terça-feira, 10 de novembro de 2009

Mármore


Disse que iria me atrasar e desliguei o telefone. Olhei nossa foto na cabeceira e sorri. Meu doce anjo. Me arrumei com terno e gravata. Ela costumava dizer que eram a minha cara. "Meu bom menino", ela ria. Desci para comprar flores. A loja tinha a própria estufa ao fundo, da entrada se viam os arbustos floridos. O badalar de um pequeno sino me denunciou quando abri a porta. Nina saiu do balcão e preparou um buquê antes que eu pudesse pronunciar qualquer coisa.
-Vai visitar Patrícia hoje Renam? - perguntou com o sorriso habitual ao me ver
-Sim, se fico muito tempo longe ela se sente sozinha. - disse
-Velhos hábitos não se perdem, sempre rosas vermelhas. Você também sente falta de visitá-la, admita. - ela riu enquanto ajeitava minha gravata
-Sim é verdade - disse com largo sorriso
-Queria eu que meu noivo fosse assim, e moro a duas quadras dele.
Ela soltou minha gravata e me deu um tapinha no ombro. Acenou quando saí da loja carregando o buquê. Imaginei ter visto uma mulher de vermelhos cabelos a me sorrir por entre as roseiras.

Os transeuntes me observavam com discretos olhares de curiosidade. Talvez dar flores tivesse saído de moda, talvez um homem de terno a carregar um buquê não não fosse comum de se ver. Me perguntava o por quê.
Um homem atravessou a rua e veio em minha direção. Reconheceria aquele caminhar a mil quilômetros de distância.
-Renam! Meu garoto! - urrou ao me abraçar
Eu sorri e retribuí o abraço com o braço livre.
-Como está Doug?
-Estou bem, mas poderia estar mais rico. - ele riu
-Indo aonde? - disse voltando a caminhar
-Vou para o lado da Torre Velha.
-Quer uma carona? Vou passar por lá, estou apenas indo pegar meu carro.
-Opa claro! E esse buquê é para...?
-Patrícia.
-Há, há, há entendo. Uma vez cavalheiro, para sempre cavalheiro certo?
-Se você diz... - eu ria
Doug era meu melhor amigo desde que me lembrava. O considerava meu irmão. Tínhamos muitas histórias juntos. Vitórias, derrotas, concessões. Eu aos 35 e ele aos 36 anos, nunca havíamos brigado. Sempre chegávamos a um acordo em nossas discussões. Ele esteve presente em grande parte dos acontecimentos de minha vida. Havia conhecido todas as minhas namoradas, inclusive Patrícia, de quem gostara muito na época. Tínhamos códigos de conduta e regras entre nós que poucos entenderiam. Mas como toda regra e código tem de ser moldado conforme a situação, ele estava prestes a invadir uma barreira que tínhamos estabelecido a muito tempo.
Quando dei a partida no carro, imaginei ter visto uma criança de curiosos olhos castanhos a me espreitar através do vidro de uma cafeteria.

O carro avançou pela estrada, ocupantes em mudo silêncio.
-Renam você não acha que está gastando seu tempo demais com a Patrícia?
-Já não conversamos sobre isso Doug? - disse sem tirar os olhos da estrada
-Não é querendo reclamar, mas você sabe que ela nunca poderá te dar o que precisa Renam. Sei que a separação foi difícil, mas você tem de aceitar.
-Eu sei disso Doug, você sabe que sei, por que falar sobre isso?
-Me preocupo com as crianças Renam, sei que esse assunto é delicado e me pediu para não falar nisso, mas o que seus filhos vão pensar? Eles estão crescendo.
-Fique calmo Doug, eu venho pensando nisso a tempos. Já fiz minha escolha.
-Bom, então está certo. Já falei o que tinha de falar, me desculpe por tocar nesse assunto.
-Tudo bem, sei que isso estava entalado na sua garganta a muito tempo.
Pensei ter visto uma senhora de branca pele a chorar em um ponto de ônibus.

Deixei Doug em seu destino e continuei até o meu.

Estacionei o carro e caminhei até a entrada com o buquê em mãos. Poucas árvores faziam contraste ao verde gramado. Balançando sozinhas, chorando folhas ao fraco vento. Fui ao encontro de Patrícia no lugar de sempre. Observei o mármore branco por alguns segundos. Entre todos os outros que se viam a distância, aquele me era tão importante. Abaixei e coloquei as rosas a sua frente. "Patrícia Rodriguez Lemos, doce amiga e amada esposa" li.
-E amada esposa. - repeti

Fiquei ali em pé, parado.

-Não poderei mais te visitar.

As palavras se perderam distantes, levadas pelo vento brando. De mãos nos bolsos esperei alguma resposta. Me lembrei de seus belos cabelos ruivos, sua suave pele branca, seus doces olhos castanhos. Olhei para o céu procurando por um sinal, procurando por qualquer coisa, procurando por mim.
Uma campainha ecoou pelo campo. Procurei a fonte daquele som por algum tempo até a encontrar em meu bolso. O visor do celular piscava com o nome de Lara.

Atendi.

-Alô amor, o Bruno está impaciente aqui. Ele me pediu para te ligar e perguntar se ainda vai atrasar. Espera, ele quer falar com você.
O telefone trocou de mãos e a voz infantil de meu filho me afagou.
-Pai, a mamãe disse que você vai demorar um pouco, mas você ainda vai demorar muito?
-Papai já vai chegar ai, agora deixa eu falar com a mamãe meu anjo.
-Tá bom, mas não esquece meu bolo pai!
O telefone voltou para as mãos de minha esposa que ria.
-Melhor você vir logo amor, ele está ficando sem unhas para roer.
Eu sorri.
-Já vou chegar amor, beijos, te amo.
Desliguei o telefone e o guardei no bolso novamente. Olhei para o mármore e sorri largamente. Estava feliz.
Quando parti, imaginei ter visto Patrícia a me soprar um beijo.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Talvez Culpa


O ventilador gemia e balançava no teto. Richard abriu os olhos devagar. Estava deitado de bermuda perto da cama. Afastou algumas latas de cerveja de seus pés e se sentou à beira do colchão. Olhou ao redor. Alguém havia dormido no sofá, haviam se esquecido de um boné ao lado da TV, havia uma calcinha do lado do abajur. Richard sabia que o quarto de janelas fechadas estava impregnado pelo cheiro de cigarro, mas nada sentia. Tateou a mesa de cabeceira até encontrar o isqueiro e o maço, acendeu um cigarro, esfregou o rosto. Ficou na beira da cama a tentar se lembrar quem era. Deu mais um trago e deixou as cinzas caírem no chão.

Não sabia o peso do próprio corpo até se levantar. A boca amargava como o jornal dia. Abriu a geladeira. Bebeu água, não foi o bastante. Viu uma solitária lata de cerveja. Tentou pegá-la, mas algo o deteu. Talvez culpa.

O chuveiro aliviava a dor nos ombros. Se secou, fez a barba, arrumou o cabelo, trocou a roupa, passou desodorante, escarrou, acendeu outro cigarro.

Pegou um saco e se livrou de todas as latas e bigas espalhadas pela casa. Na mesa, ao lado de uma garrafa de Vodcka vazia havia um cupom. "Ressaca Show, A FESTA!" era o que se lia. Rasgado em cima, um troféu trazido para casa. Atrás um número de celular e uma caligrafia delicada que pedia "Me liga". Richard se sentou na mesa e observou o convite. Se lembrou de ter marcado de ir naquela festa com os amigos. Se lembrou de estar na porta do clube com o grupo. Se lembrou de terem prometido não deixar a noitada até que Carlos conseguisse o número de alguma garota. Se perguntou de quem era aquele número no bilhete, se perguntou para quem era aquele número no bilhete. O guardou na carteira. Acendeu outro cigarro.

Reconheceu um envelope em sobre o televisor. O observou por alguns instantes. Aberto, carta e foto semi-visíveis. Deu uma longa tragada no cigarro antes de pegar a foto. Uma mulher o abraçava por trás sorrindo. Ele tinha uma mão no bolso e a outra se erguia para tirar o cigarro dos lábios. Também sorria com o canto da boca. Recolocou a foto no envelope e passou os olhos pela carta. "Fazemos nossas escolhas" foi tudo que leu antes de guardá-la juntamente da foto. Jogou o envelope no lixo.

Sentado no sofá, apoiado nos joelhos, dedos cruzados, cigarro recém aceso. Tentava descobrir se se ficasse imóvel tempo o bastante vagando em pensamentos, chegaria à algum tipo de revelação ou iluminação. Bateu o cigarro na garrafa de Vodcka e esfregou o rosto. Se levantou e voltou à lixeira. Envelope sujo de cinzas. Fechou o punho e acertou a parede à sua frente. Retirou o envelope do lixo e o guardou em seu armário.

Richard colocou os fones de seu mp4, abriu a geladeira, pegou a última cerveja e a abriu com gosto. Sorriu. Tinha um encontro marcado em um churrasco e já estava atrasado.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Em Seu Nome


O avião finalmente aterrissou. Vitor desembarcou e rumou ao saguão. De barba mal feita e olhos fundos comprou um sanduiche. Tomou o taxi para seu hotel. A paisagem era bela, havia escolhido bem o destino daquelas férias. As palmeiras balançavam ao ritmo do vento, o mar ecoava não muito longe. Vitor ficou a observar as pessoas se banhando enquanto o taxi avançava.
Chegou ao hotel, subiu ao quarto, sentou à janela, avistou o mar. Lembrou do motivo de estar ali. Sentiu como se tivesse esquecido de trazer algo.

