domingo, 29 de março de 2009

Uma Caixa de Charutos


Glauco estava sentado no topo da colina ao pé de uma árvore seca. O sino tocava distante, um triste som para uma triste visão. Falecera Paulo, seu melhor amigo. O cortejo vinha lento, quase arrastado. O caixão parecia pesar muito mais do que uma pessoa podia aguentar, por isso haviam tantas ajudando a carregar, pensava Glauco.

O sol subia no horizonte, lento, tímido, cansado. A colina não tinha muitas árvores, Glauco lembrava da cidade toda vez que observava aquela colina. Assim como haviam poucas árvores ali, também não eram muitas as amizades enraizadas que ele possuía na cidade. Uma árvore uma amizade, uma folha um sentimento, um fruto um sonho. Paulo e ele haviam crescido juntos, era a única pessoa para quem contava seus amores, suas folhas e seus frutos.

O choro era alto, podia ouvir os gemidos mesmo de tão longe. Tentava entender porque tantas pessoas que mal o conheciam choravam tanto. Tentava entender porque não chorava como elas. Conhece-lo tão bem o fizera indiferente à sua morte? Não, não era isso. Sabia que não era. Mas então por que? O som do sino e as vozes tristes eram como uma maré vermelha, tudo parecia tão morto, tantas folhas despencavam das árvores a cada badalada, tantos frutos secavam com o sal de cada lágrima.

Ele foi sepultado no pé da colina, local onde sempre brincava quando criança, seu local secreto. Vários de seus pequenos tesouros haviam sido encontrados em uma caixa de charutos quando cavavam a sepultura. Havia o jogo de botões que ele tanto gostara quando criança, um carrinho vermelho, 3 soldadinhos de chumbo e uma foto muito antiga de sua avó. A caixa, com exceção da foto, fora dada a Glauco e agora repousava aberta a seu lado na colina.

Quando o enterro terminou e todos se foram, veio o coveiro tapar o fundo buraco. Glauco se levantou, pegou a caixa de charutos e desceu até a sepultura. Ao chegar lá, posicionou a caixa sobre o caixão. Desejou que a foto da avó dele ainda estivesse dentro. Quando o coveiro terminou, Glauco lembrou de como Paulo fora um bom amigo, sorriu com um pouco de nostalgia ao lembrar do dia em que enterarra aquela caixa com ele.

O sol ia alto, iluminando uma solitária folha na árvore seca do topo da colina.

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