domingo, 15 de fevereiro de 2009

O Homem


Eu morava em uma casa de praia. Não haviam muitos que chamasse de amigo, em fato não me lembro de qualquer um. Certo dia estava a arrastar meu carro de compras, cheio de inutilidades que o televisor me mandara comprar, pelos labirínticos corredores do supermercado. Encontrei então uma seção diferente. Havia uma grande e decorada embalagem. Dentro dela estava o homem. Boa aparência, parecia ser amigável.
- Agora eles também vendem pessoas no supermercado? - me perguntei ao analisar o pacote.
- Ao menos o preço é bom - respondeu o homem.
Realmente, 60 pratas era um preço muito atraente.
- Que bom. Onde é a seção das versões femininas?
- Infelizmente estão em falta. Como pode ver, sou o único que sobrou.
Relutei um pouco mas acabei cedendo.
- Tudo bem, fico com você mesmo. Por 60 pratas levaria até uma sogra.
Coloquei-o no carrinho. Era pesado. Conversamos um pouco até o caixa. Era um homem divertido e espontâneo, seria bom para me fazer um pouco de companhia. Quando chegou o momento de pagar, a atendente sorriu. Disse que eu tivera sorte, pois aquele era o último. Afirmou achá-lo belíssimo. Ele agradeceu. Perguntei se ela sabia de onde eles vinham. Me respondeu não ter certeza, supôs que viessem de algum local na Europa.
Coloquei meus produtos de natureza inútil na mala do carro e meu novo companheiro no banco traseiro.

Assim que cheguei em casa, posicionei o pacote na sala e o abri.
- Você vem com algum tipo de manual?
- Não. Para todos os aspectos sou um humano normal.
- Que bom.
Realmente não havia qualquer instrução na caixa. Nenhuma marca, nome ou data de validade.
- Têns uma bela casa.
Ele observava o cômodo. A sala era grande. Armários, estantes, um belo tapete, sofá, televisor, som, quadros. Havia uma vidraça de correr que dava acesso à varanda, de onde era possível observar a práia sentado em uma das confortáveis cadeiras.
- Obrigado.
- Uma bela casa, mas parece tão vazia...
- Não costumo ter muitas visitas.
- Percebe-se.
Sentei-me em uma das poltronas da sala. O vento do mar vinha gentil pela vidraça entre-aberta. Golfadas de ar longas e refrescantes. O homem sentou-se em outra poltrona. Conversamos. Ele tinha amplos conhecimentos, sabia de política, literatura, filmes, geografia. Era um homem muito agradável. Me perguntou se já dera alguma festa naquela bela casa. Eu nunca realizara qualquer evento ali. Ele então disse que se eu o permitisse, em 2 dias prepararia uma grande e animada festa. Me assegurou ser uma boa tática para aumentar meu círculo de relações. Consenti com relutância, daria uma chance a ele.
O homem ligou para meus companheiros de trabalho, vizinhos e ex-namoradas. Era bom com as palavras. Disparava convites como se os números do telefone fossem balas no tambor de um revólver. A meus colegas de trabalho relatava ser uma boa ocasião para debater sobre a atual situação da empresa. Aos vizinhos afirmava ser um evento para garantir uma política de boa vizinhança. Às ex-namoradas dizia ser uma oportunidade para reatar a amizade que se perdera com o tempo. Quase todos compareceram. Fiz ali, muitos dos contatos que mais tarde se tornariam grandes amizades.
O homem sempre me incentivava a ir além. Mandava sair, conversar, participar de festas e eventos. Mas ele nunca deixava a casa. Costumava ficar sentado na poltrona, escutando música e observando os solitários coqueiros balançando com o vento. Às vezes eu pedia que me acompanhasse, mas ele recusava sempre. Imaginei que tivesse sido feito assim, então nunca o pressionava. Seu cômodo preferido era sem dúvida a sala, onde os ventos marinhos vinham sempre lamber-lhe a face.

Após alguns meses eu havia criado fortes amizades e achava estar apaixonado por uma de minhas colegas. Mary, era como eu a chamava, um diminutivo para Mariana. Pequenina e doce.
Um dia enquanto eu cantarolava pela sala, o homem me perguntou:
- Porque não a chama para jantar?
- Quem?
- A mulher pela qual está caindo de amores.
- Como sabes?
- Ora... se todos cantassem tanto quanto você nos últimos dias, a vida seria um musical.
Ri. No dia seguinte convidei Mary para jantar. Ela aceitou. Ainda me lembro daquela noite. Fomos a um bom restaurante. Estava linda em seu vestido azul escuro. Seu cabelo brilhava como se fosse seda. Seus lábios se moviam e me mordiscavam a imaginação. Conversamos sobre muitas coisas. Ela era inteligente, meiga e belíssima. Eu estava encantado.
Uma semana depois, Mary e eu saímos. Escolhemos uma lagoa. Rimos como jovens novamente. Deitados na relva nos beijamos pela primeira vez. Ao fim do dia ela decidiu passar a noite em minha casa. Consenti. Quando chegamos não vi o homem. Subimos ao quarto e atravessamos a noite juntos.

