sábado, 31 de janeiro de 2009

Fios de Prata


Pessoas dizem que a vida é demasiadamente curta, fato intrigante, uma vez que sempre pensei o oposto.

Devido à grande longevidade humana, podemos cometer muitos erros e, conseqüêntemente, precisamos de cada vez mais tempo para repará-los. Vivemos uma política de reparar danos e causar novos. A vida passa e percebemos que já disparamos tantas balas envenenadas que não viveremos o suficiente para desinfetar e suturar todas as feridas.

Menos remorsos teríamos se vivêssemos tanto quanto cães. 14 anos seriam insuficiêntes para tantos erros. Ainda jovens consideraríamos nossas mancadas nada mais que pequeninas turbulências sem importância.

Quanto mais velho, maior o peso dos erros e mais curvados por ele se tornam os homens. Passam a olhar para trás e culpar seus resistentes fios de prata. Amores perdidos, mentiras espalhadas, traições, abandonos. Reclamam de uma vida muito curta quando foi por ela ser longa que foram aflingidos por tantas angústias. Quando foi por ser tão longa que tiveram a oportunidade de cometer tantos equívocos.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Uma Boa Leitura


Alguém esmurra a porta do meu abafado escritório.
- Puta merda! Logo agora que consegui encontrar uma boa leitura. - Reclamo - Entra que tá aberta!
A figura baixa e gorda passa pela porta e logo o cheiro forte de cigarro me acerta.
- Caralho Dave, não aguento mais essa merda de vida! - exclama ele.
- Porra C.J. são quase uma da manhã, como descobriu que eu estava aqui, ou melhor, o que está FAZENDO aqui? - reclamo em vão enquanto abro as janelas para o cigarro que ele acende.
Conheço a rotina da situação. C.J. chega e passa horas reclamando de alguma merda que lhe atingiu. Infelizmente a velha amizade me impede de chutá-lo para fora e mandá-lo se fuder.
-Você sempre vem pra cá tarde quando sua mulher não dá conta do recado e termina sozinho - fala logo ele.
Maldita convivência, desde quando a privacidade entre eu e meu cacete se tornou pública?
- Fala logo o que quer C.J. - reclamo enquanto pego um dos cigarros amassados de minha visita.
- É a Júlia aquela vaca. Sabe que eu a amo mais que aquele otário e ainda assim quer que eu seja amigo dele!
- Você que é o otário. Conhece a mulher a anos e só agora resolve que a ama.
- Sabe que antes não era possível!
- Foda-se, não quero escutar essa história novamente.
- Ainda tem a Carol me enchendo o saco!
- Você ama a Júlia mas não larga da Carol.

Ahh a rotina. as vezes chego a gostar dela. Talvez até sinta falta. Aquele gorducho reclamando e reclamando entre grandes tragadas no cigarro. Aquela boca que abre e fecha enchendo meus ouvidos com toda aquela merda. Como odeio aquela rotina, talvez tanto ódio esteja me deixando apaixonado por ela.
- A Carol é meu quebra galho. Fode bem, mas quando abre a boca fode tudo.
- Então vai lá e fala pra Júlia o quanto a ama.
- Se eu falo uma coisa dessas o saco de merda manda ela parar de me ver.
- E como a amizade é grande... - O cigarro dele é forte, levanto e preparo uma bebida forte para acompanhar.
- Obrigado - ele agradece ao receber seu copo - mas como dizia?
- Dizia que como a amizade é grande, não vale a pena arriscar - retruco entre pequenos goles em meu copo.
- Amizade! Porra, a mulher praticamente acha que sou o irmão mais velho dela! Me liga e pergunta se pode levar o namorado pra me conhecer!
- Uhum.

