segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Em Direção ao Pó


Precisamos conversar - ele disse.

O telefone ficou mudo por alguns segundos. Trocamos mais algumas palavras antes de desligar. Eu sabia que havia terminado. Conhecia bem aquele "Precisamos conversar", já estivera ali antes, sabia que aquelas duas palavras ditas de forma fria e cansada eram tão válidas quanto um atestado de óbito.

Permaneci recostada na poltrona ao lado do telefone. No televisor subiam os créditos de um filme de amor que eu acabara de assistir. Ironia quase bela. Me levantei e caminhei até a varanda. Estava quente lá fora. Respirei fundo, deixei meus pulmões ferverem por um segundo. Tinha uma imensa vontade de fumar, mas tinha parado a algum tempo, e uma recaída naquele momento me parecia uma péssima idéia. Observei as montanhas e vales. O verde cobrindo cada centímetro daquela imensidão. Algo estava diferente, quase errado. Eu sentia aversão àquilo tudo. Não havia beleza ali para mim. Eu não era bem vindo naquele veludo verde. Me perguntava por que, quem me roubara aquele direito?

Rumei ao meu quarto. O calor era sufocante. Conseguia senti-lo sob minha pele... crescendo... me envolvendo. A temperatura era alta dentro de mim.

Liguei o ventilador.

Assim que me sentei à escrivaninha lembrei do armário de bebidas atrás de mim. Fiquei em dúvida sobre um drink, não sabia se devia. Divaguei para longe. Divaguei para aquele tempo onde tudo no meu relacionamento começou a desabar.

Eu agora achava graça na forma como nossas brigas eram guerras para decidir quem estava certo. Ri para mim. Nenhum dos dois estava certo. Lembro-me de como brigamos por ele ter ciúme da forma como meus amigos me abraçavam. Parecia uma grande bobeira agora. Eu teria o mesmo ciúme se tivesse a chance, mas por sorte ele não tinha amigas com quem mantivesse contato. De uma forma um tanto quanto estranha, tudo que ele estava fazendo era dizer "eu te amo". E quantas vezes havíamos brigado por ele ser rude e tosco. Tantas vezes me ofendeu, me atacou com palavras. Como eu odiava quando ele falava daquela forma comigo. Mas ele costumava dizer que eu fazia o mesmo a meu modo. Dizia que eu o magoava várias e várias vezes com palavras calmas e insinuações que ele detestava. Talvez estivesse certo. Talvez os dois estivessem errados.

Após as primeiras brigas, quando tentamos concertar os erros, apenas começamos a piorar tudo. Se eu sentia saudades e ele estava sempre ocupado, eu estava sendo grudenta e desagradável. Se eu o tratava docemente, por temer dizer algo que o magoasse, ele achava que eu estava sendo falsa. E assim os problemas iam crescendo e crescendo, se enrolando um no outro. Um imenso novelo de desavenças. Eu não o culpava, jamais o faria. Meus erros eram apenas meus, mas não entendia ao certo aquele caminho pelo qual avançava. Nenhum de nós queria que terminasse daquela forma, mas parecia não haver outra saída. Nós havíamos trancado todas as portas e incendiado a casa. Queimávamos lentamente em direção ao pó.

Me levantei da escrivaninha e fui até o armarinho escolher uma dentre as garrafas de bebida.Quando vi a tequila deixei escapar um riso baixo. Ele sempre dizia não conseguir entender o que as mulheres viam nela. Me servi num copinho sentei novamente. Apoiei a mão sobre o rosto e voltei a divagar.

Por que Deus não dera a um amante a habilidade de escutar os pensamentos do outro? E porque eu tinha a cruel sensação de que ele me odiava? Sabia que não era verdade, mas não conseguia me convencer. Ele não sabia o que eu estava sentindo, não sabia como eu o via na minha cabeça, não sabia que eu tentara concertar as coisas tão desesperadamente que acabara piorando tudo. Estava tudo perdido. Me sentia uma médica que se recusava a deixar um doente terminal partir. Cada novo tratamento apenas aproximava-o um pouco mais do fim.