(Final 1: Conto Branco)

Quando o sol raiou, desci e preparei o café para a bela mulher ainda adormecida em minha cama. Notei então que o homem não estava na sala. Procurei-o em vão. Quando sentei-me na poltrona para pensar sobre o inusitado desaparecimento, notei, imóvel, na outra poltrona, um grande espelho de bordas decoradas. Lá estava ele a me observar.

Pendurei o espelho na parede e olhei uma última vez o homem refletido.

Mary sorriu quando entrei com o café.

(Final 2: Conto Negro)

Quando o sol raiou, desci e preparei o café para a bela mulher ainda adormecida em minha cama. Notei então que o homem não estava na sala. Procurei-o em vão. Quando sentei-me na poltrona para pensar sobre o inusitado desaparecimento, notei, imóvel, na outra poltrona, um grande espelho de bordas decoradas. Lá estava ele a me observar. O homem que durante meses havia me dito o que fazer. Uma reação desesperada de minha mente solitária.

Pendurei o espelho em um espaço vazio na parede e olhei-o mais uma vez. Ele sorriu com ironia.

O som das ondas abafou uma gargalhada.

...

Estejam à vontade para imaginar qual terá sido o final original, assim como o ângulo de visão dos fatos por trás de cada um.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Passagens Para a Lua



Chriss Carvell correu para o quarto, pegou uma velha mala, a abriu sobre a cama e começou a lançar roupas. Olhou o relógio de pulso. Tinha uma hora até que Amanda voltasse da escola com as duas filhas. Suas filhas.
Pegou apenas o necessário. Calças, camisas, cuecas, meias, documentos e suas economias. Não dobrou ou arrumou, apenas lançava tudo aquilo na mala. Quando imaginou já ter o bastante, a fechou. Seus olhos fitaram a fotografia sobre o criado-mudo. Uma foto tirada a alguns anos durante uma viagem da família. Lá estava ele, agachado, segurava pela cintura Cindy, que a pouco aprendera a andar. Ao seu lado estavam Danielle, sua outra filha, e Amanda, sua esposa. Todos sorriam felizes. Era uma foto antiga. Colocou-a no bolso.
Levantou a mala e saiu da casa. As flores do jardim eram belas e bem cuidadas. Talvez se não tivesse dado tanta importância àquele maldito jardim, como a tantas outras coisas, não precisasse ir. Observou o balanço amarrado em um alto galho da mangueira. O colocara ali quando Danielle fizera 10 anos. Quantas vezes a balançara e brincara. Seus risos infantis ainda ecoavam quando o vento fazia farfalhar as folhas secas no chão.
Deu alguns passos e parou. Secou na manga amarrotada as lágrimas que lhe escorriam. Respirou fundo e continuou a passos determinados. Tinha de partir. Se ficasse acabaria magoando ainda mais a todos. Quando chegou ao portão, deu uma última olhada para trás. Cindy esquecera a janela de seu quarto aberta. As cortinas brancas esvoaçavam para fora. Estavam lhe dando adeus.

Sentado no ponto de ônibus, Chriss observava mudo as pessoas ao seu redor. Se perguntava por que pareciam tão calmas com suas vidas. Queria levantar e perguntar a alguém:
- Desculpe minha intromissão, mas por que diabos você está com esse sorriso imbecil na cara? O que há de tão engraçado?!
Talvez até a segurasse pela camisa e desse alguns tapas antes de fazer a pergunta em si.
Voltou à realidade, ser preso não era uma boa opção, não tão perto de casa.
Sua condução chegou. Ele subiu e se sentou atrás. Duas cadeiras a frente havia um jovem casal. Eles sussurravam palavras melosas e clichês de novela. Cada beijo estalava um tapa na orelha de Chriss. Tinha nojo desses casaizinhos atuais e seus relacionamentos de uma semana. Vomitando palavras românticas, pareciam comprar amores na seção de balas.
Imaginava como seria a cena se vivesse em um mundo onde todos dizem a verdade.
Se sentaria atrás deles, colocaria uma mão sobre o ombro de cada um e diria:
- Bravo! Adorei as palavras doces meu rapaz, mas ficam melhor quando ditas pelo ator que fez esse papel. Quanto a você minha querida, acredite nessa conversa enquanto pode, porque daqui a alguns anos vai estar preparando a janta enquanto seu amado esposo trepa com a colega de trabalho.
- E a melhor parte é que não sentirei qualquer remorso - diria o rapaz.
- Isso mesmo. Ele sequer sentirá remorso. Isso, é claro, se até semana que vem ele não encontrar pretexto para brigar e te trocar por sua melhor amiga.
- O número dela está em algum lugar do meu armário.
- Boa campeão! E antes que me esqueça, dinheiro não traz felicidade, mas se você não tiver, é bom estar preparado para criar seus filhos em algum barraco com um emprego de merda.
O ônibus parou, trazendo Chriss Carvell de volta à realidade. Era seu ponto.

