domingo, 15 de fevereiro de 2009

O Homem


Eu morava em uma casa de praia. Não haviam muitos que chamasse de amigo, em fato não me lembro de qualquer um. Certo dia estava a arrastar meu carro de compras, cheio de inutilidades que o televisor me mandara comprar, pelos labirínticos corredores do supermercado. Encontrei então uma seção diferente. Havia uma grande e decorada embalagem. Dentro dela estava o homem. Boa aparência, parecia ser amigável.
- Agora eles também vendem pessoas no supermercado? - me perguntei ao analisar o pacote.
- Ao menos o preço é bom - respondeu o homem.
Realmente, 60 pratas era um preço muito atraente.
- Que bom. Onde é a seção das versões femininas?
- Infelizmente estão em falta. Como pode ver, sou o único que sobrou.
Relutei um pouco mas acabei cedendo.
- Tudo bem, fico com você mesmo. Por 60 pratas levaria até uma sogra.
Coloquei-o no carrinho. Era pesado. Conversamos um pouco até o caixa. Era um homem divertido e espontâneo, seria bom para me fazer um pouco de companhia. Quando chegou o momento de pagar, a atendente sorriu. Disse que eu tivera sorte, pois aquele era o último. Afirmou achá-lo belíssimo. Ele agradeceu. Perguntei se ela sabia de onde eles vinham. Me respondeu não ter certeza, supôs que viessem de algum local na Europa.
Coloquei meus produtos de natureza inútil na mala do carro e meu novo companheiro no banco traseiro.

Assim que cheguei em casa, posicionei o pacote na sala e o abri.
- Você vem com algum tipo de manual?
- Não. Para todos os aspectos sou um humano normal.
- Que bom.
Realmente não havia qualquer instrução na caixa. Nenhuma marca, nome ou data de validade.
- Têns uma bela casa.
Ele observava o cômodo. A sala era grande. Armários, estantes, um belo tapete, sofá, televisor, som, quadros. Havia uma vidraça de correr que dava acesso à varanda, de onde era possível observar a práia sentado em uma das confortáveis cadeiras.
- Obrigado.
- Uma bela casa, mas parece tão vazia...
- Não costumo ter muitas visitas.
- Percebe-se.
Sentei-me em uma das poltronas da sala. O vento do mar vinha gentil pela vidraça entre-aberta. Golfadas de ar longas e refrescantes. O homem sentou-se em outra poltrona. Conversamos. Ele tinha amplos conhecimentos, sabia de política, literatura, filmes, geografia. Era um homem muito agradável. Me perguntou se já dera alguma festa naquela bela casa. Eu nunca realizara qualquer evento ali. Ele então disse que se eu o permitisse, em 2 dias prepararia uma grande e animada festa. Me assegurou ser uma boa tática para aumentar meu círculo de relações. Consenti com relutância, daria uma chance a ele.
O homem ligou para meus companheiros de trabalho, vizinhos e ex-namoradas. Era bom com as palavras. Disparava convites como se os números do telefone fossem balas no tambor de um revólver. A meus colegas de trabalho relatava ser uma boa ocasião para debater sobre a atual situação da empresa. Aos vizinhos afirmava ser um evento para garantir uma política de boa vizinhança. Às ex-namoradas dizia ser uma oportunidade para reatar a amizade que se perdera com o tempo. Quase todos compareceram. Fiz ali, muitos dos contatos que mais tarde se tornariam grandes amizades.
O homem sempre me incentivava a ir além. Mandava sair, conversar, participar de festas e eventos. Mas ele nunca deixava a casa. Costumava ficar sentado na poltrona, escutando música e observando os solitários coqueiros balançando com o vento. Às vezes eu pedia que me acompanhasse, mas ele recusava sempre. Imaginei que tivesse sido feito assim, então nunca o pressionava. Seu cômodo preferido era sem dúvida a sala, onde os ventos marinhos vinham sempre lamber-lhe a face.