Costumava dizer que se pudesse voltar no tempo eu faria muitas coisas diferentes. Agora sabia que era mentira. Se mudasse algo, não teria aprendido nada.

Estendi a mão até meu celular. Procurei o número dele e apaguei, assim como todas as mensagens e qualquer resquício de informação sobre ele. Eu sabia que iria continuar a piorar a situação se pudesse falar com ele. Como dizer adeus quando não se está indo a lugar algum? Preferi aquela solução. Não queria ser lembrada como um erro. Não queria que a última memória de mim fosse uma briga ou despedida com lágrimas.

Me levantei e voltei à varanda. Olhei o sol a pino e respirei fundo. Deixei meus pulmões ferverem.


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Dedicado a todos aqueles que tiveram de dar o adeus sem saber por que.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Pintada Com Faixas


O moinho girava rangendo sua roda. A água brotava dentre as pedras e seguia seu curso até a madeira em movimento circular.
Gabriella parou de observar aquele ambiente em miniatura na vitrine. Uma pequena fonte que a lembrou de um lugar que um dia chamara de lar. Apertou a jaqueta de couro cheia de bottons contra o corpo. Vestiu as luvas e o capacete. Subiu em sua moto estacionada perto do loja. Chutou o kicker e acelerou aos poucos até a estrada.

Talvez fizessem 12, talvez 13 anos. Não lembrava quanto tempo havia desde que deixara sua casa. A vida na estrada não era fácil. O pouco dinheiro que juntava em bicos era suficiente apenas para comer e dormir. Se juntava um pouco mais, guardava para possíveis reparos na moto. Ela sabia que muitos queriam viver aquele sonho, aquela aventura eterna. Gabriella também sabia que não mais do que um punhado aguentaria um mês daquela vida. Não havia sonho. Não havia aventura. Havia apenas um falso sentimento de liberdade entre cidades desconhecidas e hotéis baratos. Ela não estava de férias, também não tinha dinheiro o bastante para o luxo de um dia de descanso.
Mas na estrada pintada com faixas ela havia se encontrado. Quando o sol raiava às suas costas naquela rodovia sem fim, quando a paisagem das grandes cidades dava vez aos longos campos verdes, às montanhas, ao som de ondas em um litoral infinito, eram nesses momentos que ela recarregava as baterias. Nesses momentos ela se sentia diferente. Sentia como se tudo aquilo pertencesse à ela. Um presente deixado ali para que encontrasse. Só para ela. Quantas pessoas tinham essa oportunidade? Quantas passavam por essa ou aquela rodovia em um único dia? Centenas. Quantas tinham a mesma iniciativa dela, de sair da moto, se sentar na beirada da estrada e observar as montanhas ao fundo dos enormes campos. Deixar os dedos afagarem a relva molhada, escutar o barulho de uma cachoeira, sentir o cheiro do mar. Depois voltar para cima da moto e mais uma vez partir.

Não se lembrava mais o motivo exato da briga pela qual deixara sua casa e família. Lembrava de algo sobre querer ser livre. Talvez aquilo funcionasse nos filmes, mas na vida real não era tão simples assim. Agora sabia como havia sido inconseqüente, como fora tola ao achar seus pais queriam prendê-la, quando tudo que queriam era protegê-la das garras de um mundo que já lhes havia ferido tanto. Confundira amor com tirania. Como pudera pudera cometer um erro desses? E em sua infantil rebeldia os abandonou, certa de que aquela era a melhor opção.

A saudade lhe acertava a cada quebra-molas.

Onde estava seu pai para lhe socorrer quando sofrera o primeiro acidente na moto? E quanto à sua mãe, onde ela estava quando Gabriella acordou no hospital? Quando o médico passou pela porta em sua direção e ela procurou uma mão para segurar.A mais bela paisagem jamais recarregaria aquela parte de seu coração.

Na estrada pintada com faixas ela havia se perdido.