Estação ferroviária. Caminhou pelo saguão, passou pelos guichês e observou os destinos. Norte, sul, leste, oeste. Podia ir para onde desejasse. Infelismente não tinham passagens para a lua, os trilhos ainda deviam estar em construção.
Comprou um bilhete para uma cidade distante. A mesma cidade em que havia tirado aquela foto no bolso.
Atravessou as passarelas e encontrou a sua. Sentou-se em um dos bancos, colocou a mala sobre as pernas e esperou. Nunca havia visto tantas pessoas diferentes em um só local. Cores, religiões, idades, estilos. Os trens vinham como águas e renovavam as faces.
Um senhor se sentou a seu lado. Com tantos outros bancos, porque tinha de se sentar logo naquele, imaginou. O velho soluçou, fedia a álcool e cigarros. As roupas não eram ruins, a longa barba era suja e embaraçada, o olho esquerdo estava totalmente tomado pela catarata.
- Ótimo, não bastava sentar ao meu lado, tinha de ser o Matusalén embriagado - resmungou Chriss.
- Como disse? - perguntou o cambaleante homem.
- Nada... não era com o senhor.
O velho observava as pessoas que saiam dos trens.
- Sabe qual o segredo delas? - perguntou o senhor.
Carvell ignorou, esperando que desse sorte e ele estivesse bêbado o bastante para cair nos trilhos.
- Eles não dormem!
Chriss o olhou e replicou irônicamente:
- Eles são felizes porque não dormem... genial.
- Não disse que eles são felizes.
- Então o que disse?
- Disse que eles são tão indiferentes porque não dormem.
Chriss respirou fundo e voltou a olhar para os trens. Sabia que não devia ter incentivado aquela conversa. O homem continuou sozinho:
- Como não dormem, não sonham. E como não sonham, aceitam a vidinha programada que levam...
Chriss Carvell não acreditava naquilo. Sabia que todos tinham seus sonhos, mas também tinham seus medos. Sabia que muitas vezes o medo os fazia desistir de seus sonhos. Sabia que eram tão infelizes quanto ele, mas se recusava a aceitar. Não queria acreditar viver em um mundo tão triste.
Chriss se levantou e deixou o velho para trás. Seu trem chegara. Ele subiu no vagão e se sentou.
Tirou a foto do bolso.
Todos sorriam, uma imagem antiga.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Não Era a Única




Sentada no chão, ela desenhava. Prancha apoiada na cama, lápis balançando de um lado ao outro e dando forma à imagem em sua mente. O televisor mudo exibia imagens de algum filme antigo. O ventilador rodopiava, misturando-se á música do aparelho de som em algum canto daquele quarto pouco iluminado.
Desenhava mulheres nuas com seios fartos em posições eróticas, o tipo de besteira que atrairia muitos curiosos para sua página na internet. Não era seu estilo, mas queria a publicidade. Achava engraçado como clicavam quase que impulsivamente ao vê-las. Uma isca necessária para divulgar seu trabalho naquele mundo onde a concorrência pelos melhores sonhos era grande.

Gostava de retratar pessoas. Dava vida a cenas de beijos, belas paisagens, romances utópicos e sorrisos que antes só eram visíveis em sua mente. Desenhava horizontes, com seus sóis poentes e amantes sobre a relva. Sempre com doçura, esculpia sonhos e os colocava ternamente sobre as folhas amareladas. Uma poetisa que tecia seus versos em curvas coloridas.
Assim que tinha uma boa quantidade de imagens prontas, preparava mais uma figura-isca e a exibia a frente de sua página, atraindo olhares que inevitavelmente se deparariam com seus outros trabalhos. Achava irônico ter de enganá-los para conseguir suas atenções, mas não era a única. Esperava um dia não precisar mais.