Após alguns meses eu havia criado fortes amizades e achava estar apaixonado por uma de minhas colegas. Mary, era como eu a chamava, um diminutivo para Mariana. Pequenina e doce.
Um dia enquanto eu cantarolava pela sala, o homem me perguntou:
- Porque não a chama para jantar?
- Quem?
- A mulher pela qual está caindo de amores.
- Como sabes?
- Ora... se todos cantassem tanto quanto você nos últimos dias, a vida seria um musical.
Ri. No dia seguinte convidei Mary para jantar. Ela aceitou. Ainda me lembro daquela noite. Fomos a um bom restaurante. Estava linda em seu vestido azul escuro. Seu cabelo brilhava como se fosse seda. Seus lábios se moviam e me mordiscavam a imaginação. Conversamos sobre muitas coisas. Ela era inteligente, meiga e belíssima. Eu estava encantado.
Uma semana depois, Mary e eu saímos. Escolhemos uma lagoa. Rimos como jovens novamente. Deitados na relva nos beijamos pela primeira vez. Ao fim do dia ela decidiu passar a noite em minha casa. Consenti. Quando chegamos não vi o homem. Subimos ao quarto e atravessamos a noite juntos.

(Final 1: Conto Branco)

Quando o sol raiou, desci e preparei o café para a bela mulher ainda adormecida em minha cama. Notei então que o homem não estava na sala. Procurei-o em vão. Quando sentei-me na poltrona para pensar sobre o inusitado desaparecimento, notei, imóvel, na outra poltrona, um grande espelho de bordas decoradas. Lá estava ele a me observar.

Pendurei o espelho na parede e olhei uma última vez o homem refletido.

Mary sorriu quando entrei com o café.

(Final 2: Conto Negro)

Quando o sol raiou, desci e preparei o café para a bela mulher ainda adormecida em minha cama. Notei então que o homem não estava na sala. Procurei-o em vão. Quando sentei-me na poltrona para pensar sobre o inusitado desaparecimento, notei, imóvel, na outra poltrona, um grande espelho de bordas decoradas. Lá estava ele a me observar. O homem que durante meses havia me dito o que fazer. Uma reação desesperada de minha mente solitária.

Pendurei o espelho em um espaço vazio na parede e olhei-o mais uma vez. Ele sorriu com ironia.

O som das ondas abafou uma gargalhada.

...

Estejam à vontade para imaginar qual terá sido o final original, assim como o ângulo de visão dos fatos por trás de cada um.

6 comentários:

  1. Como agradecer o carinho... vc simplesmente decifrou a pessoa por trás do alter ego Madrasta Má.... Me emocionei com seu comentário tocou meu coração.... Obrigada Pierrot, seja vc é bem-vindo no meu blog!
    Bjinhos da Madrasta!

    ResponderExcluir
  2. Interessante aqui...quero ler suas postagens com calma...

    Bom domingo pra vc,
    bj.

    ResponderExcluir
  3. Olha.... para mim como vc mesmo disse: O conto branco! Bjinhos da Madrasta!

    ResponderExcluir
  4. Olá, desculpa por não ter passado aqui nas últimas postagens, andei meio ausente do blog.

    Sobre o conto, gostei mais do final 2 - conto negro. Acho que o homem não estava totalmente desaparecido, ele apenas se incorporou a um canto da casa. Talvez a um espelho pra ser pendurado num canto da sala, o lugar que ele mais gostava. Talvez a intenção dele era dar uma ajudas sobre a vida do homem que o comprou, mas ele não queria atrapalhar suas relações pessoais, queria dar a ele uma liberdade vigiada até que fosse capaz de aprender a viver de forma social. O riso irônico, pra mim foi como se ele dissesse: "Danadinho hein", ha ha.

    Gostei :)

    ResponderExcluir
  5. Dessa vez não chorei, mas me arrepiei.
    O final 2 é o que eu sinto...
    Sinto meu proprio subconsciente me dizendo: vai lá, você consegue...
    Mas ultimamente ele tem dado mais risos ironicos, do que agir com a verdade...
    Exeto, minha ultima semana, na mesma, ele me sorria como quem diz: eu sabia que conseguiria :)

    Adorei, COMO SEMPRE!

    ResponderExcluir
  6. Olá
    Por acompanhar seu blog e apreciar os trabalhos contidos nele, estou te indicando para o selo "Vale a pena acompanhar". Mais informações em www.extreeemehate.blogspot.com. Obrigada. Beijos

    ResponderExcluir

Queres sussurar algo ao Pierrot? Vá em frente, mas talvez ele esteja demasiadamente imerso na própria loucura para escutar suas palavras sibiladas...