Gabrielle parou perto de uma bifurcação. Uma via levava de volta para sua cidade natal, a outra levava a uma cidade que jamais visitara. Talvez fosse hora de voltar. Seus pulsos estavam cansados de guiar aquela moto. Cansados de escolher o futuro através de rodovias.
Mas não sabia se já tinha a coragem necessária. Talvez precisasse tocar o orvalho de mais alguns campos verdes. Talvez precisasse lavar a alma em mais algumas cachoeiras. Talvez precisasse de mais tempo...

Gabrielle acelerou aos poucos e escolheu seu caminho na bifurcação.

sábado, 2 de outubro de 2010

A Melhor Sensação do Mundo


8:26, 23 de Outubro, sábado

Minha mão me esfregava o rosto. Queria limpar algo escondido debaixo da pele. Esfreguei os olhos, pareciam embaçados. Queria tirá-los das órbitas para polir-los. Terminei meu copo de café, e observei a vitrine de dentro da cafeteria. O forte frio e a chuva tentaram me convencer a não sair dali. A garçonete se aproximou. Com palavras doces me perguntou se desejava mais alguma coisa. Fiz que não, paguei a conta e me levantei. Apertei o capote contra o corpo ao sair. Deixei o calor e o conforto para tráz... entrei na chuva. Gotas no asfalto. Cada uma parecia ter o tamanho de uma uva. Explodindo contra o chão em unissínuo. Quem orquestrava aquela música? Intenso som sem notas aparentes. O vento forte tentava ajudar a chuva a engolir o calor por entre minhas vestes. Me resfriava.

Uma gota despencou de um fio de cabelo sobre minha testa, o vento a levou até meus cílios, que em um bater de pálpebras a deixaram entrar em meu olho. Tentei me lembrar para onde ia, não consegui, apenas acompanhei o caminhar de minhas pernas já adestradas. Parei por um instante. Alguém esbarrou em meu ombro e continuou a correr pela calçada. O frio não era aconchegante, mas parecia ser a melhor sensação do mundo naquele momento. Podia ficar ali para sempre, pensei, mas isso apenas iria piorar as coisas. Continuei a deixar minhas pernas me guiarem. Elas de repente pararam, tentavam me dizer algo, pareciam fracas. Olhei para cima. "Estação Rodoviária" em letras escurecidas se lia. Entendi por que minhas pernas haviam bambiado. O vento soprou com força nas minas costas, tentava ele me empurrar para a cobertuda das passarelas? Me sentei em um dos bancos. "Embarque plataforma 67" avisou a voz no microfone geral. Lembrei de quando Jonas pegara o ônibus ali. Eu e Carla havíamos prometido acampar com ele no outono seguinte quando retornasse do tratamento. Lembrei da expressão dele quando olhou para tráz antes de embarcar no ônibus. Faziam 8 anos que isso acontecera. "Um dia deixarei todos vocês para tráz. Não seria tão ruim se tivesse um pouco mais de tempo...", ele costumava dizer. Meu cabelo pingava, a água escorria pelo meu rosto...

18:12, 22 de Outubro, sexta-feira (dia anterior)

--SAI DO CARRO! SAI DO CARRO PORRA! -- ele gritava

Saí do carro com as mãos levantadas. Carla saiu pela outra porta também de mãos levantadas. A chuva era forte.

--AS CHAVES! TAMBÉM A CARTEIRA E O RELÓGIO!

Eu via os olhos dele por entre as gotas. A chuva parecia cair lenta. A boca dele se mexia gritando palavras, a arma dentro da manga apontava para meu rosto. Gotas estouravam no casaco dele. Suas pupilas eram enormes círculos negros. Estava drogado, eu tinha certeza. Estendi a mão com chaves, carteira e relógio. Ele os agarrou e lançou dentro do carro. O movimento da arma para a direita pareceu levar uma eternidade. A chuva congelou no ar. O tambor do revólver girou.

