domingo, 8 de fevereiro de 2009

Cascos Eqüínos em Investida



A chuva lavava o telhado de madeira daquela pequena casa. Thor balançava seu martelo com força, lançando gotas violentas que explodiam como cascos eqüínos em investida.
Midnorf comia com calma. O cômodo mal se iluminava com a única vela sobre a mesa. Tomou um gole de sua cerveja. A cabeleira ruiva caía sobre seus largos ombros, os olhos azuis eram distantes. Um céu aberto, emoldurado no fogo vermelho da forja. Pensava no pequeno filho, dormindo do outro lado da porta à sua frente. Pensava na esposa, que acabara caindo no sono enquanto tentava colocar aquela energética criança na cama.

Não havia muito tempo, logo os soldados chegariam.

Midnorf tomou um último gole de sua cerveja e se levantou. Pegou a vela, atravessou a sala e abriu a porta do quarto. O pequenino dormia agarrado à mãe. Tão agitado e valente durante o dia, agora parecia um medroso filhote de lobo procurando abrigo entre as pernas da mãe. E como era bela sua esposa, seus cabelos trançados pareciam fios de ouro. Sempre forte, sempre a seu lado, sempre o apoiando, sempre o amando, ela era uma guerreira, ela era uma rainha, ela era sua Valkyria. Beijou seu filho no rosto e sua esposa nos lábios. Thor estourou um raio distante, a chuva açoitava o telhado.

Alguém esmurrou a porta. Três batidas, três badaladas, três sussurros.

Midnorf saiu do quarto e fechou a porta atrás de si. Recolocou a vela sobre a mesa e caminhou até o canto da sala. Repousando sobre uma cômoda de madeira estava sua espada. Runas vermelhas cravadas na lâmina, runas verdes talhadas no cabo. Tanta beleza em um instrumento assassino. Empunhou a arma, era pesada. Tinha o peso de muitas vidas, sangradas sem piedade, o peso de muitas almas, libertadas a golpes. Caminhou até a porta e a abriu. Um homem o feriu com os olhos. Carregava uma rebelde tocha, que se recusava a apagar com os ventos fortes e a grossa chuva.
- Está pronto? - perguntou a figura loira e musculosa.
- Vamos logo.
Caminharam pela chuva, montaram em cavalos que esperavam, e se juntaram a muitos outros.
Quando partiram a galope, Midnorf sentiu o peso da espada amarrada às costas. Lutaria por sua vida, lutaria por seus irmãos, lutaria por sua família.

Um comentário:

  1. Oi.
    Fiquei impressionada com sua "análise" sobre minhas crônicas.
    "Pintados sobre o papel em harmoniosa brincadeira, um pique-pega contra o tempo"

    Descreveu com louvor o modo que escrevo.
    Pena que essa criança interior que vc citou esta meio fraca ultimamente.


    Gostei do seu site tb!!
    Bem misterioso o visual dele.

    abraço

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Queres sussurar algo ao Pierrot? Vá em frente, mas talvez ele esteja demasiadamente imerso na própria loucura para escutar suas palavras sibiladas...