A bebida desce bem. Talvez porque eu esteja prestando mais atenção nas duas pedras de gelo do que na figura em colapso à minha frente.
- Na minha própria casa Dave! Acredita nisso!?
- E sabemos como as coisas acontecem em sua casa. Um local perfeito para esses casais apaixonados.
- Puta que o pariu! Maldito seja o dia que aquele saco de merda conheceu ela!
- Ele deve trepar bem pra caralho.
- Deve ser! Pra me trocar por ele só se for isso!
- Pois é...
- Quer saber?
- O que é?
C.J. se acalma um pouco, termina o cigarro e a bebida. Joga a bituca no copo e se levanta. O corpo dele de alguma forma me lembra um saco daqueles que usam para guardar batatas.
- Ela que se foda. Não vou mais engolir essa merda toda David. Da próxima vez que a vir vou mandá-la se foder. Aquela vaca - diz C.J. com grande calma misturada em melancolia.
- Que bom.
- Você acha certo?
- Não tenho nada contra.
- Então está bom.
- Então está. Quer aproveitar a noite e sair para um drink?
- Tudo bem.

Coloco o casaco, pego a carteira e chaves. Fecho a porta do escritório e lembro de minha boa leitura ainda aberta sobre a mesa.
- Que se foda, termino depois - resmungo.
Esperamos pelo velho elevador que estala e sobe. Trocamos olhares e esperamos mais. Ele acende um cigarro e a porta do elevador se abre.
- Que tal passar lá em casa daqui a dois dias para papear um pouco e pegar aqueles livros que te indiquei? - falo enquanto entro no elevador.
- Porra, não dá. Júlia vai comprar umas lingeries daqui a dois dias e me pediu para ir opinar. Não perco aquelas pernas por nada.
A porta do elevador se fecha e nos joga noite adentro.

Vá Bater em Outra Porta



O doutor arrumava a papelada na escrivaninha branca enquanto lançava rápidos olhares para o rapaz de 35 anos sentado do outro lado. Parou após alguns minutos, cruzou os dedos sobre a mesa e atirou friamente:
- Você tem câncer Sr. Malloy
- Me chame de Bill.
- Você tem câncer Bill.
Bill recostou na cadeira e se balançou um pouco. Como detestava hospitais. Seus comodos brancos, seus médicos de branco, sua mobília branca e seus pacientes podres e pretos por dentro. Aquele cheiro horrível de desinfetante que usavam para camuflar o odor putrefato exalado por seus visitantes semi-vivos. "São a via expresa para o caixão." Costumava pensar.
O doutor exibia sua roupa impecável como e fosse Deus. Devia se achar Deus, ajudando todos aqueles enfermos, como se não estivesse sendo pago para fazê-lo. Mas o quê irritava Bill naquele momento não eram os corredores brancos, os doutores cheios de si, o cheiro do desinfetante, as filas enormes de pessoas tossindo, ou aquela verruga nojenta no pescoço do velho a sua frente. O quê irritava Bill Malloy era que após uma semana indo àquele necrotério pintado de branco, fazendo exames entediantes e sendo espetado mais vezes do que jamais desejara, a verruga velha à sua frente lhe dissera que tinha câncer. Deveria ter recebido um atestado de saúde perfeita e um prêmio em dinheiro, isso sim faria sentido, imaginou.

- A solução é iniciarmos o tratamento Bill.
- Uhum.
- Como você não tem plano de saúde...
- Tudo bem doutor, já entendi a situação. Volto amanhã para continuarmos e acertarmos os custos.
Bill se levantou, apertou a mão da verruga gorda o mais rapido que conseguiu e logo estava longe dali.
Não voltaria no dia seguinte e não tinha a intenção de voltar nunca mais. Não sabia o preço do tratamento mas sabia que não tinha o bastante. Acendeu um cigarro, o mesmo que fumava a 19 anos, o mesmo que encurtara sua vida em uns 35 anos.