Vitor se arrumou e desceu para a praia. Sentou-se na areia, sob a sombra de um coqueiro, enquanto observava e tomava uma água de coco. Uns surfavam, umas tomavam banho de sol, alguns caminhavam e outros construiam castelos de areia. O vento soprou fazendo com que a sombra lhe fugisse. Desejou que a esposa e filhos estivessem ali. Uma onda estourou e desfez os castelos erguidos com tanto trabalho.

Quando o sol caiu e todos se abrigaram dos ventos gélidos, Vitor ficou a observar o vermelho que tingia o céu. No topo da duna, o vento soprava forte em suas costas. Tirara a camisa, queria sentir o frio. Lembrou da noite do acidente. Lembrou de sua esposa e filhos caídos. Lembrou de voltar a si tarde demais.

O rubro se foi do céu e de sua mente, dando lugar à escuridão que lhes era habitual, céu sem estrelas. O vento continuou a soprar quando Vitor se foi, o mar não estourou em seu nome uma única vez, nenhuma palmeira o observou enquanto partia.

De volta ao quarto, entrou no chuveiro. A areia escorria da pele e do cabelo. Deixou as mãos sob a água corrente. Queria lavar a culpa entre os dedos. Se tivesse voltado a si um pouco antes eles ainda estariam ali, pensou. Abriu a mala e pegou a roupa de dormir. Via a pasta ao lado das camisas, dentro dela havia um documento oficial. Carimbos, assinaturas e um grande "Homicídio culposo, réu absolvido por falta de provas." em negrito. Cobriu a pasta com uma camisa e fechou a maleta. Trocou-se, deitou, não dormiu.

Tinha medo de reviver o dia do acidente.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

The End

Eis que o circo se levanta e segue seu rumo... Me entristece a alegria em lhes avisar sobre o novo paradeiro de meu, agora nosso, palco. Meus atos no picadeiro agora serão em rítmica dupla com Mário Lourenço em nossa Instável Letargia . Àqueles que ficam uma bexiga colorida, àqueles que vão um algodão-podre.

Com a delicadeza de uma lágrima,

O Pierrot.

Epitáfio para um banqueiro

Negócio
...ego
......ócio
........cio
...........0

José Paulo Paes
Que ele um dia possa perdoar a ofensa de Mário Lourenço...

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Insurreição


Libido vicioso,
que nos assusta e intimida.
Que desejo curioso.

Nenhum homem nessa vida
é por completo imune
à curta saia colorida.

Vontade que o torna infame,
confuso e sem nexo.
Pro diabo, que se dane,
desinibamos o sexo!

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Poeminha para Ane


Uma vez conhecida
impossível não querer te ter
menina de vida corrida.

Triste o não poder
te alcançar
e teus lábios tocar,
para me aquecer.

Então havemos de esperar
com toda precaução
para não mais nos afastar.

E agora com educação
lhe peço muito esperançoso,
prometa que não
irá largar de mão
esse poeminha engenhoso.

Qualquer ferida


O tempo cura qualquer ferida,
disse a menina
pouco vivida.

Com meia três quartos.
Um quarto de obrigação
e três de olhares devassos.

Bebendo escondida,
para ficar alegre,
alegria dos meninos.
Quer ficar desinibida,
e toma uma,
e toma mais outra,
e termina desiludida.

E rebelde ela grita,
em plenos pulmões,
que é introvertida.

Poema sobre a relva


Para ela que se foi
um momento
que se deixou para depois.

Todo nosso acalento
naquela noite simpática
em carinho sonolento.

Uma menina carismática
me vendeu um sonho
que nunca coloquei em prática.

E então quando me ponho
sobre relva macia, lembro
que de pouco tempo disponho.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Pique-Esconde

Renata se sentou à escrivaninha, pegou um lápis e observou o papel. A lâmpada estava fraca, mas ela se sentia melhor com pouca luz, a fazia se sentir oculta. Escutava Legião Urbana, Eduardo e Mônica era a música. Acendeu um cigarro e se debruçou sobre a folha.

"Meu nome é Renata Costa Santiago, minha vida se resume nos acontecimentos que preferi lembrar de esquecer.

A primeira das coisas que esqueci foi meu amor. Não lembro o nome dele nem quando foi. Prefiro não saber que ainda sei a data exata daquele dia, prefiro não saber que ainda lembro o gosto dos beijos, o perfume de seu corpo, o acalento de seus sorrisos, a paixão ao fazer amor. Prefiro não lembrar que o perdi por erros tolos da juventude. Não me lembro mais quando ele se foi, nem me lembro das lágrimas derramadas em noites de insônia. Escolhi fugir covardemente, pois lembrar uma única vez mais me tiraria a única paz que restou. A silênciosa paz da solidão.

Também esqueci meus amigos. Não lembro do rosto de minha mãe quando tive minha primeira vitória na vida. Não sei a força dos abraços de meu pai. O nome de meu melhor amigo, com quem convivi anos a fio, me é distante. Minha melhor amiga, não me lembro de como a amava como à uma irmãzinha. Prefiro não lembrar. Não lembrar de como os deixei se esvair por entre meus dedos sujos de nicotina. Não lembrar de ter me afastado, alegando que não queria que me vissem definhar em minha tristeza.

Não me lembro de meus namorados ou de como nunca entreguei meu coração a nenhum deles. Não me lembro de como nunca me deixei apaixonar por saber que não os amaria, ou de como sempre os fazia acreditar que que sofria ao perdê-los, apenas para que não descobrissem nunca terem sido capazes de aquecer meu coração. Nenhum pôde fechar o corte deixado por meu amor.

Não queria eu lembrar quando meus dias se tornaram tão iguais. Então apenas esqueci. Esqueci o dia em que o doutor me disse que eu estava doente. Esqueci o tenho. Prefiro não lembrar. Gosto de acreditar que tenho síndrome de solidão.

Fugitiva de mim, em um pique-esconde de memórias. Uma brincadeira de mal-gosto entre minhas lembranças e meu coração. Escondendo um do outro em gincana interminável. Enfim perdido entre eles.

Cançasso, me lembro do cançasso. Talvez seja tudo que me lembro.

Muitos seguem em frente, mas eu não consegui. Terminei por me conformar em patética covardia. Admito não ter sido forte o bastante. Não consegui superar minhas lembranças.

Não me digo arrependida, pois sabia as consequências de minha escolha, apenas gostaria de ter sido um pouco mais corajosa. Gostaria de ter sido um daqueles exemplos de superação que se vê na tv.

Estou cansada, termino minha carta aqui. Talvez consiga dormir um pouco, quero tanto poder finalmente lembrar de tudo que tive de esquecer..."

Renata terminou a carta e se sentou a beirada da cama. Outro cigarro no lado da boca. A lâmpada piscou e apagou, devolvendo ao quarto sua falta de iluminação habitual.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Sim Estou

Brian Gigs balançava o lápis de um lado a outro. Palma segurando o queixo. Pêndulo silêncioso, pensamento centrado. Escrevia uma declaração para a namorada. Queria impressioná-la, então tomava cuidado a cada palavra. Tinha de ser perfeito, tinha de ser... perfeito.

O telefone tocou na borda da mesa. Não desviou o olhar. Desapoiou o queixo e atendeu enquanto pensava em algo que rimasse com sorriso. Reconheceu a voz feminina.

- Vou me matar! - Disse a voz do outro lado do aparelho.

Um "foda-se" lhe passou pela cabeça, mas preferiu o silêncio. Pretendia desligar o mais rápido possível, mas não era de seu feitio ofender as mulheres. "Conciso", ele pensou, rimava com sorriso. Construiu uma bela sentença e voltou a pensar. Telefone apoiado no ombro.
A voz feminina continuou:

- Não tá dando mais para mim... todos me deixaram para tráz, nem minha família me suporta mais. Você está ai?

Relutou um pouco se devia responder. Talvez se ficasse mudo ela imaginasse que não haviam atendido. Não soube ao certo porquê respondeu.

- Sim estou.
- Tomei várias pílulas já... mais algumas e me vou...

Brian colocou o telefone sobre a mesa, esfregou os olhos. Olhou o relógio no pulso, eram quase uma da manhã. Já estava tendo dificuldades o suficiente para escrever aquilo, realmente não lhe agradava a idéia de alguém lhe atrapalhando. Pegou o telefone e recolocou no ouvido.

- ...endo e então não sei mais o que fazer. Você sempre foi tão gentil comigo, sempre tentou me fazer sentir bem...
- Uhum.

Olhou a declaração sobre a mesa. Alguns rabiscos na borda do papel, palavras que pretendia usar no texto. Achou uma agradável, "inevitável". Pensou em uma frase. Talvez algo como "inevitável chegar a esse ponto" ficasse bom. Escreveu. A voz chiava no telefone, sons corriam pelo fio e eram lançados diretamente em seu ouvido. Ele falou:

- Escute mylady, por pior que as coisas fiquem, nunca vou achar o suicídio a melhor saída. Não que eu esteja dizendo que sua vida esteja maravilhosa... não acredito que esteja sequer perto disso, mas procurar em mim um apoio para essa idéia é bobeira.
- Não quero seu apoio nisso... não preciso dele...
- Então por que me ligou? Por que não ligou para seu namorado? Para alguém mais próximo de você? Por que ligar para um ex-namorado que não vê a tempos? O ex-namorado que você traiu.

Lágrimas despencaram do outro lado do fio. A ponta do lápis estava quase no fim. Gigs pegou um apontador e o apontou. Não gostava de lapiseiras, preferia o antigo lápis. Pensou em mais uma frase romântica e a escreveu. Um pouco de romantismo e perdão caíram bem no contexto.

