sábado, 7 de fevereiro de 2009

Um Bom Cristão-Não-Suicida


2:42 da manhã e o agente de polícia, Henrique Cortez, dormia a exatos 39 minutos e 13 segundos. Sonhava com um quarto de motel. Sentado, bebia lentamente seu copo de Scoth enquanto observava as strippers dançando ao som de um pesado metal melódico. Os corpos se balançavam em rastros coloridos de um lado para o outro. Ele escutava as risadas delas, ninfas que pareciam se divertir em uma coreografia embriagada. O cigarro queimava pela metade no cinzeiro ao seu lado. A fumaça subia e se juntava à festa com suas formas contorcidas e dançantes.
A música chegou ao fim, assim como as peças de roupa de suas companheiras. Elas se aproximaram em linha. Pedaço por pedaço despiram e acariciaram-no. Os corpos estavam em pelo naquele quarto de motel. A rapariga a frente de Henrique se curvou e beijou-lhe os lábios. Ele se levantou e a abraçou forte enquanto caíam sobre a cama. O cigarro quase no fim queimou e lançou uma última dose de fumaça no ar, que se agitou e se contorceu.

O som estridente do telefone foi tão agradável quanto um tapa na cara.

Cortez se sentou ao lado da cama, deixou a besta tocar mais duas vezes enquanto esfregava o rosto. Esperou mais dois toques apenas para poder ficar ali odiando o aparelho. Percebeu então que se escutasse aquela irritante campainha mais uma vez, iria direto para o inferno. E como era um bom Cristão-Não-Suicida, atendeu.
- Agente Cortez? - perguntou a voz do outro lado.
- Infelizmente.
- Desculpe acordá-lo a essa hora, aqui é o agente Alex Oliveira, temos um homicídio em mãos e o chefe quer você aqui imediatamente.
Ele devia estar ligando da própria cena do crime. Vozes e ruídos eram nítidos ao fundo.
- Agente Oliveira, de quantas formas diferente você pretende conseguir me fuder no mesmo dia?
- Nenhuma além das que já devo ter conseguido, mas não posso dizer o mesmo do chefe se você não arrastas seu traseiro até aqui imediatamente.
Fudido e desempregado não soava bem para Henrique Cortez, então ele anotou o endereço que Alex balbuciou.
Foi ao banheiro, lavou o rosto, se vestiu, pegou as chaves e a arma, beijou a esposa que ainda dormia e a invejou por um instante. Ligou o carro e partiu pela estrada. O endereço não era muito longe, conhecia o local. Ruas vazias, ele voava sobre o asfalto. A lua iluminava os becos e as residências que riscavam a vista. Imaginou ter visto o anjo da morte balançando sua foice sob a luz de um poste. Não era a primeira vez.
Parou o carro, saiu, atravessou a barreira policial ao redor do prédio, subiu as escadas, entrou no apartamento.
- Puta que o pariu! Cuidado para não pisar no sangue ai, caralho! Vai espalhar essa merda por toda parte! - gritou alguém responsável pela perícia.
O local tinha fotógrafos, peritos, investigadores e o orgulhoso Satanás na forma do chefe Pietro, que ignorava qualquer capacidade mental em seus subordinados e vociferava ordens sobre como cada um deveria fazer seu trabalho.
Lá estava o corpo, estendido de bruços no meio da sala. A garganta cortada até quase a espinha.
- Ai está você Henrique - disse o chefe assim que bateu os olhos na figura em pé na porta.
- Vim assim que recebi o chamado senhor - disse Cortez.
- Excelente.
Pietro esboço um sorriso irônico. O filho da puta se divertia em fazê-lo acordar no meio da madrugada sempre que podia, pensou. Queria poder levantar sua arma e livrar o mundo daquele sádico. Imaginou que uma bala seria suficiente para estourar aquele crânio. Talvez usasse duas, atirando primeiro no cacete dele, e só então explodindo-lhe os miolos.
- Como pode ver, o infeliz teve a garganta cortada em um golpe só. A navalha da arma entrou até a espinha, mas não teve força o bastante para passar pelo osso - discorreu o chefe.
- Qual o nome da vítima?
- Malcolm Haris Jr. Conhece?
- Um pouco. A alguns meses peguei uma papelada que o apontava como um contrabandistazinho.
- Isso já sabemos.
- Sabemos qual foi a arma?
- Parece ter sido um facão.
- Temos alguma digital ou amostra de DNA?
- Só as do saco de tripas ai. Quem fez isso usou luvas e tomou cuidado para não deixar nada que o incriminasse.
- A porta...
- Sem sinais de arrombamento, tudo indica que a vítima conhecia o assassino e abriu a porta de livre e espontânea vontade.
Henrique coletou mais algumas informações úteis para a investigação, olhou o corpo e os aposentos em busca de alguma prova. Depois persuadiu Satan para que lhe deixasse voltar para casa e descansar um pouco.
Desceu as escadas, acendeu um cigarro, recostou-se na parede e divagou. Malcolm era um vagabundo baixo nível que cedo ou tarde acabaria sendo pego. Sequer devia saber para quem trabalhava, e com ele morto ainda mais perguntas ficariam sem resposta. Se os imbecis o tivesse preso antes de ser assassinado talvez tivessem algo em que trabalhar.

A bituca voou longe enquanto Henrique entrava no carro. Ajeitou o retrovisor e viu repousando sobre seu banco traseiro um facão de jardinagem. A luz do poste sobre o carro dava às manchas rubras um brilho quase místico. Recolocou o retrovisor na posição original e deu a partida. No caminho de volta parou sobre uma ponte. Saiu do carro, acendeu seu último cigarro e abriu a porta traseira. Lá estava ele. Cortez ficou parado observando a arma do crime caída ali. A lua a iluminava. Um contraste entre o brilhante aço cru e o sangue seco enegrecido. Terminou o cigarro, pegou a arma pelo cabo usando um lenço e a lançou no rio. Talvez não fosse a coisa mais inteligente a se fazer, imaginou enquanto ela girava em direção à agua.

Quando finalmente, naquela manhã, se deitou ao lado de sua esposa, Henrique Cortez escutou um bater de assas perto de sua janela. Talvez fosse o anjo da morte, pensou enquanto tentava voltar ao sonho de que fora tirado mais cedo.

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