segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Vá Bater em Outra Porta



O doutor arrumava a papelada na escrivaninha branca enquanto lançava rápidos olhares para o rapaz de 35 anos sentado do outro lado. Parou após alguns minutos, cruzou os dedos sobre a mesa e atirou friamente:
- Você tem câncer Sr. Malloy
- Me chame de Bill.
- Você tem câncer Bill.
Bill recostou na cadeira e se balançou um pouco. Como detestava hospitais. Seus comodos brancos, seus médicos de branco, sua mobília branca e seus pacientes podres e pretos por dentro. Aquele cheiro horrível de desinfetante que usavam para camuflar o odor putrefato exalado por seus visitantes semi-vivos. "São a via expresa para o caixão." Costumava pensar.
O doutor exibia sua roupa impecável como e fosse Deus. Devia se achar Deus, ajudando todos aqueles enfermos, como se não estivesse sendo pago para fazê-lo. Mas o quê irritava Bill naquele momento não eram os corredores brancos, os doutores cheios de si, o cheiro do desinfetante, as filas enormes de pessoas tossindo, ou aquela verruga nojenta no pescoço do velho a sua frente. O quê irritava Bill Malloy era que após uma semana indo àquele necrotério pintado de branco, fazendo exames entediantes e sendo espetado mais vezes do que jamais desejara, a verruga velha à sua frente lhe dissera que tinha câncer. Deveria ter recebido um atestado de saúde perfeita e um prêmio em dinheiro, isso sim faria sentido, imaginou.

- A solução é iniciarmos o tratamento Bill.
- Uhum.
- Como você não tem plano de saúde...
- Tudo bem doutor, já entendi a situação. Volto amanhã para continuarmos e acertarmos os custos.
Bill se levantou, apertou a mão da verruga gorda o mais rapido que conseguiu e logo estava longe dali.
Não voltaria no dia seguinte e não tinha a intenção de voltar nunca mais. Não sabia o preço do tratamento mas sabia que não tinha o bastante. Acendeu um cigarro, o mesmo que fumava a 19 anos, o mesmo que encurtara sua vida em uns 35 anos.

Caminhou até sua casa, subiu as escadas, abriu a porta, tomou banho, trocou de roupa, acendeu outro cigarro, sentou à mesa, começou a ler. Durante meia hora entreteu-se em sua prisão particular. Então a campainha tocou. Bill interrompeu a leitura e atendeu à porta. Era uma mulher. 30 anos ou menos, cabelos longos, pretos, enrolados, boa feição e muita maquiagem. Usava um vestido negro com longa fenda lateral que deixava sua bela e farta perna a vista.
- Não tenho dinheiro para gastar com você queridinha, vá bater em outra porta.
- Entendeu errado sr. Malloy, vim lhe propor um acordo.
- Uhm... - Bill deu outra longa olhada naquela perna e saiu do caminho - entre.
A mulher caminhou e se sentou onde antes Bill lia seu livro.
- Tem alguma coisa para beber Sr. Malloy?
Bill concentiu com a cabeça . Pegou uma garrafa de vinho pela metade e encheu dois copos enquanto ela acendia um cigarro. Serviu um copo à dama e se sentou com o seu logo à frente.
- Sei que está com problemas, Sr. Malloy, e posso ajudá-lo, mas quero algo em troca.
- E o que seria isso?
- Em troca do seu tratamento quero que viva sua vida da forma como eu escolher.
Bill acendeu outro cigarro e ponderou silencioso. Se havia algo que ele odiava era alguem lhe dizendo como deveria viver sua vida, mas no momento não estava melhor que uma mosca na merda e não havia muito que pudesse piorar. Se o acordo fosse bom talvez conseguisse até se deitar com aquelas belas pernas.
- Por enquanto estou ouvindo senhorita.
Ela cruzou as pernas para o outro lado e continuou:
- Quero que leve uma vida de festas Sr. Malloy. Bebedeiras, corridas, apostas, mulheres, orgias. O quero sempre cercado de pessoas que o acompanhem nessas festas.
Bill ponderou novamente. Não parecia de todo mal. Talvez enjoasse dessa vida, mas haviam coisas muito piores.
- Tudo bem, aceito senhorita.
- Explêndido - ela disse se levantando e colocando um largo maço de cédulas na mesa - este é para se virar até o fim da semana Sr. Malloy. Receberá um toda semana para as despesas das festas e variados.
A mulher de belas pernas então passou pela porta e se foi. Bill ficou ali contando o dinheiro, havia bastante para grandes festas durante toda a semana. Ele separou uma parte para seu tratamento e começou a colocar em prática os desejo de sua nova dona.
Durante dois anos Bill juntou uma parte do dinheiro para pagar seu tratamento. Dois anos vivendo a risca as ordens da dama de preto. Promovera orgias e bebedeiras, apostava alto em cavalos e dados. Ficara famoso no meio e vivia rodiado de pessoas que o acompanhavam em suas noites infindáveis. Sua saúde porém não sucumbia às noites infinitas, ressacas horríveis, tosses secas e doenças venéreas eram saboreadas apenas por aqueles ao seu redor.
Os maços chegavam semanalmente pelo correio, sempre sem remetente ou destinatário. Mesmo quando se mudava para uma casa maior os maços continuavam a chegar.

E então ao fim desses dois anos Bill voltou ao hospital. Fez mais uma vez uma bateria de exames, foi espetado em mais lugares que jamais desejara e foi levado a presença do Dr. Verruga.
- O senhor está bem Sr. Malloy...
- Me chame de Bill.
- O senhor está bem, Bill, seu câncer regrediu e se foi. É um homem com sorte fora do normal, Bill.
Bill Malloy se levantou, apertou a mão do doutor e partiu. No caminho de casa pegou um taxi, era dia do strip-pôquer feminino e já estava atrasado.

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