Não recebia qualquer remuneração, nada além dos comentários de seus visitantes. Eram o bastante. Cada saudação, cada elogio deixavam-na eufórica. E como uma criança, ria baixinho. Lia aquelas palavras e sabia que conseguiria continuar, sabia que ao empunhar o lápis a imaginação floresceria mais uma vez.
Sempre encontrava tempo entre cursos, aulas corridas e refeições. Sempre havia um novo sonho para uma nova folha.
Ela desenhava medos, desejos, sins e nãos. Desenhava a si mesma.

...

Agradeço à minha irmã, musa que me inspirou a escrever este conto.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Carne Cansada


Vivemos um dia por vez... será?
Há dias em que os raios da aurora parecem brilhantes demais. Ferem a vista de nossa criatura semi-viva caída sobre o leito. O corpo pesa e a cama nos agrilhoa. Ponteiros no relógio reclamam, ordenando que nos ergamos imediatamente. Não há tempo para repouso, as responsabilidades não esperam, construções sedentas por sua presença o querem de pé. As engrenagens dentadas da máquina ignoram o fato de seres carne cansada, ignoram o corpo pesado como pedra afundando no mar.
Um dia arrastado, os pés mal tocam o chão. Caminha em mundo distante, acorrentado à realidade pelos mesmos assuntos que o fazem levitar. Pensamentos arranham o corpo e sussurram arrepios.
Dias em que um banco esquecido no pomar seria o bastante. Dias em que ninguém parece se importar. Quando questionado sobre a triste feição, desvencilha-se logo com um "estava apenas pensando". Sorris na mesma alegria de uma hiena faminta.
Dias que são curados apenas com a fuga. Foges ao início e se deita novamente.
Dias em que não sonhas.

Uma Bizarra Atração


A roda gigante girava, o carrossel tocava música e colocava sorrisos nos rostos infantis.
Charles Nails era o funcionário mais velho do parque. Durante 63 anos trabalhara como palhaço ali. Quando começara, o local nada mais era que uma latrina. Brinquedos velhos e perigosamente sem manutenção. Lembrava de como a noite os mendigos vinham se abrigar entre as atrações. Perdera a conta de quantas vezes tivera de ir expulsá-los. Hoje nada ali lembrava essa época. Carros de cachorro-quente, barracas de sorvete, brinquedos novos e lubrificados, seguranças, casas de apresentação e pais desembolsando altas quantias de suas gordas carteiras.

Era sua pausa entre os shows. Diziam que era uma estrela, se sentia uma bizarra atração. Sentado em um dos inúmeros bancos de madeira, ele observava as crianças indo de um lado a outro. Famintas e apressadas. Se acotovelavam, ignoravam a fila, roubavam doces dos amigos e irmãos. Pequenas bestas domesticadas. Suas risadas o agulhavam. Por todos aqueles anos ele as escutara. Sempre riam dele, ele era o tolo, todos riam dele. Uma criança saiu de perto dos pais e se aproximou do palhaço sentado. Ele voltou sua face e a encarou secamente, fazendo com que a pequena figura gritasse, corresse, e se abrigasse entre as pernas da mãe. Belas pernas ela tinha.
Jovens palhaços distribuíam balões coloridos. Queria explodir cada um deles, queria sentir aquelas bexigas de ar sendo estranguladas e estourando em gritos abafados.
Era uma antiguidade rachada. Não possuía mais qualquer valor, era mantido apenas porque seus donos sentiam remorso de jogar fora algo com tantas histórias. Os mesmos donos que se tornavam tão inabaláveis quanto máscaras de marfim assim que chegava a hora do pagamento. Abutres com ilusões de humanidade.
Charles observou o céu. Nublado, não havia espaço para ele lá. Restava a terra, onde caminhavam inúmeras cópias mais jovens e sadias de seu personagem tolamente alegre.
Decadente e já sem sonhos, não haviam mais muitas opções, acabara se tornando aquilo que sempre fingira ser. Deixou o banco e entrou em uma das tantas tendas coloridas. Alguém o chamou em vão.
Era quase hora de sua próxima apresentação.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Cascos Eqüínos em Investida



A chuva lavava o telhado de madeira daquela pequena casa. Thor balançava seu martelo com força, lançando gotas violentas que explodiam como cascos eqüínos em investida.
Midnorf comia com calma. O cômodo mal se iluminava com a única vela sobre a mesa. Tomou um gole de sua cerveja. A cabeleira ruiva caía sobre seus largos ombros, os olhos azuis eram distantes. Um céu aberto, emoldurado no fogo vermelho da forja. Pensava no pequeno filho, dormindo do outro lado da porta à sua frente. Pensava na esposa, que acabara caindo no sono enquanto tentava colocar aquela energética criança na cama.

