segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Talvez Estivessem se Reprodizindo


Eu e Carlos caminhávamos pela rua num daqueles dias em que não há poucas pessoas o bastante para se sentir numa cidade vazia, nem o bastante para se sentir em um formigueiro.
Andávamos sem rumo certo. Não aguentávamos mais permanecer em casa escutando nossas esposas reclamando e nos apontando inúmeros defeitos. Então andávamos apenas.
- Ei Marcos, - disse Carlos - que tal irmos ao Hat's? Eles tem uma ótima cerveja lá.
- Não estou a fim. O Hat's é muito sujo. Não gosto do Hat's.
- Que tal um cinema?
- Que tal sentarmos naqueles bancos e papearmos um pouco? - retruquei.
Sentamos cada um um num daqueles bancos de madeira que sempre me deixavam com o traseiro doendo. Era um parquinho daqueles que eu costumava brincar quando criança. Nessa nova geração se tornara um mero ponto de encontro de adolescentes com suas garrafas de vinho barato, risadas altas, papos sobre como aproveitavam a vida sem pensar no amanhã e seus irritantes retro-metro-bi-homo-sexualismos.
-Ahhh. - resmunguei - Para onde foram as crianças que costumavam se divertir em parquinhos assim?
- E para onde foram as mães gostosas que cuidavam dessas crianças? - resmungou Carlos.
Permanecemos ali algum tempo em silêncio analisando o que tínhamos dito. As risadas continuavam ao fundo. O que havia de tão engraçado em Harry pintar as unhas de preto? Desde quando não ser heterossexual se tornara moda?
- Quer saber? - eu disse - vamos dar o fora daqui.
Levantamos e caminhamos entre aqueles altos prédios de apartamentos. Comprei um cigarro em algum lugar e fumei.
- Já parou para observar esses prédios de apartamentos Marcos?
- Não, por que?
Carlos parou e apontou um prédio com fachada antiga de alvenaria.
- Parecem colmeias - Ele disse.
- Colmeias? Do que está falando?
- Observe.
Ficamos os dois parados na calçada observando a construção. As vezes alguém olhava discretamente na mesma direção. Deviam se perguntar que porra estávamos fazendo ali. Eu olhava a janelas fechadas e abertas. Logo as palavras de Carlos começaram a fazer algum sentido. Aquelas pessoinhas dentro de seus quadradinhos andando, comendo, passando, levantando. As vezes uma nova janela se abria, ou uma fechava. Havia uma fechada com grossas cortinas de pano azul. Imaginei que naquela célula talvez estivessem se reproduzindo.
- Entendo agora o que disse - falei a Carlos.
Carlos afirmou com a cabeça e voltamos a andar.
- Ei Carlos que tal irmos ao Hat's?
- Me parece uma boa idéia.

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Queres sussurar algo ao Pierrot? Vá em frente, mas talvez ele esteja demasiadamente imerso na própria loucura para escutar suas palavras sibiladas...