- Acho melhor você desistir dessa idéia. - ele disse ao terminar de escrever mais uma linha.
- Não... não me sobrou nada... não tenho ninguém... todos se foram.
- Eu nunca me fui... engraçado não? Logo o que te tratou melhor, o que você traiu. Eu nunca te abandonei.
- ...
- Vou pegar um café. Espera.

A chaleira apitava na cozinha. Brian afastou a cadeira e se levantou. Colocou os óculos e caminhou até aquele assobio. Preparou um café amargo, gostava assim. Misturou um pouco de leite e voltou à mesa da sala. Se sentou. Observou sua declaração, escrita com tanto amor. Observou o telefone, fora do gancho, talvez uma última ligação.

- Oi? - falou baixinho ao recolocar o aparelho no ombro.

Não houve resposta. Escutou uma televisão ligada ao fundo. Passos se aproximaram.

- Desculpe, estava vomitando.

A voz dela era leve e calma, por um momento ele sentiu a tristeza dela.

- Já desistiu da idéia?
- ........ não achei q você fosse ser tão frio comigo. Esperei que você fosse ser diferente. Sempre me tratou com tanto carinho...
- Desistiu ou não?

Brian escutou um sim baixinho. Sem forças. Sem vontade de lutar.

- Você ainda mora no mesmo lugar não é?
- Sim.
- Então vou ai te dar uma bronca... não saia de casa.

Ele desligou o telefone. Escreveu a última linha de sua declaração e a deixou sobre a mesa. Amor em cada palavra, sentimento em cada linha. Sabia que teria de cuidar daquela ex-namorada, era provável que passasse muito mal depois de ter tomado tantos medicamentos. Seria perigoso deixá-la sozinha. Sabia que ela iria tentar o seduzir. Sabia que teria de se desvencilhar dela. Sabia que seria um longo caminho até lá. Sabia de muitos detalhes que viriam, mas não conseguia entender o por quê de estar indo. Deu uma última olhada na folha sobre a mesa.

"As vezes o telefone toca e imagino se será você.
Se terá boas notícias para me contar.
Só para mim.
Imagino se quando se deita pensa em mim.
Como penso em você.
Imagino se seu coração aperta como o meu,
quando não posso te ter por muito tempo.
Teu sorriso, tão conciso me lembra,
como é bom te fazer feliz.
Inevitável não chegar a esse ponto.
Inevitável não querer que me deixe te amar.
Me perdoe por querer ser mais do que sou.
Por querer ser melhor do que posso ser.
Mas me deixe tentar por você."

Brian achou entender o por quê. Pegou o casaco e saiu pela chuva.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

100% de Chances


Ele olhou o espelho à sua frente. Respirou com desgosto. Uma face suja pela barba. Os olhos remetiam a fundos poços, secos e vazios a tempos. Tinha os lábios às cascas como cobra em muda. Puxou o espelho, abrindo o pequeno armário atrás dele. Escovas, pastas, fios-dentais, pílulas. Agarrou o pequeno e azulado pote de pílulas, sentou-se à privada enquanto lia o rótulo. Continha 0,75% de alguma coisa, 0,3% de outra e 100% de chances de amanhecer num caixão.

Fechou os olhos. Deixou o corpo cair para trás.

Os frios azulejos lhe mitigavam as costas. Gélido sentimento colado à espinha, resfriada carne pulsante. Lembravam-no das perdas. Calafrios que acompanham o lance dos dados da morte.
O chuveiro pingava. Cada gota que estourava no chão lhe molhava mais um pouco os pés. A cada gota sentia uma onda do mar matinal resfriando suas ásperas palmas. Como eram boas aquelas golfadas geladas.
Uma pequena fresta no basculante fazia com que o vento assobiasse ao entrar. Ele escutava uma música calma, paixão em cada nota. Uma bela dama dançava em coreografia estrangeira. Longas vestes esvoaçando. Movendo as mãos de forma hipnótica, ela encantava seus cansados olhos.
A velha toalha lhe tocava o ombro. Repousando como uma mão colocada sobre um ombro preocupado, ela insistia em aquecê-lo. Um sorriso entre lágrimas. Nutrindo, protegendo. Mãe ao abraçar o pequeno e inseguro filho.

Ali ficou ele, nova peça na pintura. Azulejos, pensamentos, gotas, estouros, correntes de ar, assobios, pedaços de algodão, toques... o banheiro permaneceu indiferente ao corpo recostado ali.

Abriu os olhos.

A mão segurava firme o vidro azul ainda fechado. 100% de chance... pensou ele. Tirou a tampa com um polegar. Ela fez um barulho oco e girou no chão. Ele se levantou, olhou novamente seu reflexo no espelho. Colocou o pote aberto no canto da pia. Fez a barba. Passou cacau nos lábios. Dormiu um pouco. Ao se levantar, voltou ao banheiro e se vestiu. Terno, gravata, sapatos engraxados. Colocou as pílulas do pote azulado no bolso e saiu.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Ela Estava Ali



Ele se sentava no canto da sala, tentava estudar, o televisor falava alto. Ela ia ao quarto, sentava à beira da janela, a briga na sala ia alta. Ele corria ao longo do dia. Colégios, cursos, sociais, problemas e soluções. O dia dela ia atrapalhado. Namorados, família, brigas, futuro, preocupações e decisões.

Em suas folgas ele gostava de sair com os amigos, que entre piadas internas e sorrisos conhecidos o embriagavam de alegria. Sequer pensava na enorme dor que viria ao retomar o cotidiano. Não era adepto das festas bagunçadas e barulhentas, porém, jamais recusava uma quando convidado. Então ele ria e se divertia, aproveitando em muito aquele curto pedaço de tempo.
Ela gostava das festas. Uma assídua visitante de ambientes fechados; onde a fumaça ia espessa e os risos vinham altos. Sentava rindo, enquanto suas amigas se divertiam instigando rapazes. Gostava daquela agitação, mas nunca em exagero. Saía sempre acompanhada. Poucas vezes progamava algo, costumava ir onde fosse levada. Bastava estar com alguém.

E nesse dia-a-dia pensamentas se esbarravam, olhares se cruzavam, momentos eram divididos. Sem nunca parar para se conhecer eles seguiam. Ele subia escadas apressado e ela descia por corrimões polidos. Ele corria, ela ria. Tentavam esquecer as obrigações. Cada qual a seu modo, cada um a seu estilo.

Quando a noite caía e ele chegava em casa, repousava os livros sobre a mesa e se jogava sobre o sofá. Dali via a janela. O mar quebrava perto, a cortina balançava, deixando o cômodo se iluminar com a luz da lua alta. Imaginava se alguém ainda observava aquela lua. Talvez ninguém mais soubesse que ela estava ali.

Assim que a noite terminava e ela voltava para o lar, tomava uma ducha e se deitava. No teto do quarto, balançava uma lua de brinquedo. Observando aquele brilhante enfeite, imaginava a original lá fora, que sempre vinha, iluminando a noite daqueles que ainda procuravam por ela.

E ao fechar os olhos, pensavam um no outro, esperando um dia finalmente se conhecerem.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Ninguém Mais


Carlos perdera contato com Daniella há muito tempo, desde que haviam rompido o namoro. Ele não pensava mais nela, não sabia se ela ainda pensava nele, preferia não saber. A relação deles acabara da forma errada. Uma botão de rosa esmagado pelos pés de um garoto travesso.  Havia muito que não se viam, não se lembrava mais quanto tempo tinha. 

Mas naquele dia Carlos viu Daniella novamente. Estavam a passar férias no mesmo hotel-fazenda. Quando a avistou pela primeira vez, não acreditou, achou que seus olhos o pregavam uma peça. Ela olhou para o lado e sorriu para alguém. Ninguém mais possuía aquele sorriso, ninguém mais sabia sorrir como ela. Ele podia ouvir o próprio coração a bater, calafrios silenciosos. De onde vinha aquele calor insuportável? Ela vinha na direção dele, sabia que ele estava ali? Estaria acompanhada? 

Alguém chamou Carlos. Ele olhou. Um amigo movia os lábios dizendo alguma coisa. Levantaram-se e partiram de volta para seus quartos. Ela passara por ele, teria notado-o ali? 

Carlos sentou na beirada da cama. Pensou um pouco. Tomou banho, se vestiu e saiu novamente. Haveria uma pequena festa no hotel. Uma banda tocava, pessoas dançavam, algumas sentadas comiam. Ela avistou Daniella a conversar com alguém. Seu longo vestido azul quase tocava o chão, mas deixava as sandálias em seus pés à vista. O negro cabelo encaracolado ia até o ombro. Ela o viu. Ele sorriu, foi a vez dela ficar surpresa. Aproximaram-se, conversaram. Ele a fez sorrir como fazia no passado, ela retribuiu, não haviam mudado nada. Quando a festa terminou, foram para seus cômodos. Durante toda a semana saíram. Ele lembrou o quanto a amara, lembrou o quanto a tentara esquecer, lembrou como nunca conseguira. Ela o estava conquistando novamente, não fazia nada além de ser ela mesma. Carlos sabia que Daniella também não era indiferente a ele. A cada dia o sorriso dela se tornava mais bonito, cada vez mais envolvente, mais sereno. E como duas crianças a jogar queimado, eles se relacionavam. Alegres, saudosos, felizes, esperando um que o outro se movesse primeiro.

No último dia no hotel, Carlos e Daniella saíram para passear. Ela sentou-se a beira de um lago e ele ficou a jogar pedras na água. Ficaram assim por alguns minutos, calados. Carlos então se sentou ao seu lado e a observou. Olhar distante, pensava em mais coisas do que ele poderia tentar imaginar. Ele tocou-lhe os cabelos. Ela olhou-o. Ele se aproximou para beijá-la...

