segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

As Formigas e o Corpo


Uma brisa suave entra pela janela...
O som das ondas do mar batem distantes...
Em algum lugar alguém tosse e pede mais um cigarro
jurando a si mesmo que aquele será o último...
Amanhece como qualquer outro dia... frio e silencioso...
Mas algo percorre um alto apartamento
da orla nesse dia...
...
Uma triste aura mórbida... quase tangível...
...
Pela janela se vê pessoas que vem e vão como
formigas distantes, apressadas, insensíveis a sonhos
ou desejos... Vem e vão sem nunca imaginar que a
alguns andares um jovem tirou a própria vida...
...
Não porque se sentisse oprimido, acuado ou sozinho...
Mas porque percebera aquelas distantes formigas...
Percebera o quão triste eram suas rotinas...
Percebera o quão cotidiana se tornara suas vidas...
...
Percebera que não eram aquelas as pessoas de quem
escutara quando jovem... em histórias antes de dormir...
Quando deixara de ser uma criança? Ninguém o avisou...
Ninguém o preveniu... Ninguém disse que sonhos eram
entorpecentes infantis... Arrancados bruscamente...
...
O último de uma espécie... o último que ainda lembrava...
Que fechava os olhos e sentia o cheiro das folhas daquele
sítio onde passara férias...
Que fechava os olhos e sentia o perfume de sua primeira
namorada... o olhar materno... o abraço de um amigo...
Um sorriso... dado por uma menina que nunca mais vira...
...
Agora recostado abaixo da janela jazia seu corpo...
Sereno... estático...
...
Agora era como elas... se tornara frio...

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Queres sussurar algo ao Pierrot? Vá em frente, mas talvez ele esteja demasiadamente imerso na própria loucura para escutar suas palavras sibiladas...