segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Uma Boa Leitura


Alguém esmurra a porta do meu abafado escritório.
- Puta merda! Logo agora que consegui encontrar uma boa leitura. - Reclamo - Entra que tá aberta!
A figura baixa e gorda passa pela porta e logo o cheiro forte de cigarro me acerta.
- Caralho Dave, não aguento mais essa merda de vida! - exclama ele.
- Porra C.J. são quase uma da manhã, como descobriu que eu estava aqui, ou melhor, o que está FAZENDO aqui? - reclamo em vão enquanto abro as janelas para o cigarro que ele acende.
Conheço a rotina da situação. C.J. chega e passa horas reclamando de alguma merda que lhe atingiu. Infelizmente a velha amizade me impede de chutá-lo para fora e mandá-lo se fuder.
-Você sempre vem pra cá tarde quando sua mulher não dá conta do recado e termina sozinho - fala logo ele.
Maldita convivência, desde quando a privacidade entre eu e meu cacete se tornou pública?
- Fala logo o que quer C.J. - reclamo enquanto pego um dos cigarros amassados de minha visita.
- É a Júlia aquela vaca. Sabe que eu a amo mais que aquele otário e ainda assim quer que eu seja amigo dele!
- Você que é o otário. Conhece a mulher a anos e só agora resolve que a ama.
- Sabe que antes não era possível!
- Foda-se, não quero escutar essa história novamente.
- Ainda tem a Carol me enchendo o saco!
- Você ama a Júlia mas não larga da Carol.

Ahh a rotina. as vezes chego a gostar dela. Talvez até sinta falta. Aquele gorducho reclamando e reclamando entre grandes tragadas no cigarro. Aquela boca que abre e fecha enchendo meus ouvidos com toda aquela merda. Como odeio aquela rotina, talvez tanto ódio esteja me deixando apaixonado por ela.
- A Carol é meu quebra galho. Fode bem, mas quando abre a boca fode tudo.
- Então vai lá e fala pra Júlia o quanto a ama.
- Se eu falo uma coisa dessas o saco de merda manda ela parar de me ver.
- E como a amizade é grande... - O cigarro dele é forte, levanto e preparo uma bebida forte para acompanhar.
- Obrigado - ele agradece ao receber seu copo - mas como dizia?
- Dizia que como a amizade é grande, não vale a pena arriscar - retruco entre pequenos goles em meu copo.
- Amizade! Porra, a mulher praticamente acha que sou o irmão mais velho dela! Me liga e pergunta se pode levar o namorado pra me conhecer!
- Uhum.

A bebida desce bem. Talvez porque eu esteja prestando mais atenção nas duas pedras de gelo do que na figura em colapso à minha frente.
- Na minha própria casa Dave! Acredita nisso!?
- E sabemos como as coisas acontecem em sua casa. Um local perfeito para esses casais apaixonados.
- Puta que o pariu! Maldito seja o dia que aquele saco de merda conheceu ela!
- Ele deve trepar bem pra caralho.
- Deve ser! Pra me trocar por ele só se for isso!
- Pois é...
- Quer saber?
- O que é?
C.J. se acalma um pouco, termina o cigarro e a bebida. Joga a bituca no copo e se levanta. O corpo dele de alguma forma me lembra um saco daqueles que usam para guardar batatas.
- Ela que se foda. Não vou mais engolir essa merda toda David. Da próxima vez que a vir vou mandá-la se foder. Aquela vaca - diz C.J. com grande calma misturada em melancolia.
- Que bom.
- Você acha certo?
- Não tenho nada contra.
- Então está bom.
- Então está. Quer aproveitar a noite e sair para um drink?
- Tudo bem.

Coloco o casaco, pego a carteira e chaves. Fecho a porta do escritório e lembro de minha boa leitura ainda aberta sobre a mesa.
- Que se foda, termino depois - resmungo.
Esperamos pelo velho elevador que estala e sobe. Trocamos olhares e esperamos mais. Ele acende um cigarro e a porta do elevador se abre.
- Que tal passar lá em casa daqui a dois dias para papear um pouco e pegar aqueles livros que te indiquei? - falo enquanto entro no elevador.
- Porra, não dá. Júlia vai comprar umas lingeries daqui a dois dias e me pediu para ir opinar. Não perco aquelas pernas por nada.
A porta do elevador se fecha e nos joga noite adentro.

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