quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Não Era a Única




Sentada no chão, ela desenhava. Prancha apoiada na cama, lápis balançando de um lado ao outro e dando forma à imagem em sua mente. O televisor mudo exibia imagens de algum filme antigo. O ventilador rodopiava, misturando-se á música do aparelho de som em algum canto daquele quarto pouco iluminado.
Desenhava mulheres nuas com seios fartos em posições eróticas, o tipo de besteira que atrairia muitos curiosos para sua página na internet. Não era seu estilo, mas queria a publicidade. Achava engraçado como clicavam quase que impulsivamente ao vê-las. Uma isca necessária para divulgar seu trabalho naquele mundo onde a concorrência pelos melhores sonhos era grande.

Gostava de retratar pessoas. Dava vida a cenas de beijos, belas paisagens, romances utópicos e sorrisos que antes só eram visíveis em sua mente. Desenhava horizontes, com seus sóis poentes e amantes sobre a relva. Sempre com doçura, esculpia sonhos e os colocava ternamente sobre as folhas amareladas. Uma poetisa que tecia seus versos em curvas coloridas.
Assim que tinha uma boa quantidade de imagens prontas, preparava mais uma figura-isca e a exibia a frente de sua página, atraindo olhares que inevitavelmente se deparariam com seus outros trabalhos. Achava irônico ter de enganá-los para conseguir suas atenções, mas não era a única. Esperava um dia não precisar mais.

Não recebia qualquer remuneração, nada além dos comentários de seus visitantes. Eram o bastante. Cada saudação, cada elogio deixavam-na eufórica. E como uma criança, ria baixinho. Lia aquelas palavras e sabia que conseguiria continuar, sabia que ao empunhar o lápis a imaginação floresceria mais uma vez.
Sempre encontrava tempo entre cursos, aulas corridas e refeições. Sempre havia um novo sonho para uma nova folha.
Ela desenhava medos, desejos, sins e nãos. Desenhava a si mesma.

...

Agradeço à minha irmã, musa que me inspirou a escrever este conto.

6 comentários:

  1. Infelizmente é isto mesmo que acontece meu caro.
    As pessoas sentem uma incrível atração pelo erotismo e esquecem-se do conteúdo.
    Por isto revista de mulher pelada vende tanto!rsrsrs
    Como sempre...um ótimo conto! Bjs.

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  2. Talvez os comentários lhe bastassem, talvez a satisfação dela estivesse apenas nas palavras: elas podem ser mágicas e transformar a realidade, fazer-nos tristes ou alegres. Elas podem nos enfurecer ou nos tornar brandos como a brisa.

    by the way: as luzes alheias faíscam como atrativos para os insones... Um beijo!

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  3. Por isso os desenhos que faço, deixo apenas na minha gaveta.
    Sabe onde escondo meus sonhos? No papel...


    Ah, recebi seu email :)

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  4. ÓTIMO cOntO!
    ÓTIMO blOg!
    Com certeza passarei por aqui com mais frequencia. Parabéns =)

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  5. descreveste um sem número de almas com a mesma narração.

    mais abrangente, impossível!!!

    abraços...

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Queres sussurar algo ao Pierrot? Vá em frente, mas talvez ele esteja demasiadamente imerso na própria loucura para escutar suas palavras sibiladas...