Não havia muito tempo, logo os soldados chegariam.

Midnorf tomou um último gole de sua cerveja e se levantou. Pegou a vela, atravessou a sala e abriu a porta do quarto. O pequenino dormia agarrado à mãe. Tão agitado e valente durante o dia, agora parecia um medroso filhote de lobo procurando abrigo entre as pernas da mãe. E como era bela sua esposa, seus cabelos trançados pareciam fios de ouro. Sempre forte, sempre a seu lado, sempre o apoiando, sempre o amando, ela era uma guerreira, ela era uma rainha, ela era sua Valkyria. Beijou seu filho no rosto e sua esposa nos lábios. Thor estourou um raio distante, a chuva açoitava o telhado.

Alguém esmurrou a porta. Três batidas, três badaladas, três sussurros.

Midnorf saiu do quarto e fechou a porta atrás de si. Recolocou a vela sobre a mesa e caminhou até o canto da sala. Repousando sobre uma cômoda de madeira estava sua espada. Runas vermelhas cravadas na lâmina, runas verdes talhadas no cabo. Tanta beleza em um instrumento assassino. Empunhou a arma, era pesada. Tinha o peso de muitas vidas, sangradas sem piedade, o peso de muitas almas, libertadas a golpes. Caminhou até a porta e a abriu. Um homem o feriu com os olhos. Carregava uma rebelde tocha, que se recusava a apagar com os ventos fortes e a grossa chuva.
- Está pronto? - perguntou a figura loira e musculosa.
- Vamos logo.
Caminharam pela chuva, montaram em cavalos que esperavam, e se juntaram a muitos outros.
Quando partiram a galope, Midnorf sentiu o peso da espada amarrada às costas. Lutaria por sua vida, lutaria por seus irmãos, lutaria por sua família.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Risadas Contadas com Desgosto


Sejamos todos convidados da grande festa. As fantasias serão os tolamente alegres palhaços, os sorrateiros e desbocados bufões, os tristes e loucos pierrots. Pegue sua roupa e entre logo. Se demorares muito não entenderás as risadas contadas com desgosto.

O cômodo é pequeno. Jamais seria o suficiente para tantos olhos inquietos. Nas paredes correm os gargalhantes palhaços. Agridem uns aos outros, reclamam, amaldiçoam, trapaceiam e mentem. Sempre entre gostosas risadas e expressões inesperadas. Mas choram derrotados quando são eles o centro das maldades.
No chão ficam os bufões. Contam histórias tão cruas que são considerados tolos mentirosos. Espreitam de um lado a outro, sussurrando verdades entre reverências exageradas. Não se sabe ao certo se divertem com suas fábulas tolas, ou se são uma ameaça ao semear palavras nuas.
No teto divagam os pierrots. Cada um pensa em sua amada Columbine. Abandonados por seus corações e enlouquecidos. Comentam sobre locais de beleza infinita, parecem perceber detalhes invisíveis a outros. Por um único segundo voltam à realidade, mas a dor é tão grande que enlouquecem novamente. Divagam, cada um com uma solitária lágrima molhando o rosto.

Pegue sua fantasia e entre logo, antes que a eternidade se vá e a eles não mais possas se juntar.

Seu Perfume


Sentado ao lado da cama eu a observo ainda dormindo. Serena e bela. Seu perfume suave está por todo o quarto, seu perfume está por todo meu corpo. Ela acorda devagar, abre os olhos e sorri para mim. Eu sorrio de volta. Ela me abraça por trás e me beija no rosto. Seu perfume... Sinto seu perfume, sinto seu cabelo em minha nuca, sinto ela. Sussurro um eu te amo.
Saio para trabalhar. Quando volto ela está na sala tomando uma chícara de chá e lendo um livro. Sinto seu perfume. Ela está linda, ela sempre está linda. Me lança aquele sorriso que só ela tem, aquele sorriso que me faz querer amá-la mais do que se pode compreender. Sorrio de volta e sento ao seu lado.
Saio do banho e preparo a janta. Ela aparece em seu robe branco secando o cabelo. Ri do fato de eu ser o cozinheiro da casa. Sirvo a janta. Ela segura meu rosto com as mãos e me beija na testa. Como é bom seu perfume, como é maravilhosa a sensação de seus cabelos lambendo minha face. Quero abraçá-la e beijá-la ali mesmo. Digo que a amo.
Termino a janta e sigo até o quarto. Lá está ela. Deitada de bruços, com a cabeça apoiada nos braços, me observando serenamente. Sento na beirada da cama. Ela me abraça e me beija a bochecha. Fecho os olhos e sinto seu perfume. Digo que a amo. Digo que a amo mesmo sabendo que ela não está ali. Digo que a amo mesmo sabendo que ela se foi a muito tempo. Digo que a amo e reconheço que o erro foi meu. Digo que apenas queria protegê-la. Deixo cair a cabeça nas mãos. Não me lembro mais como se chora.