Eu segurava Carla nos braços. O carro já havia sumido pela chuva a algum tempo. O sangue corria pela roupa azul dela. O asfalto estava avermelhado. As sirenes estavam a caminho. Dizia a ela entre batidas do coração que tudo ficaria bem. A abracei com força. Minhas mãos tremiam. Meu coração estava acelerado. Tinha medo de perdê-la. Tinha medo de abrir os olhos e ela não estar mais ali. Tinha medo de que ela não abrisse os olhos. Beijei-a na testa. Tinha de manter a calma. Protegi-a da chuva com meu capote. Ela chorava. Não dizia nada, apenas chorava.

...

O médico se aproximou de mim na sala de espera.

-- Ela vai ficar bem, não se preocupe. --soltei um suspiro preso em minha garganta.

--A bala atravessou o ombro dela. Ela só terá de passar por uma cirurgia simples e ficar de repouso por alguns dias. -- ele continuou -- Sugiro que o senhor vá para casa e volte amanhã à tarde, pois não poderá vê-la antes disso senhor Lucas. Sinto, mas são as normas do hospital, é para o próprio bem dela.

Dois policiais se aproximaram de mim. Eu tinha de responder a algumas perguntas.

Passei toda a noite no saguão de espera. Quando a manhã chegou me levantei. Fui até uma cafeteria ali perto... minha mente estava distante. Ainda chovia... Sentei-me na cafeteria e pedi um café. Olhei pela janela. Gotas batiam no vidro como alguém que bate numa porta para entrar. Pensei no medo de perder Carla. Eu sabia como era perder alguém. Tinha muito medo de perdê-la, tinha muito medo de perder mais alguém que amava. Lembrei de Jonas.


8:40, 22 de Outubro, sexta-feira

Quando me levantei. Carla já estava de pé. Tinha de me arrumar para o trabalho e ela já estava quase pronta.

--Queriiida, porque não me acordou?
--Você parecia tão cansado ontem amor, fiquei com dó. - ele me disse com candura.
--Ainda quer ir àquele restaurante depois do trabalho amor? - perguntei como quem reclama
--Quero sim senhor Lucas! - ela riu - E não adianta tentar me enrolar hein! Disseram que tudo lá é excelente.
--Sei...
--Não seja ranzinza querido... - ela riu novamente
--Tudo bem, mas quero ser bem recompensado depois hein - eu disse beijando a nuca dela. Ela colocou um dedo nos meus lábios e apontou para o relógio. Me assustei com a hora e corri para me arrumar a tempo. Estava atrasado e nosso trabalho era longe.

Antes de sair olhei um dos quadros na parede. Eu, Carla e meu irmão Jonas sorríamos ainda crianças em um parquinho. Quem diria que um dia aquela pequena menina a bagunçar meu cabelo iria crescer e se casar comigo. Olhei meu irmão a fazer uma careta para a câmera. Amanhã seria o aniversário dele.

O dia foi longo no trabalho. O de sempre, com um pouco de cotidiano, um pouco de mesmice, e uma pitada de tédio.
Assim que terminamos o expediente ajeitamos as coisas e fomos ao restaurante que ela tanto queria. Após estacionar fiquei algum tempo olhando a chuva torrencial lá fora antes de tirar a chave e levantar o pino da porta para sair. Carla me segurou o braço.

--Querido o que foi? Você esteve tão calado hoje, está tudo bem?
Voltei me para ela e expirei. Recostei-me na cadeira.
--Amor, você sabe que amanhã seria o aniversário do Jonas?
--Ei sei amor... Não pense nisso... Já faz muito tempo. Você tem que deixar isso no passado.

Fiquei calado por um momento olhando a chuva no vidro. Pensei em quando ele falecera. Lembrei de como eu não dissera nada a ninguém. Só pedira um tempo para mim. Quando a perda é mediana nós choramos e nos debatemos publicamente... gritamos e nos desesperamos. Mas quando se perde algo maior que tolices mundanas, depois de um tempo nada fazemos... nada... quietos permanecemos, mudos e solitários. Sem suspirar pernoitamos em Damas de Ferro. Debaixo do chuveiro deixamos a tristeza vazar pelos olhos, nos aproveitamos dos gritos dos outros para nos aliviar... e calados continuamos a caminhar.