Carlos acordou. Sentou-se ao lado da cama e ficou em silêncio. Teria sido sonho ou pesadelo? Quanto tempo fazia que não a via? Não se lembrava mais, preferia não lembrar. Não sabia se ela ainda pensava nele, preferia não saber. Sabia apenas que desde aquele dia não sonhara mais. Ficou ali, travesseiro sobre as pernas, mudo.

domingo, 29 de março de 2009

Avisava o Aparelho


Sabrina dormia profundamente em seu apartamento. O despertador gritou. Ela se levantou e o desligou. Sentou na beirada da cama, 6:01 avisava o aparelho. A mesma hora de sempre. Levantou-se e caminhou tateando até o banheiro. A banheira enchia com água morna enquanto ela escovava os dentes. Banheira cheia, a água estava agradável, era como sonhar acordada. Repousou a cabeça na borda e fechou os olhos. 6:35 avisava o aparelho, mastigava um pão e tomava um copo de café do dia anterior. Quando terminou, se vestiu, pegou a bolsa jogada em um canto e saiu. 7:00 avisava o aparelho.

Dois lances de escada, o elevador estava muito longe do andar dela. Caminou três quarteirões, atravessou o parque, chegou a seu trabalho. 8:33 avisava o aparelho. Subiu pelo elevador, entrou em sua sala, sentou-se à mesa. Pilhas de formulários, ligações a fazer, pessoas a aturar, nenhum tempo para desperdiçar. 8:41 avisava o aparelho.

Assinar, ligar, falar, desligar, assinar, ligar, falar, desligar... uma máquina em total potência. tic-tac-tic-tac, o ritmo acelerava, o coração bombeava sangue para o corpo, o cérebro mandava ordens aos membros, a mão se movia para assinar, a língua moldava o som das palavras para convencer, o ouvido decodificava as reclamações. 9:20 avisava o aparelho. Uma pausa, um momento para pensar? Não, o café é tomado enquanto tenta convencer o chefe a lhe dar uma promoção, o lanche ela faz convencendo os colegas de que é uma boa pessoa. Risadas. Quem riu? Sabrina não sabe. 12:50 avisa o paparelho.

Uma pilha diminui, a outra cresce. Um, dois. O chefe chama por Sabrina. Quem é Sabrina? Ela se lembra. Esse é seu nome. Levanta e vai até a sala do chefe. Ele lhe diz algo sobre a promoção não ser possível devido a um recente reajuste. Ela não liga, tem muito a fazer e nenhum tempo para desperdiçar, não há tempo para pensar. A máquina está ligada, as engrenagens giram e produzem riqueza. Impressoras de dinheiro. Sabrina vê apenas o papel sem tinta. 17:40 avisa o aparelho.

17:57. 17:58. 17:59. 18:00. Ela solta a caneta, recoloca o telefone no gancho e afasta os papéis. Levanta, pega sua bolsa, sai apressada. Desce pelo elevador. Tantos rostos como o dela, nenhum conhecido. Rostos de marfim. Nenhuma expressão, nenhuma dor, nenhum medo, nenhuma alegia, nenhum desespero. Marfim. Sai do prédio... 18:05 avisava o aparelho.

Sabrina abre a porta de casa com pressa. Ao entrar lança a bolsa em algum canto e se senta em uma de suas poltronas. Relaxa. Fecha os olhos e respira fundo, sente o frio da noite que se aproxima. Frio como aço. Ela se levanta, coloca a banheira para encher enquanto prepara um café. Banheira cheia, a água está agradável, era um sonho acordado. Ela repousa a cabeça na borda e fecha os olhos. 19:12 avisava o aparelho.

Jantou, assistiu um pouco de televisão, leu um livro na cama e finalmente se deitou. Sonhou com sua infância. 00:00 avisava o aparelho

Uma Caixa de Charutos


Glauco estava sentado no topo da colina ao pé de uma árvore seca. O sino tocava distante, um triste som para uma triste visão. Falecera Paulo, seu melhor amigo. O cortejo vinha lento, quase arrastado. O caixão parecia pesar muito mais do que uma pessoa podia aguentar, por isso haviam tantas ajudando a carregar, pensava Glauco.

O sol subia no horizonte, lento, tímido, cansado. A colina não tinha muitas árvores, Glauco lembrava da cidade toda vez que observava aquela colina. Assim como haviam poucas árvores ali, também não eram muitas as amizades enraizadas que ele possuía na cidade. Uma árvore uma amizade, uma folha um sentimento, um fruto um sonho. Paulo e ele haviam crescido juntos, era a única pessoa para quem contava seus amores, suas folhas e seus frutos.

O choro era alto, podia ouvir os gemidos mesmo de tão longe. Tentava entender porque tantas pessoas que mal o conheciam choravam tanto. Tentava entender porque não chorava como elas. Conhece-lo tão bem o fizera indiferente à sua morte? Não, não era isso. Sabia que não era. Mas então por que? O som do sino e as vozes tristes eram como uma maré vermelha, tudo parecia tão morto, tantas folhas despencavam das árvores a cada badalada, tantos frutos secavam com o sal de cada lágrima.

Ele foi sepultado no pé da colina, local onde sempre brincava quando criança, seu local secreto. Vários de seus pequenos tesouros haviam sido encontrados em uma caixa de charutos quando cavavam a sepultura. Havia o jogo de botões que ele tanto gostara quando criança, um carrinho vermelho, 3 soldadinhos de chumbo e uma foto muito antiga de sua avó. A caixa, com exceção da foto, fora dada a Glauco e agora repousava aberta a seu lado na colina.

Quando o enterro terminou e todos se foram, veio o coveiro tapar o fundo buraco. Glauco se levantou, pegou a caixa de charutos e desceu até a sepultura. Ao chegar lá, posicionou a caixa sobre o caixão. Desejou que a foto da avó dele ainda estivesse dentro. Quando o coveiro terminou, Glauco lembrou de como Paulo fora um bom amigo, sorriu com um pouco de nostalgia ao lembrar do dia em que enterarra aquela caixa com ele.

O sol ia alto, iluminando uma solitária folha na árvore seca do topo da colina.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

O Homem


Eu morava em uma casa de praia. Não haviam muitos que chamasse de amigo, em fato não me lembro de qualquer um. Certo dia estava a arrastar meu carro de compras, cheio de inutilidades que o televisor me mandara comprar, pelos labirínticos corredores do supermercado. Encontrei então uma seção diferente. Havia uma grande e decorada embalagem. Dentro dela estava o homem. Boa aparência, parecia ser amigável.
- Agora eles também vendem pessoas no supermercado? - me perguntei ao analisar o pacote.
- Ao menos o preço é bom - respondeu o homem.
Realmente, 60 pratas era um preço muito atraente.
- Que bom. Onde é a seção das versões femininas?
- Infelizmente estão em falta. Como pode ver, sou o único que sobrou.
Relutei um pouco mas acabei cedendo.
- Tudo bem, fico com você mesmo. Por 60 pratas levaria até uma sogra.
Coloquei-o no carrinho. Era pesado. Conversamos um pouco até o caixa. Era um homem divertido e espontâneo, seria bom para me fazer um pouco de companhia. Quando chegou o momento de pagar, a atendente sorriu. Disse que eu tivera sorte, pois aquele era o último. Afirmou achá-lo belíssimo. Ele agradeceu. Perguntei se ela sabia de onde eles vinham. Me respondeu não ter certeza, supôs que viessem de algum local na Europa.
Coloquei meus produtos de natureza inútil na mala do carro e meu novo companheiro no banco traseiro.

Assim que cheguei em casa, posicionei o pacote na sala e o abri.
- Você vem com algum tipo de manual?
- Não. Para todos os aspectos sou um humano normal.
- Que bom.
Realmente não havia qualquer instrução na caixa. Nenhuma marca, nome ou data de validade.
- Têns uma bela casa.
Ele observava o cômodo. A sala era grande. Armários, estantes, um belo tapete, sofá, televisor, som, quadros. Havia uma vidraça de correr que dava acesso à varanda, de onde era possível observar a práia sentado em uma das confortáveis cadeiras.
- Obrigado.
- Uma bela casa, mas parece tão vazia...
- Não costumo ter muitas visitas.
- Percebe-se.
Sentei-me em uma das poltronas da sala. O vento do mar vinha gentil pela vidraça entre-aberta. Golfadas de ar longas e refrescantes. O homem sentou-se em outra poltrona. Conversamos. Ele tinha amplos conhecimentos, sabia de política, literatura, filmes, geografia. Era um homem muito agradável. Me perguntou se já dera alguma festa naquela bela casa. Eu nunca realizara qualquer evento ali. Ele então disse que se eu o permitisse, em 2 dias prepararia uma grande e animada festa. Me assegurou ser uma boa tática para aumentar meu círculo de relações. Consenti com relutância, daria uma chance a ele.
O homem ligou para meus companheiros de trabalho, vizinhos e ex-namoradas. Era bom com as palavras. Disparava convites como se os números do telefone fossem balas no tambor de um revólver. A meus colegas de trabalho relatava ser uma boa ocasião para debater sobre a atual situação da empresa. Aos vizinhos afirmava ser um evento para garantir uma política de boa vizinhança. Às ex-namoradas dizia ser uma oportunidade para reatar a amizade que se perdera com o tempo. Quase todos compareceram. Fiz ali, muitos dos contatos que mais tarde se tornariam grandes amizades.
O homem sempre me incentivava a ir além. Mandava sair, conversar, participar de festas e eventos. Mas ele nunca deixava a casa. Costumava ficar sentado na poltrona, escutando música e observando os solitários coqueiros balançando com o vento. Às vezes eu pedia que me acompanhasse, mas ele recusava sempre. Imaginei que tivesse sido feito assim, então nunca o pressionava. Seu cômodo preferido era sem dúvida a sala, onde os ventos marinhos vinham sempre lamber-lhe a face.