Caminhou até sua casa, subiu as escadas, abriu a porta, tomou banho, trocou de roupa, acendeu outro cigarro, sentou à mesa, começou a ler. Durante meia hora entreteu-se em sua prisão particular. Então a campainha tocou. Bill interrompeu a leitura e atendeu à porta. Era uma mulher. 30 anos ou menos, cabelos longos, pretos, enrolados, boa feição e muita maquiagem. Usava um vestido negro com longa fenda lateral que deixava sua bela e farta perna a vista.
- Não tenho dinheiro para gastar com você queridinha, vá bater em outra porta.
- Entendeu errado sr. Malloy, vim lhe propor um acordo.
- Uhm... - Bill deu outra longa olhada naquela perna e saiu do caminho - entre.
A mulher caminhou e se sentou onde antes Bill lia seu livro.
- Tem alguma coisa para beber Sr. Malloy?
Bill concentiu com a cabeça . Pegou uma garrafa de vinho pela metade e encheu dois copos enquanto ela acendia um cigarro. Serviu um copo à dama e se sentou com o seu logo à frente.
- Sei que está com problemas, Sr. Malloy, e posso ajudá-lo, mas quero algo em troca.
- E o que seria isso?
- Em troca do seu tratamento quero que viva sua vida da forma como eu escolher.
Bill acendeu outro cigarro e ponderou silencioso. Se havia algo que ele odiava era alguem lhe dizendo como deveria viver sua vida, mas no momento não estava melhor que uma mosca na merda e não havia muito que pudesse piorar. Se o acordo fosse bom talvez conseguisse até se deitar com aquelas belas pernas.
- Por enquanto estou ouvindo senhorita.
Ela cruzou as pernas para o outro lado e continuou:
- Quero que leve uma vida de festas Sr. Malloy. Bebedeiras, corridas, apostas, mulheres, orgias. O quero sempre cercado de pessoas que o acompanhem nessas festas.
Bill ponderou novamente. Não parecia de todo mal. Talvez enjoasse dessa vida, mas haviam coisas muito piores.
- Tudo bem, aceito senhorita.
- Explêndido - ela disse se levantando e colocando um largo maço de cédulas na mesa - este é para se virar até o fim da semana Sr. Malloy. Receberá um toda semana para as despesas das festas e variados.
A mulher de belas pernas então passou pela porta e se foi. Bill ficou ali contando o dinheiro, havia bastante para grandes festas durante toda a semana. Ele separou uma parte para seu tratamento e começou a colocar em prática os desejo de sua nova dona.
Durante dois anos Bill juntou uma parte do dinheiro para pagar seu tratamento. Dois anos vivendo a risca as ordens da dama de preto. Promovera orgias e bebedeiras, apostava alto em cavalos e dados. Ficara famoso no meio e vivia rodiado de pessoas que o acompanhavam em suas noites infindáveis. Sua saúde porém não sucumbia às noites infinitas, ressacas horríveis, tosses secas e doenças venéreas eram saboreadas apenas por aqueles ao seu redor.
Os maços chegavam semanalmente pelo correio, sempre sem remetente ou destinatário. Mesmo quando se mudava para uma casa maior os maços continuavam a chegar.

E então ao fim desses dois anos Bill voltou ao hospital. Fez mais uma vez uma bateria de exames, foi espetado em mais lugares que jamais desejara e foi levado a presença do Dr. Verruga.
- O senhor está bem Sr. Malloy...
- Me chame de Bill.
- O senhor está bem, Bill, seu câncer regrediu e se foi. É um homem com sorte fora do normal, Bill.
Bill Malloy se levantou, apertou a mão do doutor e partiu. No caminho de casa pegou um taxi, era dia do strip-pôquer feminino e já estava atrasado.

Infelizes ou Dopados


A droga do rico é o dinheiro, com o qual se entorpece querendo sempre mais. A droga do pobre é a fé, com a qual turva a vista e se anestesia ao sofrimento.

Assim caminhamos em direção ao futuro. De que me interessa ligar meu televisor e assistir a cientistas descrevendo como será o humano em 200 anos? Nem eu ou eles estaremos vivos. Talvez tenham esquecido de avisá-los.

Nos resta viver o presente, que por vezes é irritantemente monótono. Embriagados com sonhos sobre o amor verdadeiro, felicidade plena e paz completa crescem os homens. Sonhos vendidos pela mídia assim como liquidificadores ou aspiradores, mas que tem como alvo qualquer faixa etária. Mercadorias que a sociedade precisa acreditar existir, caso contrário nada haveria além de um bando de potenciais suicidas.

Infelizes ou dopados por sonhos vivem os homens. Se apegando ao material e imaterial. Rezando e adorando o Deus que melhor lhes convém. Levam uma vida apressada, assim lhes falta tempo para pensar na morte. Temem a não existência e invejam seus companheiros animais por desconhecer tal pensamento.

