quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Um Velho Amigo Como Tantos Outros


A fumaça do cigarro recém aceso se dissipa no ar. Escuto o despencar das gotas que se acumularam no telhado durante a chuva. Um som que se repete como o tic-tac do relógio.
- Preciso comprar um novo relógio - pronuncio enquanto observo o espaço vazio na parede onde costumava haver um.
Uma mosca zumbe ao redor de minha mesa. Pousa na parede de madeira corrida, no sofá, no meu ombro, em uma calça jogada ao canto. Penso no porquê daquela calça jogada ali.
A mosca zumbe e voa. Levanto um copo e espero ela pousar perto. Ela pousa. Capturo-a no copo emborcado e observo. Seu mundo agora reduzido a alguns centímetros cúbicos de ar saturado. Ela não sabe, mas morrerá ali. Ela não sabe e não me importo em avisá-la.
A mosca logo me parece um velho amigo como tantos outros. Voa e se debate contra as paredes do copo. Para, caminha um pouco e logo volta a tentar um voo. Talvez ela não se debatesse se o copo fosse maior.
Tento me lembrar o quanto vive uma mosca livre. Não faço ideia de quanto seja. Imagino que essa também não seja uma grande preocupação dela no momento.
Após minutos a prisioneira se acalma. Terá percebido a gravidade da situação e se desesperara? Ou aceitara o fato de que se lançar contra aquela barreira invisível a seus olhos de nada adianta? Mais algum tempo e passa a caminhar pela superfície de cristal. Imagino que esteja observando o vasto mundo ao seu redor, que agora parece dezenas de vezes maior. Talvez tenha percebido a futilidade de sua vida, voando de um lado a outro sem nunca ter um real objetivo. Ou talvez tenha percebido seu destino fatídico, caminhando então para conhecer cada milímetro de sua lápide.
Termino de escrever e logo vem o sono. Morpheus faz questão de colocar uma boa quantia de areia em cada olho. Antes de me levantar observo minha cativa amiga mais uma vez. Ela permanece imóvel no fundo do copo, balança as asas e volta à imobilidade. Por um momento acho que está imersa em tristeza.
Adormeço em minha cama.
Quando raia o dia, volto à mesa, observo o copo-prisão e o cadáver nele contido. De barriga para cima, caída na madeira. Estaria ela tão perto assim do fim? Sinto uma pontada de remorso que logo passa. Era apenas uma mosca.
A fumaça do cigarro recém aceso se dissipa no ar.

Um comentário:

  1. bom, fico lisonjeada pelas tuas palavras. acredite, um elogio de quem escreve assim como escreves é algo muito valioso. em segundo lugar vou deixar minha impressão sobre este texto, porque sim, meu humor também varia com o número de cigarros em minha carteira, e claro que fiquei fascinada o quanto este texto deixa uma visão óbvia de que para mim, vemos um mundo diferente quando estamos apreciando um bom cigarro. que me perdoem os anti-tabagistas... a narração está estupenda, e não sabemos (assim como a mosca presa) se o personagem desistiu das complicações da vida, ou ele mais do que ninguém tem a noção exata da complexidade dos pequenos fatos.

    so me resta dizer parabéns pela força deste "personagem" criado.

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Queres sussurar algo ao Pierrot? Vá em frente, mas talvez ele esteja demasiadamente imerso na própria loucura para escutar suas palavras sibiladas...