quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Passagens Para a Lua



Chriss Carvell correu para o quarto, pegou uma velha mala, a abriu sobre a cama e começou a lançar roupas. Olhou o relógio de pulso. Tinha uma hora até que Amanda voltasse da escola com as duas filhas. Suas filhas.
Pegou apenas o necessário. Calças, camisas, cuecas, meias, documentos e suas economias. Não dobrou ou arrumou, apenas lançava tudo aquilo na mala. Quando imaginou já ter o bastante, a fechou. Seus olhos fitaram a fotografia sobre o criado-mudo. Uma foto tirada a alguns anos durante uma viagem da família. Lá estava ele, agachado, segurava pela cintura Cindy, que a pouco aprendera a andar. Ao seu lado estavam Danielle, sua outra filha, e Amanda, sua esposa. Todos sorriam felizes. Era uma foto antiga. Colocou-a no bolso.
Levantou a mala e saiu da casa. As flores do jardim eram belas e bem cuidadas. Talvez se não tivesse dado tanta importância àquele maldito jardim, como a tantas outras coisas, não precisasse ir. Observou o balanço amarrado em um alto galho da mangueira. O colocara ali quando Danielle fizera 10 anos. Quantas vezes a balançara e brincara. Seus risos infantis ainda ecoavam quando o vento fazia farfalhar as folhas secas no chão.
Deu alguns passos e parou. Secou na manga amarrotada as lágrimas que lhe escorriam. Respirou fundo e continuou a passos determinados. Tinha de partir. Se ficasse acabaria magoando ainda mais a todos. Quando chegou ao portão, deu uma última olhada para trás. Cindy esquecera a janela de seu quarto aberta. As cortinas brancas esvoaçavam para fora. Estavam lhe dando adeus.

Sentado no ponto de ônibus, Chriss observava mudo as pessoas ao seu redor. Se perguntava por que pareciam tão calmas com suas vidas. Queria levantar e perguntar a alguém:
- Desculpe minha intromissão, mas por que diabos você está com esse sorriso imbecil na cara? O que há de tão engraçado?!
Talvez até a segurasse pela camisa e desse alguns tapas antes de fazer a pergunta em si.
Voltou à realidade, ser preso não era uma boa opção, não tão perto de casa.
Sua condução chegou. Ele subiu e se sentou atrás. Duas cadeiras a frente havia um jovem casal. Eles sussurravam palavras melosas e clichês de novela. Cada beijo estalava um tapa na orelha de Chriss. Tinha nojo desses casaizinhos atuais e seus relacionamentos de uma semana. Vomitando palavras românticas, pareciam comprar amores na seção de balas.
Imaginava como seria a cena se vivesse em um mundo onde todos dizem a verdade.
Se sentaria atrás deles, colocaria uma mão sobre o ombro de cada um e diria:
- Bravo! Adorei as palavras doces meu rapaz, mas ficam melhor quando ditas pelo ator que fez esse papel. Quanto a você minha querida, acredite nessa conversa enquanto pode, porque daqui a alguns anos vai estar preparando a janta enquanto seu amado esposo trepa com a colega de trabalho.
- E a melhor parte é que não sentirei qualquer remorso - diria o rapaz.
- Isso mesmo. Ele sequer sentirá remorso. Isso, é claro, se até semana que vem ele não encontrar pretexto para brigar e te trocar por sua melhor amiga.
- O número dela está em algum lugar do meu armário.
- Boa campeão! E antes que me esqueça, dinheiro não traz felicidade, mas se você não tiver, é bom estar preparado para criar seus filhos em algum barraco com um emprego de merda.
O ônibus parou, trazendo Chriss Carvell de volta à realidade. Era seu ponto.