Um Bom Cristão-Não-Suicida


2:42 da manhã e o agente de polícia, Henrique Cortez, dormia a exatos 39 minutos e 13 segundos. Sonhava com um quarto de motel. Sentado, bebia lentamente seu copo de Scoth enquanto observava as strippers dançando ao som de um pesado metal melódico. Os corpos se balançavam em rastros coloridos de um lado para o outro. Ele escutava as risadas delas, ninfas que pareciam se divertir em uma coreografia embriagada. O cigarro queimava pela metade no cinzeiro ao seu lado. A fumaça subia e se juntava à festa com suas formas contorcidas e dançantes.
A música chegou ao fim, assim como as peças de roupa de suas companheiras. Elas se aproximaram em linha. Pedaço por pedaço despiram e acariciaram-no. Os corpos estavam em pelo naquele quarto de motel. A rapariga a frente de Henrique se curvou e beijou-lhe os lábios. Ele se levantou e a abraçou forte enquanto caíam sobre a cama. O cigarro quase no fim queimou e lançou uma última dose de fumaça no ar, que se agitou e se contorceu.

O som estridente do telefone foi tão agradável quanto um tapa na cara.

Cortez se sentou ao lado da cama, deixou a besta tocar mais duas vezes enquanto esfregava o rosto. Esperou mais dois toques apenas para poder ficar ali odiando o aparelho. Percebeu então que se escutasse aquela irritante campainha mais uma vez, iria direto para o inferno. E como era um bom Cristão-Não-Suicida, atendeu.
- Agente Cortez? - perguntou a voz do outro lado.
- Infelizmente.
- Desculpe acordá-lo a essa hora, aqui é o agente Alex Oliveira, temos um homicídio em mãos e o chefe quer você aqui imediatamente.
Ele devia estar ligando da própria cena do crime. Vozes e ruídos eram nítidos ao fundo.
- Agente Oliveira, de quantas formas diferente você pretende conseguir me fuder no mesmo dia?
- Nenhuma além das que já devo ter conseguido, mas não posso dizer o mesmo do chefe se você não arrastas seu traseiro até aqui imediatamente.
Fudido e desempregado não soava bem para Henrique Cortez, então ele anotou o endereço que Alex balbuciou.
Foi ao banheiro, lavou o rosto, se vestiu, pegou as chaves e a arma, beijou a esposa que ainda dormia e a invejou por um instante. Ligou o carro e partiu pela estrada. O endereço não era muito longe, conhecia o local. Ruas vazias, ele voava sobre o asfalto. A lua iluminava os becos e as residências que riscavam a vista. Imaginou ter visto o anjo da morte balançando sua foice sob a luz de um poste. Não era a primeira vez.
Parou o carro, saiu, atravessou a barreira policial ao redor do prédio, subiu as escadas, entrou no apartamento.
- Puta que o pariu! Cuidado para não pisar no sangue ai, caralho! Vai espalhar essa merda por toda parte! - gritou alguém responsável pela perícia.
O local tinha fotógrafos, peritos, investigadores e o orgulhoso Satanás na forma do chefe Pietro, que ignorava qualquer capacidade mental em seus subordinados e vociferava ordens sobre como cada um deveria fazer seu trabalho.
Lá estava o corpo, estendido de bruços no meio da sala. A garganta cortada até quase a espinha.
- Ai está você Henrique - disse o chefe assim que bateu os olhos na figura em pé na porta.
- Vim assim que recebi o chamado senhor - disse Cortez.
- Excelente.
Pietro esboço um sorriso irônico. O filho da puta se divertia em fazê-lo acordar no meio da madrugada sempre que podia, pensou. Queria poder levantar sua arma e livrar o mundo daquele sádico. Imaginou que uma bala seria suficiente para estourar aquele crânio. Talvez usasse duas, atirando primeiro no cacete dele, e só então explodindo-lhe os miolos.
- Como pode ver, o infeliz teve a garganta cortada em um golpe só. A navalha da arma entrou até a espinha, mas não teve força o bastante para passar pelo osso - discorreu o chefe.
- Qual o nome da vítima?
- Malcolm Haris Jr. Conhece?
- Um pouco. A alguns meses peguei uma papelada que o apontava como um contrabandistazinho.
- Isso já sabemos.
- Sabemos qual foi a arma?
- Parece ter sido um facão.
- Temos alguma digital ou amostra de DNA?
- Só as do saco de tripas ai. Quem fez isso usou luvas e tomou cuidado para não deixar nada que o incriminasse.
- A porta...
- Sem sinais de arrombamento, tudo indica que a vítima conhecia o assassino e abriu a porta de livre e espontânea vontade.
Henrique coletou mais algumas informações úteis para a investigação, olhou o corpo e os aposentos em busca de alguma prova. Depois persuadiu Satan para que lhe deixasse voltar para casa e descansar um pouco.
Desceu as escadas, acendeu um cigarro, recostou-se na parede e divagou. Malcolm era um vagabundo baixo nível que cedo ou tarde acabaria sendo pego. Sequer devia saber para quem trabalhava, e com ele morto ainda mais perguntas ficariam sem resposta. Se os imbecis o tivesse preso antes de ser assassinado talvez tivessem algo em que trabalhar.