Após alguns meses eu havia criado fortes amizades e achava estar apaixonado por uma de minhas colegas. Mary, era como eu a chamava, um diminutivo para Mariana. Pequenina e doce.
Um dia enquanto eu cantarolava pela sala, o homem me perguntou:
- Porque não a chama para jantar?
- Quem?
- A mulher pela qual está caindo de amores.
- Como sabes?
- Ora... se todos cantassem tanto quanto você nos últimos dias, a vida seria um musical.
Ri. No dia seguinte convidei Mary para jantar. Ela aceitou. Ainda me lembro daquela noite. Fomos a um bom restaurante. Estava linda em seu vestido azul escuro. Seu cabelo brilhava como se fosse seda. Seus lábios se moviam e me mordiscavam a imaginação. Conversamos sobre muitas coisas. Ela era inteligente, meiga e belíssima. Eu estava encantado.
Uma semana depois, Mary e eu saímos. Escolhemos uma lagoa. Rimos como jovens novamente. Deitados na relva nos beijamos pela primeira vez. Ao fim do dia ela decidiu passar a noite em minha casa. Consenti. Quando chegamos não vi o homem. Subimos ao quarto e atravessamos a noite juntos.

(Final 1: Conto Branco)

Quando o sol raiou, desci e preparei o café para a bela mulher ainda adormecida em minha cama. Notei então que o homem não estava na sala. Procurei-o em vão. Quando sentei-me na poltrona para pensar sobre o inusitado desaparecimento, notei, imóvel, na outra poltrona, um grande espelho de bordas decoradas. Lá estava ele a me observar.

Pendurei o espelho na parede e olhei uma última vez o homem refletido.

Mary sorriu quando entrei com o café.

(Final 2: Conto Negro)

Quando o sol raiou, desci e preparei o café para a bela mulher ainda adormecida em minha cama. Notei então que o homem não estava na sala. Procurei-o em vão. Quando sentei-me na poltrona para pensar sobre o inusitado desaparecimento, notei, imóvel, na outra poltrona, um grande espelho de bordas decoradas. Lá estava ele a me observar. O homem que durante meses havia me dito o que fazer. Uma reação desesperada de minha mente solitária.

Pendurei o espelho em um espaço vazio na parede e olhei-o mais uma vez. Ele sorriu com ironia.

O som das ondas abafou uma gargalhada.

...

Estejam à vontade para imaginar qual terá sido o final original, assim como o ângulo de visão dos fatos por trás de cada um.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Passagens Para a Lua



Chriss Carvell correu para o quarto, pegou uma velha mala, a abriu sobre a cama e começou a lançar roupas. Olhou o relógio de pulso. Tinha uma hora até que Amanda voltasse da escola com as duas filhas. Suas filhas.
Pegou apenas o necessário. Calças, camisas, cuecas, meias, documentos e suas economias. Não dobrou ou arrumou, apenas lançava tudo aquilo na mala. Quando imaginou já ter o bastante, a fechou. Seus olhos fitaram a fotografia sobre o criado-mudo. Uma foto tirada a alguns anos durante uma viagem da família. Lá estava ele, agachado, segurava pela cintura Cindy, que a pouco aprendera a andar. Ao seu lado estavam Danielle, sua outra filha, e Amanda, sua esposa. Todos sorriam felizes. Era uma foto antiga. Colocou-a no bolso.
Levantou a mala e saiu da casa. As flores do jardim eram belas e bem cuidadas. Talvez se não tivesse dado tanta importância àquele maldito jardim, como a tantas outras coisas, não precisasse ir. Observou o balanço amarrado em um alto galho da mangueira. O colocara ali quando Danielle fizera 10 anos. Quantas vezes a balançara e brincara. Seus risos infantis ainda ecoavam quando o vento fazia farfalhar as folhas secas no chão.
Deu alguns passos e parou. Secou na manga amarrotada as lágrimas que lhe escorriam. Respirou fundo e continuou a passos determinados. Tinha de partir. Se ficasse acabaria magoando ainda mais a todos. Quando chegou ao portão, deu uma última olhada para trás. Cindy esquecera a janela de seu quarto aberta. As cortinas brancas esvoaçavam para fora. Estavam lhe dando adeus.

Sentado no ponto de ônibus, Chriss observava mudo as pessoas ao seu redor. Se perguntava por que pareciam tão calmas com suas vidas. Queria levantar e perguntar a alguém:
- Desculpe minha intromissão, mas por que diabos você está com esse sorriso imbecil na cara? O que há de tão engraçado?!
Talvez até a segurasse pela camisa e desse alguns tapas antes de fazer a pergunta em si.
Voltou à realidade, ser preso não era uma boa opção, não tão perto de casa.
Sua condução chegou. Ele subiu e se sentou atrás. Duas cadeiras a frente havia um jovem casal. Eles sussurravam palavras melosas e clichês de novela. Cada beijo estalava um tapa na orelha de Chriss. Tinha nojo desses casaizinhos atuais e seus relacionamentos de uma semana. Vomitando palavras românticas, pareciam comprar amores na seção de balas.
Imaginava como seria a cena se vivesse em um mundo onde todos dizem a verdade.
Se sentaria atrás deles, colocaria uma mão sobre o ombro de cada um e diria:
- Bravo! Adorei as palavras doces meu rapaz, mas ficam melhor quando ditas pelo ator que fez esse papel. Quanto a você minha querida, acredite nessa conversa enquanto pode, porque daqui a alguns anos vai estar preparando a janta enquanto seu amado esposo trepa com a colega de trabalho.
- E a melhor parte é que não sentirei qualquer remorso - diria o rapaz.
- Isso mesmo. Ele sequer sentirá remorso. Isso, é claro, se até semana que vem ele não encontrar pretexto para brigar e te trocar por sua melhor amiga.
- O número dela está em algum lugar do meu armário.
- Boa campeão! E antes que me esqueça, dinheiro não traz felicidade, mas se você não tiver, é bom estar preparado para criar seus filhos em algum barraco com um emprego de merda.
O ônibus parou, trazendo Chriss Carvell de volta à realidade. Era seu ponto.

Estação ferroviária. Caminhou pelo saguão, passou pelos guichês e observou os destinos. Norte, sul, leste, oeste. Podia ir para onde desejasse. Infelismente não tinham passagens para a lua, os trilhos ainda deviam estar em construção.
Comprou um bilhete para uma cidade distante. A mesma cidade em que havia tirado aquela foto no bolso.
Atravessou as passarelas e encontrou a sua. Sentou-se em um dos bancos, colocou a mala sobre as pernas e esperou. Nunca havia visto tantas pessoas diferentes em um só local. Cores, religiões, idades, estilos. Os trens vinham como águas e renovavam as faces.
Um senhor se sentou a seu lado. Com tantos outros bancos, porque tinha de se sentar logo naquele, imaginou. O velho soluçou, fedia a álcool e cigarros. As roupas não eram ruins, a longa barba era suja e embaraçada, o olho esquerdo estava totalmente tomado pela catarata.
- Ótimo, não bastava sentar ao meu lado, tinha de ser o Matusalén embriagado - resmungou Chriss.
- Como disse? - perguntou o cambaleante homem.
- Nada... não era com o senhor.
O velho observava as pessoas que saiam dos trens.
- Sabe qual o segredo delas? - perguntou o senhor.
Carvell ignorou, esperando que desse sorte e ele estivesse bêbado o bastante para cair nos trilhos.
- Eles não dormem!
Chriss o olhou e replicou irônicamente:
- Eles são felizes porque não dormem... genial.
- Não disse que eles são felizes.
- Então o que disse?
- Disse que eles são tão indiferentes porque não dormem.
Chriss respirou fundo e voltou a olhar para os trens. Sabia que não devia ter incentivado aquela conversa. O homem continuou sozinho:
- Como não dormem, não sonham. E como não sonham, aceitam a vidinha programada que levam...
Chriss Carvell não acreditava naquilo. Sabia que todos tinham seus sonhos, mas também tinham seus medos. Sabia que muitas vezes o medo os fazia desistir de seus sonhos. Sabia que eram tão infelizes quanto ele, mas se recusava a aceitar. Não queria acreditar viver em um mundo tão triste.
Chriss se levantou e deixou o velho para trás. Seu trem chegara. Ele subiu no vagão e se sentou.
Tirou a foto do bolso.
Todos sorriam, uma imagem antiga.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Não Era a Única




Sentada no chão, ela desenhava. Prancha apoiada na cama, lápis balançando de um lado ao outro e dando forma à imagem em sua mente. O televisor mudo exibia imagens de algum filme antigo. O ventilador rodopiava, misturando-se á música do aparelho de som em algum canto daquele quarto pouco iluminado.
Desenhava mulheres nuas com seios fartos em posições eróticas, o tipo de besteira que atrairia muitos curiosos para sua página na internet. Não era seu estilo, mas queria a publicidade. Achava engraçado como clicavam quase que impulsivamente ao vê-las. Uma isca necessária para divulgar seu trabalho naquele mundo onde a concorrência pelos melhores sonhos era grande.

