domingo, 29 de março de 2009

Avisava o Aparelho


Sabrina dormia profundamente em seu apartamento. O despertador gritou. Ela se levantou e o desligou. Sentou na beirada da cama, 6:01 avisava o aparelho. A mesma hora de sempre. Levantou-se e caminhou tateando até o banheiro. A banheira enchia com água morna enquanto ela escovava os dentes. Banheira cheia, a água estava agradável, era como sonhar acordada. Repousou a cabeça na borda e fechou os olhos. 6:35 avisava o aparelho, mastigava um pão e tomava um copo de café do dia anterior. Quando terminou, se vestiu, pegou a bolsa jogada em um canto e saiu. 7:00 avisava o aparelho.

Dois lances de escada, o elevador estava muito longe do andar dela. Caminou três quarteirões, atravessou o parque, chegou a seu trabalho. 8:33 avisava o aparelho. Subiu pelo elevador, entrou em sua sala, sentou-se à mesa. Pilhas de formulários, ligações a fazer, pessoas a aturar, nenhum tempo para desperdiçar. 8:41 avisava o aparelho.

Assinar, ligar, falar, desligar, assinar, ligar, falar, desligar... uma máquina em total potência. tic-tac-tic-tac, o ritmo acelerava, o coração bombeava sangue para o corpo, o cérebro mandava ordens aos membros, a mão se movia para assinar, a língua moldava o som das palavras para convencer, o ouvido decodificava as reclamações. 9:20 avisava o aparelho. Uma pausa, um momento para pensar? Não, o café é tomado enquanto tenta convencer o chefe a lhe dar uma promoção, o lanche ela faz convencendo os colegas de que é uma boa pessoa. Risadas. Quem riu? Sabrina não sabe. 12:50 avisa o paparelho.

Uma pilha diminui, a outra cresce. Um, dois. O chefe chama por Sabrina. Quem é Sabrina? Ela se lembra. Esse é seu nome. Levanta e vai até a sala do chefe. Ele lhe diz algo sobre a promoção não ser possível devido a um recente reajuste. Ela não liga, tem muito a fazer e nenhum tempo para desperdiçar, não há tempo para pensar. A máquina está ligada, as engrenagens giram e produzem riqueza. Impressoras de dinheiro. Sabrina vê apenas o papel sem tinta. 17:40 avisa o aparelho.

17:57. 17:58. 17:59. 18:00. Ela solta a caneta, recoloca o telefone no gancho e afasta os papéis. Levanta, pega sua bolsa, sai apressada. Desce pelo elevador. Tantos rostos como o dela, nenhum conhecido. Rostos de marfim. Nenhuma expressão, nenhuma dor, nenhum medo, nenhuma alegia, nenhum desespero. Marfim. Sai do prédio... 18:05 avisava o aparelho.

Sabrina abre a porta de casa com pressa. Ao entrar lança a bolsa em algum canto e se senta em uma de suas poltronas. Relaxa. Fecha os olhos e respira fundo, sente o frio da noite que se aproxima. Frio como aço. Ela se levanta, coloca a banheira para encher enquanto prepara um café. Banheira cheia, a água está agradável, era um sonho acordado. Ela repousa a cabeça na borda e fecha os olhos. 19:12 avisava o aparelho.

Jantou, assistiu um pouco de televisão, leu um livro na cama e finalmente se deitou. Sonhou com sua infância. 00:00 avisava o aparelho

6 comentários:

  1. 'se o homem conta o tempo, pode manipulá-lo...'

    o conto deixa-nos com saudades de nós mesmos.
    parabéns!

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  2. "O tempo nos manipula friamente, até quando seremos escravos dele? Ninguém saberá, excelente texto, gostei msm

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  3. oie retribuindo a visita ao exoticlic seu blog parece se tratar de terror isso não é uma critica negativa, mas é que tenho medo de palhaços rsrsrs

    sou sua nova seguidora!


    bjs

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  4. 3° e 5° eu espero que dê 18:00

    Você já deve saber, gostei.
    A minha sorte, é que ando sem relogios...

    :)

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  5. Muito obrigada pelo comentário pelo blog. Acho que você entendeu a essência do texto!

    Meus sinceros parabéns pelo blog!

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  6. Olá querido!!! saudades... desculpe a ausência! bjinhos da Madrasta!!!

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Queres sussurar algo ao Pierrot? Vá em frente, mas talvez ele esteja demasiadamente imerso na própria loucura para escutar suas palavras sibiladas...