A bituca voou longe enquanto Henrique entrava no carro. Ajeitou o retrovisor e viu repousando sobre seu banco traseiro um facão de jardinagem. A luz do poste sobre o carro dava às manchas rubras um brilho quase místico. Recolocou o retrovisor na posição original e deu a partida. No caminho de volta parou sobre uma ponte. Saiu do carro, acendeu seu último cigarro e abriu a porta traseira. Lá estava ele. Cortez ficou parado observando a arma do crime caída ali. A lua a iluminava. Um contraste entre o brilhante aço cru e o sangue seco enegrecido. Terminou o cigarro, pegou a arma pelo cabo usando um lenço e a lançou no rio. Talvez não fosse a coisa mais inteligente a se fazer, imaginou enquanto ela girava em direção à agua.

Quando finalmente, naquela manhã, se deitou ao lado de sua esposa, Henrique Cortez escutou um bater de assas perto de sua janela. Talvez fosse o anjo da morte, pensou enquanto tentava voltar ao sonho de que fora tirado mais cedo.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

O Gosto dos Beijos


Sonhos, o jardim das ilusões. O local onde todas as mentes vão para se libertar.
Por que as vezes tememos tanto os sonhos? Porque eles podem transformar nossos maiores pesadelos em agradáveis banhos de sol. Podem mostrar o quão amarga e ainda viva é a memória que lutamos para esquecer... e a trazer de volta da pior forma... aquela que fica impregnada em nossos corpos e mentes mesmo depois que acordamos... verdades pesadas e afiadas. Verdades que nos afetam os sorrisos, os abraços e o gosto dos beijos.
Queria eu poder sonhar sem nunca acordar. Ai então as mentiras não seriam, e só a verdade teria de enfrentar.

Um Velho Amigo Como Tantos Outros


A fumaça do cigarro recém aceso se dissipa no ar. Escuto o despencar das gotas que se acumularam no telhado durante a chuva. Um som que se repete como o tic-tac do relógio.
- Preciso comprar um novo relógio - pronuncio enquanto observo o espaço vazio na parede onde costumava haver um.
Uma mosca zumbe ao redor de minha mesa. Pousa na parede de madeira corrida, no sofá, no meu ombro, em uma calça jogada ao canto. Penso no porquê daquela calça jogada ali.
A mosca zumbe e voa. Levanto um copo e espero ela pousar perto. Ela pousa. Capturo-a no copo emborcado e observo. Seu mundo agora reduzido a alguns centímetros cúbicos de ar saturado. Ela não sabe, mas morrerá ali. Ela não sabe e não me importo em avisá-la.
A mosca logo me parece um velho amigo como tantos outros. Voa e se debate contra as paredes do copo. Para, caminha um pouco e logo volta a tentar um voo. Talvez ela não se debatesse se o copo fosse maior.
Tento me lembrar o quanto vive uma mosca livre. Não faço ideia de quanto seja. Imagino que essa também não seja uma grande preocupação dela no momento.
Após minutos a prisioneira se acalma. Terá percebido a gravidade da situação e se desesperara? Ou aceitara o fato de que se lançar contra aquela barreira invisível a seus olhos de nada adianta? Mais algum tempo e passa a caminhar pela superfície de cristal. Imagino que esteja observando o vasto mundo ao seu redor, que agora parece dezenas de vezes maior. Talvez tenha percebido a futilidade de sua vida, voando de um lado a outro sem nunca ter um real objetivo. Ou talvez tenha percebido seu destino fatídico, caminhando então para conhecer cada milímetro de sua lápide.
Termino de escrever e logo vem o sono. Morpheus faz questão de colocar uma boa quantia de areia em cada olho. Antes de me levantar observo minha cativa amiga mais uma vez. Ela permanece imóvel no fundo do copo, balança as asas e volta à imobilidade. Por um momento acho que está imersa em tristeza.
Adormeço em minha cama.
Quando raia o dia, volto à mesa, observo o copo-prisão e o cadáver nele contido. De barriga para cima, caída na madeira. Estaria ela tão perto assim do fim? Sinto uma pontada de remorso que logo passa. Era apenas uma mosca.
A fumaça do cigarro recém aceso se dissipa no ar.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

