será você.
Se terá boas notícias para me contar.
Só para mim.
Imagino se quando se deita pensa em mim.
Como penso em você.
Imagino se seu coração aperta como o meu,
quando não posso te ter por muito tempo.
Teu sorriso, tão conciso me lembra,
como é bom te fazer feliz.
Inevitável não chegar a esse ponto.
Inevitável não querer que me deixe te amar.
Me perdoe por querer ser mais do que sou.
Por querer ser melhor do que posso ser.
Mas me deixe tentar por você."

Brian achou entender o por quê. Pegou o casaco e saiu pela chuva.