segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Uma Bizarra Atração


A roda gigante girava, o carrossel tocava música e colocava sorrisos nos rostos infantis.
Charles Nails era o funcionário mais velho do parque. Durante 63 anos trabalhara como palhaço ali. Quando começara, o local nada mais era que uma latrina. Brinquedos velhos e perigosamente sem manutenção. Lembrava de como a noite os mendigos vinham se abrigar entre as atrações. Perdera a conta de quantas vezes tivera de ir expulsá-los. Hoje nada ali lembrava essa época. Carros de cachorro-quente, barracas de sorvete, brinquedos novos e lubrificados, seguranças, casas de apresentação e pais desembolsando altas quantias de suas gordas carteiras.

Era sua pausa entre os shows. Diziam que era uma estrela, se sentia uma bizarra atração. Sentado em um dos inúmeros bancos de madeira, ele observava as crianças indo de um lado a outro. Famintas e apressadas. Se acotovelavam, ignoravam a fila, roubavam doces dos amigos e irmãos. Pequenas bestas domesticadas. Suas risadas o agulhavam. Por todos aqueles anos ele as escutara. Sempre riam dele, ele era o tolo, todos riam dele. Uma criança saiu de perto dos pais e se aproximou do palhaço sentado. Ele voltou sua face e a encarou secamente, fazendo com que a pequena figura gritasse, corresse, e se abrigasse entre as pernas da mãe. Belas pernas ela tinha.
Jovens palhaços distribuíam balões coloridos. Queria explodir cada um deles, queria sentir aquelas bexigas de ar sendo estranguladas e estourando em gritos abafados.
Era uma antiguidade rachada. Não possuía mais qualquer valor, era mantido apenas porque seus donos sentiam remorso de jogar fora algo com tantas histórias. Os mesmos donos que se tornavam tão inabaláveis quanto máscaras de marfim assim que chegava a hora do pagamento. Abutres com ilusões de humanidade.
Charles observou o céu. Nublado, não havia espaço para ele lá. Restava a terra, onde caminhavam inúmeras cópias mais jovens e sadias de seu personagem tolamente alegre.
Decadente e já sem sonhos, não haviam mais muitas opções, acabara se tornando aquilo que sempre fingira ser. Deixou o banco e entrou em uma das tantas tendas coloridas. Alguém o chamou em vão.
Era quase hora de sua próxima apresentação.

7 comentários:

  1. Adorei o seu blog. Parabéns é de muita personalidade. Suas palavras me fizeram ficar muito tempo por aqui. Eu juro que eu volto. Virei seguidora. Esse é o começo do começo. E lembre-se o mais importante é o que importa.Quando eu voltar, trago uns cigarros...

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  2. Li algumas palavras e gostei bastante...
    Vim agradecer seu comentario lá no meu blog!
    Verdade, infelizmente hackearam o blog e eu tive que fazer outro e todo esse blablabla!
    Espero que vocÊ volte sempre lá pelo blog! ;D
    Voltarei aqui depois com mais calma ler os post e virarei fã com certeza!
    Parabens!!

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. "Charles observou o céu. Nublado, não havia espaço para ele lá. Restava a terra, onde caminhavam inúmeras cópias mais jovens e sadias de seu personagem tolamente alegre."

    De tanto interpretar a mesma personagem, teve medo de procurar um lugar no 'céu' e abandonar a 'terra' para que alguém mais jovem contruísse outras lembranças em seu lugar. Uma mentira dita mil vezes, torna-se verdade. Pobre Charles, iludido em suas verdadeiras lembranças...

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  5. Senti vontade de chorar. Acredite, isso foi muito.

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  6. Antes de mais nada adorei seu texto, tá de parabéns,lembrou-me com essa história a vida dos esquecidose jogados fora, muita sensibilidade e excelenre texto adorei, parabéns pelo blog, eu gostei muito, obrigado também pela visita e pelo comentário, vc já ganhou um seguidor,parabéns e felicidades, aguardo outros textos, esse ai eu achei profundamente belo.abraços

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  7. Sem problemas pode ficar a vontade ok??? vlw

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Queres sussurar algo ao Pierrot? Vá em frente, mas talvez ele esteja demasiadamente imerso na própria loucura para escutar suas palavras sibiladas...