Talvez Estivessem se Reprodizindo


Eu e Carlos caminhávamos pela rua num daqueles dias em que não há poucas pessoas o bastante para se sentir numa cidade vazia, nem o bastante para se sentir em um formigueiro.
Andávamos sem rumo certo. Não aguentávamos mais permanecer em casa escutando nossas esposas reclamando e nos apontando inúmeros defeitos. Então andávamos apenas.
- Ei Marcos, - disse Carlos - que tal irmos ao Hat's? Eles tem uma ótima cerveja lá.
- Não estou a fim. O Hat's é muito sujo. Não gosto do Hat's.
- Que tal um cinema?
- Que tal sentarmos naqueles bancos e papearmos um pouco? - retruquei.
Sentamos cada um um num daqueles bancos de madeira que sempre me deixavam com o traseiro doendo. Era um parquinho daqueles que eu costumava brincar quando criança. Nessa nova geração se tornara um mero ponto de encontro de adolescentes com suas garrafas de vinho barato, risadas altas, papos sobre como aproveitavam a vida sem pensar no amanhã e seus irritantes retro-metro-bi-homo-sexualismos.
-Ahhh. - resmunguei - Para onde foram as crianças que costumavam se divertir em parquinhos assim?
- E para onde foram as mães gostosas que cuidavam dessas crianças? - resmungou Carlos.
Permanecemos ali algum tempo em silêncio analisando o que tínhamos dito. As risadas continuavam ao fundo. O que havia de tão engraçado em Harry pintar as unhas de preto? Desde quando não ser heterossexual se tornara moda?
- Quer saber? - eu disse - vamos dar o fora daqui.
Levantamos e caminhamos entre aqueles altos prédios de apartamentos. Comprei um cigarro em algum lugar e fumei.
- Já parou para observar esses prédios de apartamentos Marcos?
- Não, por que?
Carlos parou e apontou um prédio com fachada antiga de alvenaria.
- Parecem colmeias - Ele disse.
- Colmeias? Do que está falando?
- Observe.
Ficamos os dois parados na calçada observando a construção. As vezes alguém olhava discretamente na mesma direção. Deviam se perguntar que porra estávamos fazendo ali. Eu olhava a janelas fechadas e abertas. Logo as palavras de Carlos começaram a fazer algum sentido. Aquelas pessoinhas dentro de seus quadradinhos andando, comendo, passando, levantando. As vezes uma nova janela se abria, ou uma fechava. Havia uma fechada com grossas cortinas de pano azul. Imaginei que naquela célula talvez estivessem se reproduzindo.
- Entendo agora o que disse - falei a Carlos.
Carlos afirmou com a cabeça e voltamos a andar.
- Ei Carlos que tal irmos ao Hat's?
- Me parece uma boa idéia.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Cento e trinta e dois


As janelas de madeira fechadas deixam o quarto com uma temperatura constante. Assim que abre os olhos um raio de luz lhe fere a vista. Como o maldito conseguira passar pela janela fechada? Não interessa, é tarde e o despertador grita estridentemente. Um tapa e ele se cala. Queria ele que tudo fosse assim...

Camisa. Calça. Sapatos. Motivação. Ele se move apressado. O tempo é pequeno e o caminho longo. Joga um casaco nas costas e sai . Um, dois, três, cento e trinta e dois degraus, memorizou ele. No térreo ele vê a infeliz placa que todos os dias suga seu animo com mórbida frieza. "Elevador em reforma" ri ele melancolicamente.

Ruas, barulho, ruas, gente, ruas, trabalho. O dia se arrasta entre gemidos. Sem força para raciocinar muito, ele permanece completando as tarefas sem ao menos perceber que o faz. Inquieto olha o relógio. Falta muito e parece aumentar. Olha mais uma vez, o tempo não avança.

Caminha de volta. O dia se fora. Não vira o sol e não verá a lua. Cansado demais para lembrar das estrelas ele marcha de volta. Um, dois, três, cento e trinta e dois degraus. Passa pela porta. Camisa. Calça. Sapatos. Se livra do pesado uniforme. As janelas de madeira fechadas mantém uma temperatura constante no quarto. Deita-se e enquanto adormece se pergunta como será seu amanhã.