quarta-feira, 27 de maio de 2009

100% de Chances


Ele olhou o espelho à sua frente. Respirou com desgosto. Uma face suja pela barba. Os olhos remetiam a fundos poços, secos e vazios a tempos. Tinha os lábios às cascas como cobra em muda. Puxou o espelho, abrindo o pequeno armário atrás dele. Escovas, pastas, fios-dentais, pílulas. Agarrou o pequeno e azulado pote de pílulas, sentou-se à privada enquanto lia o rótulo. Continha 0,75% de alguma coisa, 0,3% de outra e 100% de chances de amanhecer num caixão.

Fechou os olhos. Deixou o corpo cair para trás.

Os frios azulejos lhe mitigavam as costas. Gélido sentimento colado à espinha, resfriada carne pulsante. Lembravam-no das perdas. Calafrios que acompanham o lance dos dados da morte.
O chuveiro pingava. Cada gota que estourava no chão lhe molhava mais um pouco os pés. A cada gota sentia uma onda do mar matinal resfriando suas ásperas palmas. Como eram boas aquelas golfadas geladas.
Uma pequena fresta no basculante fazia com que o vento assobiasse ao entrar. Ele escutava uma música calma, paixão em cada nota. Uma bela dama dançava em coreografia estrangeira. Longas vestes esvoaçando. Movendo as mãos de forma hipnótica, ela encantava seus cansados olhos.
A velha toalha lhe tocava o ombro. Repousando como uma mão colocada sobre um ombro preocupado, ela insistia em aquecê-lo. Um sorriso entre lágrimas. Nutrindo, protegendo. Mãe ao abraçar o pequeno e inseguro filho.

Ali ficou ele, nova peça na pintura. Azulejos, pensamentos, gotas, estouros, correntes de ar, assobios, pedaços de algodão, toques... o banheiro permaneceu indiferente ao corpo recostado ali.

Abriu os olhos.

A mão segurava firme o vidro azul ainda fechado. 100% de chance... pensou ele. Tirou a tampa com um polegar. Ela fez um barulho oco e girou no chão. Ele se levantou, olhou novamente seu reflexo no espelho. Colocou o pote aberto no canto da pia. Fez a barba. Passou cacau nos lábios. Dormiu um pouco. Ao se levantar, voltou ao banheiro e se vestiu. Terno, gravata, sapatos engraxados. Colocou as pílulas do pote azulado no bolso e saiu.

5 comentários:

  1. Estive um bom tempo lendo alguns textos teus...saltando os olhos noutros...admirando-os... Adorei, adoro o teu estilo de escrita

    fantástico, parabens :)

    beijinhos

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Queres sussurar algo ao Pierrot? Vá em frente, mas talvez ele esteja demasiadamente imerso na própria loucura para escutar suas palavras sibiladas...