Gostava de retratar pessoas. Dava vida a cenas de beijos, belas paisagens, romances utópicos e sorrisos que antes só eram visíveis em sua mente. Desenhava horizontes, com seus sóis poentes e amantes sobre a relva. Sempre com doçura, esculpia sonhos e os colocava ternamente sobre as folhas amareladas. Uma poetisa que tecia seus versos em curvas coloridas.
Assim que tinha uma boa quantidade de imagens prontas, preparava mais uma figura-isca e a exibia a frente de sua página, atraindo olhares que inevitavelmente se deparariam com seus outros trabalhos. Achava irônico ter de enganá-los para conseguir suas atenções, mas não era a única. Esperava um dia não precisar mais.

Não recebia qualquer remuneração, nada além dos comentários de seus visitantes. Eram o bastante. Cada saudação, cada elogio deixavam-na eufórica. E como uma criança, ria baixinho. Lia aquelas palavras e sabia que conseguiria continuar, sabia que ao empunhar o lápis a imaginação floresceria mais uma vez.
Sempre encontrava tempo entre cursos, aulas corridas e refeições. Sempre havia um novo sonho para uma nova folha.
Ela desenhava medos, desejos, sins e nãos. Desenhava a si mesma.

...

Agradeço à minha irmã, musa que me inspirou a escrever este conto.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Carne Cansada


Vivemos um dia por vez... será?
Há dias em que os raios da aurora parecem brilhantes demais. Ferem a vista de nossa criatura semi-viva caída sobre o leito. O corpo pesa e a cama nos agrilhoa. Ponteiros no relógio reclamam, ordenando que nos ergamos imediatamente. Não há tempo para repouso, as responsabilidades não esperam, construções sedentas por sua presença o querem de pé. As engrenagens dentadas da máquina ignoram o fato de seres carne cansada, ignoram o corpo pesado como pedra afundando no mar.
Um dia arrastado, os pés mal tocam o chão. Caminha em mundo distante, acorrentado à realidade pelos mesmos assuntos que o fazem levitar. Pensamentos arranham o corpo e sussurram arrepios.
Dias em que um banco esquecido no pomar seria o bastante. Dias em que ninguém parece se importar. Quando questionado sobre a triste feição, desvencilha-se logo com um "estava apenas pensando". Sorris na mesma alegria de uma hiena faminta.
Dias que são curados apenas com a fuga. Foges ao início e se deita novamente.
Dias em que não sonhas.

Uma Bizarra Atração


A roda gigante girava, o carrossel tocava música e colocava sorrisos nos rostos infantis.
Charles Nails era o funcionário mais velho do parque. Durante 63 anos trabalhara como palhaço ali. Quando começara, o local nada mais era que uma latrina. Brinquedos velhos e perigosamente sem manutenção. Lembrava de como a noite os mendigos vinham se abrigar entre as atrações. Perdera a conta de quantas vezes tivera de ir expulsá-los. Hoje nada ali lembrava essa época. Carros de cachorro-quente, barracas de sorvete, brinquedos novos e lubrificados, seguranças, casas de apresentação e pais desembolsando altas quantias de suas gordas carteiras.

Era sua pausa entre os shows. Diziam que era uma estrela, se sentia uma bizarra atração. Sentado em um dos inúmeros bancos de madeira, ele observava as crianças indo de um lado a outro. Famintas e apressadas. Se acotovelavam, ignoravam a fila, roubavam doces dos amigos e irmãos. Pequenas bestas domesticadas. Suas risadas o agulhavam. Por todos aqueles anos ele as escutara. Sempre riam dele, ele era o tolo, todos riam dele. Uma criança saiu de perto dos pais e se aproximou do palhaço sentado. Ele voltou sua face e a encarou secamente, fazendo com que a pequena figura gritasse, corresse, e se abrigasse entre as pernas da mãe. Belas pernas ela tinha.
Jovens palhaços distribuíam balões coloridos. Queria explodir cada um deles, queria sentir aquelas bexigas de ar sendo estranguladas e estourando em gritos abafados.
Era uma antiguidade rachada. Não possuía mais qualquer valor, era mantido apenas porque seus donos sentiam remorso de jogar fora algo com tantas histórias. Os mesmos donos que se tornavam tão inabaláveis quanto máscaras de marfim assim que chegava a hora do pagamento. Abutres com ilusões de humanidade.
Charles observou o céu. Nublado, não havia espaço para ele lá. Restava a terra, onde caminhavam inúmeras cópias mais jovens e sadias de seu personagem tolamente alegre.
Decadente e já sem sonhos, não haviam mais muitas opções, acabara se tornando aquilo que sempre fingira ser. Deixou o banco e entrou em uma das tantas tendas coloridas. Alguém o chamou em vão.
Era quase hora de sua próxima apresentação.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Cascos Eqüínos em Investida



A chuva lavava o telhado de madeira daquela pequena casa. Thor balançava seu martelo com força, lançando gotas violentas que explodiam como cascos eqüínos em investida.
Midnorf comia com calma. O cômodo mal se iluminava com a única vela sobre a mesa. Tomou um gole de sua cerveja. A cabeleira ruiva caía sobre seus largos ombros, os olhos azuis eram distantes. Um céu aberto, emoldurado no fogo vermelho da forja. Pensava no pequeno filho, dormindo do outro lado da porta à sua frente. Pensava na esposa, que acabara caindo no sono enquanto tentava colocar aquela energética criança na cama.

Não havia muito tempo, logo os soldados chegariam.

Midnorf tomou um último gole de sua cerveja e se levantou. Pegou a vela, atravessou a sala e abriu a porta do quarto. O pequenino dormia agarrado à mãe. Tão agitado e valente durante o dia, agora parecia um medroso filhote de lobo procurando abrigo entre as pernas da mãe. E como era bela sua esposa, seus cabelos trançados pareciam fios de ouro. Sempre forte, sempre a seu lado, sempre o apoiando, sempre o amando, ela era uma guerreira, ela era uma rainha, ela era sua Valkyria. Beijou seu filho no rosto e sua esposa nos lábios. Thor estourou um raio distante, a chuva açoitava o telhado.

Alguém esmurrou a porta. Três batidas, três badaladas, três sussurros.

Midnorf saiu do quarto e fechou a porta atrás de si. Recolocou a vela sobre a mesa e caminhou até o canto da sala. Repousando sobre uma cômoda de madeira estava sua espada. Runas vermelhas cravadas na lâmina, runas verdes talhadas no cabo. Tanta beleza em um instrumento assassino. Empunhou a arma, era pesada. Tinha o peso de muitas vidas, sangradas sem piedade, o peso de muitas almas, libertadas a golpes. Caminhou até a porta e a abriu. Um homem o feriu com os olhos. Carregava uma rebelde tocha, que se recusava a apagar com os ventos fortes e a grossa chuva.
- Está pronto? - perguntou a figura loira e musculosa.
- Vamos logo.
Caminharam pela chuva, montaram em cavalos que esperavam, e se juntaram a muitos outros.
Quando partiram a galope, Midnorf sentiu o peso da espada amarrada às costas. Lutaria por sua vida, lutaria por seus irmãos, lutaria por sua família.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Risadas Contadas com Desgosto


Sejamos todos convidados da grande festa. As fantasias serão os tolamente alegres palhaços, os sorrateiros e desbocados bufões, os tristes e loucos pierrots. Pegue sua roupa e entre logo. Se demorares muito não entenderás as risadas contadas com desgosto.

O cômodo é pequeno. Jamais seria o suficiente para tantos olhos inquietos. Nas paredes correm os gargalhantes palhaços. Agridem uns aos outros, reclamam, amaldiçoam, trapaceiam e mentem. Sempre entre gostosas risadas e expressões inesperadas. Mas choram derrotados quando são eles o centro das maldades.
No chão ficam os bufões. Contam histórias tão cruas que são considerados tolos mentirosos. Espreitam de um lado a outro, sussurrando verdades entre reverências exageradas. Não se sabe ao certo se divertem com suas fábulas tolas, ou se são uma ameaça ao semear palavras nuas.
No teto divagam os pierrots. Cada um pensa em sua amada Columbine. Abandonados por seus corações e enlouquecidos. Comentam sobre locais de beleza infinita, parecem perceber detalhes invisíveis a outros. Por um único segundo voltam à realidade, mas a dor é tão grande que enlouquecem novamente. Divagam, cada um com uma solitária lágrima molhando o rosto.

Pegue sua fantasia e entre logo, antes que a eternidade se vá e a eles não mais possas se juntar.

Seu Perfume


Sentado ao lado da cama eu a observo ainda dormindo. Serena e bela. Seu perfume suave está por todo o quarto, seu perfume está por todo meu corpo. Ela acorda devagar, abre os olhos e sorri para mim. Eu sorrio de volta. Ela me abraça por trás e me beija no rosto. Seu perfume... Sinto seu perfume, sinto seu cabelo em minha nuca, sinto ela. Sussurro um eu te amo.
Saio para trabalhar. Quando volto ela está na sala tomando uma chícara de chá e lendo um livro. Sinto seu perfume. Ela está linda, ela sempre está linda. Me lança aquele sorriso que só ela tem, aquele sorriso que me faz querer amá-la mais do que se pode compreender. Sorrio de volta e sento ao seu lado.
Saio do banho e preparo a janta. Ela aparece em seu robe branco secando o cabelo. Ri do fato de eu ser o cozinheiro da casa. Sirvo a janta. Ela segura meu rosto com as mãos e me beija na testa. Como é bom seu perfume, como é maravilhosa a sensação de seus cabelos lambendo minha face. Quero abraçá-la e beijá-la ali mesmo. Digo que a amo.
Termino a janta e sigo até o quarto. Lá está ela. Deitada de bruços, com a cabeça apoiada nos braços, me observando serenamente. Sento na beirada da cama. Ela me abraça e me beija a bochecha. Fecho os olhos e sinto seu perfume. Digo que a amo. Digo que a amo mesmo sabendo que ela não está ali. Digo que a amo mesmo sabendo que ela se foi a muito tempo. Digo que a amo e reconheço que o erro foi meu. Digo que apenas queria protegê-la. Deixo cair a cabeça nas mãos. Não me lembro mais como se chora.