Estação ferroviária. Caminhou pelo saguão, passou pelos guichês e observou os destinos. Norte, sul, leste, oeste. Podia ir para onde desejasse. Infelismente não tinham passagens para a lua, os trilhos ainda deviam estar em construção.
Comprou um bilhete para uma cidade distante. A mesma cidade em que havia tirado aquela foto no bolso.
Atravessou as passarelas e encontrou a sua. Sentou-se em um dos bancos, colocou a mala sobre as pernas e esperou. Nunca havia visto tantas pessoas diferentes em um só local. Cores, religiões, idades, estilos. Os trens vinham como águas e renovavam as faces.
Um senhor se sentou a seu lado. Com tantos outros bancos, porque tinha de se sentar logo naquele, imaginou. O velho soluçou, fedia a álcool e cigarros. As roupas não eram ruins, a longa barba era suja e embaraçada, o olho esquerdo estava totalmente tomado pela catarata.
- Ótimo, não bastava sentar ao meu lado, tinha de ser o Matusalén embriagado - resmungou Chriss.
- Como disse? - perguntou o cambaleante homem.
- Nada... não era com o senhor.
O velho observava as pessoas que saiam dos trens.
- Sabe qual o segredo delas? - perguntou o senhor.
Carvell ignorou, esperando que desse sorte e ele estivesse bêbado o bastante para cair nos trilhos.
- Eles não dormem!
Chriss o olhou e replicou irônicamente:
- Eles são felizes porque não dormem... genial.
- Não disse que eles são felizes.
- Então o que disse?
- Disse que eles são tão indiferentes porque não dormem.
Chriss respirou fundo e voltou a olhar para os trens. Sabia que não devia ter incentivado aquela conversa. O homem continuou sozinho:
- Como não dormem, não sonham. E como não sonham, aceitam a vidinha programada que levam...
Chriss Carvell não acreditava naquilo. Sabia que todos tinham seus sonhos, mas também tinham seus medos. Sabia que muitas vezes o medo os fazia desistir de seus sonhos. Sabia que eram tão infelizes quanto ele, mas se recusava a aceitar. Não queria acreditar viver em um mundo tão triste.
Chriss se levantou e deixou o velho para trás. Seu trem chegara. Ele subiu no vagão e se sentou.
Tirou a foto do bolso.
Todos sorriam, uma imagem antiga.

7 comentários:

  1. quem sabe, se pudéssemos congelar os momentos felizes... tudo seria mágico, não é?
    A tristeza nunca chegaria perto, jamais teria chance de se instalar...
    pena eu não lembrar dos momentos felizes...

    Luciana gostou do texto e Afrodite ficou pensativa...

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  2. Às vezes é mais fácil fugir do real. Criar uma historia para si, um amor que será para vida toda, acabar virando seus proprios personagens, criar o proprio mundo.
    Eu já fiz isso. Perdoava fácil demais, aconselhava fácil demais, e por ai vai. Mas eu nunca ganhava nada em troca, sempre esqueciam de mim. Tudo bem, eu nunca esperei nada em troca. O problema é que não conseguia fingir todo dia um sorriso em meu rosto...

    Sabe, eu ainda procuro pelos trilhos, mas enquanto não os encontro, eu fico observando a lua, e a cada noite que passa parece que ela está mais proxima, mesmo que seja apenas coisa da minha cabeça.

    Posso não sonhar com frequencia enquanto durmo, mas tenho vivido assim: Da minha propria imaginação. Porque fugir do real é fácil, e não preciso mentir no mundo de contos de fadas.

    Um abraço, Ariane :)

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  3. Como prometi, assim que tive um tempo, corri aqui para ler seus post e nao me arrependi nem um pouquinho.
    Parabens é um incentivo ridiculo que você precisa para continuar escrevendo...mas sinceramente te desejo MUITO reconhecimento por suas palavras...

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  4. obrigada por passar em meu blog
    tbm curto muito oque vc escreve

    tenha um otimo fim de semana

    beeeijo

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  5. Sabe, eu gosto de sonhar...
    Gostei muito do texto, parabéns!

    "Infelismente não tinham passagens para a lua, os trilhos ainda deviam estar em construção." Muito bom.

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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Queres sussurar algo ao Pierrot? Vá em frente, mas talvez ele esteja demasiadamente imerso na própria loucura para escutar suas palavras sibiladas...