O Verme


As pessoas costumam tentar ignorar os sentimentos que as fazem sofrer...
Os escondem... dentro de si... e saem de casa sorrindo...
Mas aos poucos aquele sentimento vai pesando... ficando apertado...
Aos poucos o sorriso vai se apagando... e sem perceber a pessoas se torna melancólica...
Aqueles próximos a avisam... mas ela não sabe o porquê... não consegue entender...
Por que está melancólica? Por que sorrisos não são mais fáceis como eram?
Não entende... não quer entender... se recusa a aceitar...
...
E seu estado vai se tornando mais e mais agravado...
Logo o sol parece sempre coberto por nuvens... a chuva lembra lágrimas...
Lágrimas que não consegue mais derramar... desaprendera...
O caminhar parece pesado... o chão revida a cada passo...
O caminho de sempre parece não levar a lugar algum...
...
Então ele percebe... percebe que escondera... enganara...
Mas jamais conseguira fazê-lo para si...
E passa a se perguntar até quando aquele verme vai continuar ali...
Comendo sua carne... em dor silenciosa... perto demais...
...
Alguns se sentem distantes... como se pessoas fossem sussurros...
Outras se sentem sujas... como se estivessem apodrecendo por dentro...
Algumas só revelam seus sentimentos quando ninguém as observa...
Acessos de raiva... querem se livrar daquilo e não conseguem...
Lágrimas derramadas... choram por não conseguirem esquecer...
Gargalhadas histéricas... riem de si mesmos...
...
Loucos... todos se tornam intangíveis...
E enquanto aquela pequena criatura se mantiver aninhada dentro dela,
nada fará muita diferença... a não ser o que lhe deu origem...
...
Lembranças se tornam perigosas... uma simples palavra pode turvar o caminho...
Um perfume pode causar desespero... uma rua pode parecer longa demais...
E quanto a fotos... algumas se tornam objetos assustadores...
Causando repulsa, elas se recusam a olhá-las... como se fossem horrendas cenas de um crime...
...
Mas como se recuperar dessa criatura que vive tão perto?
A resposta é tão simples que muitos a ignoram...
Elas não se recuperam...
Apenas aprendem a conviver com aquele verme... aprendem a suportar a dor...
E se tiverem sorte aprendem a ignorá-lo... mas nunca livram-se dele...
Ele sempre viverá perto demais...
...
E então criança... você me parece ter visto muitos rostos... quantos desses já carrega?

As Formigas e o Corpo


Uma brisa suave entra pela janela...
O som das ondas do mar batem distantes...
Em algum lugar alguém tosse e pede mais um cigarro
jurando a si mesmo que aquele será o último...
Amanhece como qualquer outro dia... frio e silencioso...
Mas algo percorre um alto apartamento
da orla nesse dia...
...
Uma triste aura mórbida... quase tangível...
...
Pela janela se vê pessoas que vem e vão como
formigas distantes, apressadas, insensíveis a sonhos
ou desejos... Vem e vão sem nunca imaginar que a
alguns andares um jovem tirou a própria vida...
...
Não porque se sentisse oprimido, acuado ou sozinho...
Mas porque percebera aquelas distantes formigas...
Percebera o quão triste eram suas rotinas...
Percebera o quão cotidiana se tornara suas vidas...
...
Percebera que não eram aquelas as pessoas de quem
escutara quando jovem... em histórias antes de dormir...
Quando deixara de ser uma criança? Ninguém o avisou...
Ninguém o preveniu... Ninguém disse que sonhos eram
entorpecentes infantis... Arrancados bruscamente...
...
O último de uma espécie... o último que ainda lembrava...
Que fechava os olhos e sentia o cheiro das folhas daquele
sítio onde passara férias...
Que fechava os olhos e sentia o perfume de sua primeira
namorada... o olhar materno... o abraço de um amigo...
Um sorriso... dado por uma menina que nunca mais vira...
...
Agora recostado abaixo da janela jazia seu corpo...
Sereno... estático...
...
Agora era como elas... se tornara frio...