Um Bom Cristão-Não-Suicida


2:42 da manhã e o agente de polícia, Henrique Cortez, dormia a exatos 39 minutos e 13 segundos. Sonhava com um quarto de motel. Sentado, bebia lentamente seu copo de Scoth enquanto observava as strippers dançando ao som de um pesado metal melódico. Os corpos se balançavam em rastros coloridos de um lado para o outro. Ele escutava as risadas delas, ninfas que pareciam se divertir em uma coreografia embriagada. O cigarro queimava pela metade no cinzeiro ao seu lado. A fumaça subia e se juntava à festa com suas formas contorcidas e dançantes.
A música chegou ao fim, assim como as peças de roupa de suas companheiras. Elas se aproximaram em linha. Pedaço por pedaço despiram e acariciaram-no. Os corpos estavam em pelo naquele quarto de motel. A rapariga a frente de Henrique se curvou e beijou-lhe os lábios. Ele se levantou e a abraçou forte enquanto caíam sobre a cama. O cigarro quase no fim queimou e lançou uma última dose de fumaça no ar, que se agitou e se contorceu.

O som estridente do telefone foi tão agradável quanto um tapa na cara.

Cortez se sentou ao lado da cama, deixou a besta tocar mais duas vezes enquanto esfregava o rosto. Esperou mais dois toques apenas para poder ficar ali odiando o aparelho. Percebeu então que se escutasse aquela irritante campainha mais uma vez, iria direto para o inferno. E como era um bom Cristão-Não-Suicida, atendeu.
- Agente Cortez? - perguntou a voz do outro lado.
- Infelizmente.
- Desculpe acordá-lo a essa hora, aqui é o agente Alex Oliveira, temos um homicídio em mãos e o chefe quer você aqui imediatamente.
Ele devia estar ligando da própria cena do crime. Vozes e ruídos eram nítidos ao fundo.
- Agente Oliveira, de quantas formas diferente você pretende conseguir me fuder no mesmo dia?
- Nenhuma além das que já devo ter conseguido, mas não posso dizer o mesmo do chefe se você não arrastas seu traseiro até aqui imediatamente.
Fudido e desempregado não soava bem para Henrique Cortez, então ele anotou o endereço que Alex balbuciou.
Foi ao banheiro, lavou o rosto, se vestiu, pegou as chaves e a arma, beijou a esposa que ainda dormia e a invejou por um instante. Ligou o carro e partiu pela estrada. O endereço não era muito longe, conhecia o local. Ruas vazias, ele voava sobre o asfalto. A lua iluminava os becos e as residências que riscavam a vista. Imaginou ter visto o anjo da morte balançando sua foice sob a luz de um poste. Não era a primeira vez.
Parou o carro, saiu, atravessou a barreira policial ao redor do prédio, subiu as escadas, entrou no apartamento.
- Puta que o pariu! Cuidado para não pisar no sangue ai, caralho! Vai espalhar essa merda por toda parte! - gritou alguém responsável pela perícia.
O local tinha fotógrafos, peritos, investigadores e o orgulhoso Satanás na forma do chefe Pietro, que ignorava qualquer capacidade mental em seus subordinados e vociferava ordens sobre como cada um deveria fazer seu trabalho.
Lá estava o corpo, estendido de bruços no meio da sala. A garganta cortada até quase a espinha.
- Ai está você Henrique - disse o chefe assim que bateu os olhos na figura em pé na porta.
- Vim assim que recebi o chamado senhor - disse Cortez.
- Excelente.
Pietro esboço um sorriso irônico. O filho da puta se divertia em fazê-lo acordar no meio da madrugada sempre que podia, pensou. Queria poder levantar sua arma e livrar o mundo daquele sádico. Imaginou que uma bala seria suficiente para estourar aquele crânio. Talvez usasse duas, atirando primeiro no cacete dele, e só então explodindo-lhe os miolos.
- Como pode ver, o infeliz teve a garganta cortada em um golpe só. A navalha da arma entrou até a espinha, mas não teve força o bastante para passar pelo osso - discorreu o chefe.
- Qual o nome da vítima?
- Malcolm Haris Jr. Conhece?
- Um pouco. A alguns meses peguei uma papelada que o apontava como um contrabandistazinho.
- Isso já sabemos.
- Sabemos qual foi a arma?
- Parece ter sido um facão.
- Temos alguma digital ou amostra de DNA?
- Só as do saco de tripas ai. Quem fez isso usou luvas e tomou cuidado para não deixar nada que o incriminasse.
- A porta...
- Sem sinais de arrombamento, tudo indica que a vítima conhecia o assassino e abriu a porta de livre e espontânea vontade.
Henrique coletou mais algumas informações úteis para a investigação, olhou o corpo e os aposentos em busca de alguma prova. Depois persuadiu Satan para que lhe deixasse voltar para casa e descansar um pouco.
Desceu as escadas, acendeu um cigarro, recostou-se na parede e divagou. Malcolm era um vagabundo baixo nível que cedo ou tarde acabaria sendo pego. Sequer devia saber para quem trabalhava, e com ele morto ainda mais perguntas ficariam sem resposta. Se os imbecis o tivesse preso antes de ser assassinado talvez tivessem algo em que trabalhar.

A bituca voou longe enquanto Henrique entrava no carro. Ajeitou o retrovisor e viu repousando sobre seu banco traseiro um facão de jardinagem. A luz do poste sobre o carro dava às manchas rubras um brilho quase místico. Recolocou o retrovisor na posição original e deu a partida. No caminho de volta parou sobre uma ponte. Saiu do carro, acendeu seu último cigarro e abriu a porta traseira. Lá estava ele. Cortez ficou parado observando a arma do crime caída ali. A lua a iluminava. Um contraste entre o brilhante aço cru e o sangue seco enegrecido. Terminou o cigarro, pegou a arma pelo cabo usando um lenço e a lançou no rio. Talvez não fosse a coisa mais inteligente a se fazer, imaginou enquanto ela girava em direção à agua.

Quando finalmente, naquela manhã, se deitou ao lado de sua esposa, Henrique Cortez escutou um bater de assas perto de sua janela. Talvez fosse o anjo da morte, pensou enquanto tentava voltar ao sonho de que fora tirado mais cedo.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

O Gosto dos Beijos


Sonhos, o jardim das ilusões. O local onde todas as mentes vão para se libertar.
Por que as vezes tememos tanto os sonhos? Porque eles podem transformar nossos maiores pesadelos em agradáveis banhos de sol. Podem mostrar o quão amarga e ainda viva é a memória que lutamos para esquecer... e a trazer de volta da pior forma... aquela que fica impregnada em nossos corpos e mentes mesmo depois que acordamos... verdades pesadas e afiadas. Verdades que nos afetam os sorrisos, os abraços e o gosto dos beijos.
Queria eu poder sonhar sem nunca acordar. Ai então as mentiras não seriam, e só a verdade teria de enfrentar.

Um Velho Amigo Como Tantos Outros


A fumaça do cigarro recém aceso se dissipa no ar. Escuto o despencar das gotas que se acumularam no telhado durante a chuva. Um som que se repete como o tic-tac do relógio.
- Preciso comprar um novo relógio - pronuncio enquanto observo o espaço vazio na parede onde costumava haver um.
Uma mosca zumbe ao redor de minha mesa. Pousa na parede de madeira corrida, no sofá, no meu ombro, em uma calça jogada ao canto. Penso no porquê daquela calça jogada ali.
A mosca zumbe e voa. Levanto um copo e espero ela pousar perto. Ela pousa. Capturo-a no copo emborcado e observo. Seu mundo agora reduzido a alguns centímetros cúbicos de ar saturado. Ela não sabe, mas morrerá ali. Ela não sabe e não me importo em avisá-la.
A mosca logo me parece um velho amigo como tantos outros. Voa e se debate contra as paredes do copo. Para, caminha um pouco e logo volta a tentar um voo. Talvez ela não se debatesse se o copo fosse maior.
Tento me lembrar o quanto vive uma mosca livre. Não faço ideia de quanto seja. Imagino que essa também não seja uma grande preocupação dela no momento.
Após minutos a prisioneira se acalma. Terá percebido a gravidade da situação e se desesperara? Ou aceitara o fato de que se lançar contra aquela barreira invisível a seus olhos de nada adianta? Mais algum tempo e passa a caminhar pela superfície de cristal. Imagino que esteja observando o vasto mundo ao seu redor, que agora parece dezenas de vezes maior. Talvez tenha percebido a futilidade de sua vida, voando de um lado a outro sem nunca ter um real objetivo. Ou talvez tenha percebido seu destino fatídico, caminhando então para conhecer cada milímetro de sua lápide.
Termino de escrever e logo vem o sono. Morpheus faz questão de colocar uma boa quantia de areia em cada olho. Antes de me levantar observo minha cativa amiga mais uma vez. Ela permanece imóvel no fundo do copo, balança as asas e volta à imobilidade. Por um momento acho que está imersa em tristeza.
Adormeço em minha cama.
Quando raia o dia, volto à mesa, observo o copo-prisão e o cadáver nele contido. De barriga para cima, caída na madeira. Estaria ela tão perto assim do fim? Sinto uma pontada de remorso que logo passa. Era apenas uma mosca.
A fumaça do cigarro recém aceso se dissipa no ar.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

O Verme


As pessoas costumam tentar ignorar os sentimentos que as fazem sofrer...
Os escondem... dentro de si... e saem de casa sorrindo...
Mas aos poucos aquele sentimento vai pesando... ficando apertado...
Aos poucos o sorriso vai se apagando... e sem perceber a pessoas se torna melancólica...
Aqueles próximos a avisam... mas ela não sabe o porquê... não consegue entender...
Por que está melancólica? Por que sorrisos não são mais fáceis como eram?
Não entende... não quer entender... se recusa a aceitar...
...
E seu estado vai se tornando mais e mais agravado...
Logo o sol parece sempre coberto por nuvens... a chuva lembra lágrimas...
Lágrimas que não consegue mais derramar... desaprendera...
O caminhar parece pesado... o chão revida a cada passo...
O caminho de sempre parece não levar a lugar algum...
...
Então ele percebe... percebe que escondera... enganara...
Mas jamais conseguira fazê-lo para si...
E passa a se perguntar até quando aquele verme vai continuar ali...
Comendo sua carne... em dor silenciosa... perto demais...
...
Alguns se sentem distantes... como se pessoas fossem sussurros...
Outras se sentem sujas... como se estivessem apodrecendo por dentro...
Algumas só revelam seus sentimentos quando ninguém as observa...
Acessos de raiva... querem se livrar daquilo e não conseguem...
Lágrimas derramadas... choram por não conseguirem esquecer...
Gargalhadas histéricas... riem de si mesmos...
...
Loucos... todos se tornam intangíveis...
E enquanto aquela pequena criatura se mantiver aninhada dentro dela,
nada fará muita diferença... a não ser o que lhe deu origem...
...
Lembranças se tornam perigosas... uma simples palavra pode turvar o caminho...
Um perfume pode causar desespero... uma rua pode parecer longa demais...
E quanto a fotos... algumas se tornam objetos assustadores...
Causando repulsa, elas se recusam a olhá-las... como se fossem horrendas cenas de um crime...
...
Mas como se recuperar dessa criatura que vive tão perto?
A resposta é tão simples que muitos a ignoram...
Elas não se recuperam...
Apenas aprendem a conviver com aquele verme... aprendem a suportar a dor...
E se tiverem sorte aprendem a ignorá-lo... mas nunca livram-se dele...
Ele sempre viverá perto demais...
...
E então criança... você me parece ter visto muitos rostos... quantos desses já carrega?

As Formigas e o Corpo


Uma brisa suave entra pela janela...
O som das ondas do mar batem distantes...
Em algum lugar alguém tosse e pede mais um cigarro
jurando a si mesmo que aquele será o último...
Amanhece como qualquer outro dia... frio e silencioso...
Mas algo percorre um alto apartamento
da orla nesse dia...
...
Uma triste aura mórbida... quase tangível...
...
Pela janela se vê pessoas que vem e vão como
formigas distantes, apressadas, insensíveis a sonhos
ou desejos... Vem e vão sem nunca imaginar que a
alguns andares um jovem tirou a própria vida...
...
Não porque se sentisse oprimido, acuado ou sozinho...
Mas porque percebera aquelas distantes formigas...
Percebera o quão triste eram suas rotinas...
Percebera o quão cotidiana se tornara suas vidas...
...
Percebera que não eram aquelas as pessoas de quem
escutara quando jovem... em histórias antes de dormir...
Quando deixara de ser uma criança? Ninguém o avisou...
Ninguém o preveniu... Ninguém disse que sonhos eram
entorpecentes infantis... Arrancados bruscamente...
...
O último de uma espécie... o último que ainda lembrava...
Que fechava os olhos e sentia o cheiro das folhas daquele
sítio onde passara férias...
Que fechava os olhos e sentia o perfume de sua primeira
namorada... o olhar materno... o abraço de um amigo...
Um sorriso... dado por uma menina que nunca mais vira...
...
Agora recostado abaixo da janela jazia seu corpo...
Sereno... estático...
...
Agora era como elas... se tornara frio...

sábado, 31 de janeiro de 2009

Fios de Prata


Pessoas dizem que a vida é demasiadamente curta, fato intrigante, uma vez que sempre pensei o oposto.

Devido à grande longevidade humana, podemos cometer muitos erros e, conseqüêntemente, precisamos de cada vez mais tempo para repará-los. Vivemos uma política de reparar danos e causar novos. A vida passa e percebemos que já disparamos tantas balas envenenadas que não viveremos o suficiente para desinfetar e suturar todas as feridas.

Menos remorsos teríamos se vivêssemos tanto quanto cães. 14 anos seriam insuficiêntes para tantos erros. Ainda jovens consideraríamos nossas mancadas nada mais que pequeninas turbulências sem importância.

Quanto mais velho, maior o peso dos erros e mais curvados por ele se tornam os homens. Passam a olhar para trás e culpar seus resistentes fios de prata. Amores perdidos, mentiras espalhadas, traições, abandonos. Reclamam de uma vida muito curta quando foi por ela ser longa que foram aflingidos por tantas angústias. Quando foi por ser tão longa que tiveram a oportunidade de cometer tantos equívocos.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Uma Boa Leitura


Alguém esmurra a porta do meu abafado escritório.
- Puta merda! Logo agora que consegui encontrar uma boa leitura. - Reclamo - Entra que tá aberta!
A figura baixa e gorda passa pela porta e logo o cheiro forte de cigarro me acerta.
- Caralho Dave, não aguento mais essa merda de vida! - exclama ele.
- Porra C.J. são quase uma da manhã, como descobriu que eu estava aqui, ou melhor, o que está FAZENDO aqui? - reclamo em vão enquanto abro as janelas para o cigarro que ele acende.
Conheço a rotina da situação. C.J. chega e passa horas reclamando de alguma merda que lhe atingiu. Infelizmente a velha amizade me impede de chutá-lo para fora e mandá-lo se fuder.
-Você sempre vem pra cá tarde quando sua mulher não dá conta do recado e termina sozinho - fala logo ele.
Maldita convivência, desde quando a privacidade entre eu e meu cacete se tornou pública?
- Fala logo o que quer C.J. - reclamo enquanto pego um dos cigarros amassados de minha visita.
- É a Júlia aquela vaca. Sabe que eu a amo mais que aquele otário e ainda assim quer que eu seja amigo dele!
- Você que é o otário. Conhece a mulher a anos e só agora resolve que a ama.
- Sabe que antes não era possível!
- Foda-se, não quero escutar essa história novamente.
- Ainda tem a Carol me enchendo o saco!
- Você ama a Júlia mas não larga da Carol.

Ahh a rotina. as vezes chego a gostar dela. Talvez até sinta falta. Aquele gorducho reclamando e reclamando entre grandes tragadas no cigarro. Aquela boca que abre e fecha enchendo meus ouvidos com toda aquela merda. Como odeio aquela rotina, talvez tanto ódio esteja me deixando apaixonado por ela.
- A Carol é meu quebra galho. Fode bem, mas quando abre a boca fode tudo.
- Então vai lá e fala pra Júlia o quanto a ama.
- Se eu falo uma coisa dessas o saco de merda manda ela parar de me ver.
- E como a amizade é grande... - O cigarro dele é forte, levanto e preparo uma bebida forte para acompanhar.
- Obrigado - ele agradece ao receber seu copo - mas como dizia?
- Dizia que como a amizade é grande, não vale a pena arriscar - retruco entre pequenos goles em meu copo.
- Amizade! Porra, a mulher praticamente acha que sou o irmão mais velho dela! Me liga e pergunta se pode levar o namorado pra me conhecer!
- Uhum.

A bebida desce bem. Talvez porque eu esteja prestando mais atenção nas duas pedras de gelo do que na figura em colapso à minha frente.
- Na minha própria casa Dave! Acredita nisso!?
- E sabemos como as coisas acontecem em sua casa. Um local perfeito para esses casais apaixonados.
- Puta que o pariu! Maldito seja o dia que aquele saco de merda conheceu ela!
- Ele deve trepar bem pra caralho.
- Deve ser! Pra me trocar por ele só se for isso!
- Pois é...
- Quer saber?
- O que é?
C.J. se acalma um pouco, termina o cigarro e a bebida. Joga a bituca no copo e se levanta. O corpo dele de alguma forma me lembra um saco daqueles que usam para guardar batatas.
- Ela que se foda. Não vou mais engolir essa merda toda David. Da próxima vez que a vir vou mandá-la se foder. Aquela vaca - diz C.J. com grande calma misturada em melancolia.
- Que bom.
- Você acha certo?
- Não tenho nada contra.
- Então está bom.
- Então está. Quer aproveitar a noite e sair para um drink?
- Tudo bem.

Coloco o casaco, pego a carteira e chaves. Fecho a porta do escritório e lembro de minha boa leitura ainda aberta sobre a mesa.
- Que se foda, termino depois - resmungo.
Esperamos pelo velho elevador que estala e sobe. Trocamos olhares e esperamos mais. Ele acende um cigarro e a porta do elevador se abre.
- Que tal passar lá em casa daqui a dois dias para papear um pouco e pegar aqueles livros que te indiquei? - falo enquanto entro no elevador.
- Porra, não dá. Júlia vai comprar umas lingeries daqui a dois dias e me pediu para ir opinar. Não perco aquelas pernas por nada.
A porta do elevador se fecha e nos joga noite adentro.