Alguém bateu no vidro da minha janela...

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Um Pouco de Si Mesmo



Em meio a escombros e cinzas o Pierrot caminhava. Olhos distantes observando memórias invisíveis. Os atores da lona colorida moviam-se organizadamente. Pouco a pouco vigas iam sendo re-erguidas, panos costurados, ferimentos fechados.
Uma menina procurava por seu gato perdido. O pierrot se aproximou, sentou-se em uma viga queimada e ficou a observar a criança por algum tempo:

-Gostaria de ouvir uma história senhorita? - perguntou o Pierrot

A menina se aproximou e observou o triste palhaço, quando tentou olhá-lo nos olhos ele os desviou. Sentou-se então a sua frente e esperou.

-Pois bem então - disse o Pierrot ainda olhando para outro lado - parece que a senhorita está interessada...

....................

Rapahel esperava sentado por ela na soleira da porta. Cotovelos apoiados nos joelhos, olhos na rua à frente. Ônibus passavam as vezes. Ele tentava ler os anúncios em cada um: "compre isso", "seja melhor", "o produto do homem moderno"; as promessas pareciam tão verdadeiras quanto os sorrisos.

Raphael se levantou e tocou a campainha mais uma vez. A casa permaneceu em silêncio. Ele voltou a se sentar. Ela provavelmente sequer continuava morando ali após tanto tempo. A casa deles. Comprada com tanto custo e entre tantas confusões. Lembrou do dia da mudança, como haviam arrumado a sala de um jeito que ambos se sentissem bem. Como haviam discutido sobre o lugar onde a TV deveria ficar. Como ela havia ganhado e como haviam feito amor depois.

Raphael riu um pouco para si mesmo, riu um pouco de si mesmo...

Achava engraçado pensar em como às vezes faziam amor e outras vezes faziam sexo. Como talvez tudo entre eles se dividisse assim. Beijos e gritos. Brisa e fogo. Quantas vezes ele desejara nada mais além de abraçá-la, beijá-la, amá-la. E quantas vezes o carinho dela nada significara para ele. Até quando o amor poderia sobreviver a tantas discussões?

Raphael se lembrava daquele tempo agora tão distante. Todos aqueles sorrisos, todos aqueles suspiros. Ele a amava, mas a odiava o bastante para nunca retornar. O que fazia ali então? se perguntou preferindo não responder. Tirou do bolso a velha aliança que ficara dentado após a última briga deles, quando Raphael acertara a porta do armário com raiva. Observou-a por um longo tempo. Aquele pedaço de prata lhe trazia lembranças o suficente para mil e uma noites de histórias. Talvez ela fosse sua Sherazade. Infelizmente seus contos eram tristes demais.

Ele olhou o relógio e tentou a campainha mais uma vez antes de partir. Pegou um taxi e voltou ao seu compromisso. Assim que Pablo o viu, sorriu e disse:
-- Rapha! A cerimônia já vai começar, onde estava?
-- Só fui resolver umas coisinhas antes, nada demais.
-- Haha, só não vai abandonar a noiva no altar hein. - Pablo riu - Sua calça está suja atrás - Ele disse dando umas palmadas para limpar - Pronto.
Raphael se arrumou e caminhou até o altar. Logo o órgão começou a ser tocado...

Quando o padre lhe fez a pergunta, Raphael sorriu, "sim" foi o que se ouviu na igreja.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Fogo no Circo


PRELÚDIO DE UMA PAUSA NO BLOG.

Eis que o fogo sobe pelas paredes. Eis que o incêndio deixa os corações e leva a lona colorida em seu tremular.
Quantas vezes coração de Pierrot é posto a prova, quantas chamas que lhe queimam a pele sem acender o coração.

Mário acendeu o cigarro com receio. Tantos meninos mais velhos o faziam com gosto. A tempos era malabarista abaixo do pano colorido. Com suas tochas e seus sopros de fogo. O encanto do público não era o suficiente. Queria o encanto de bela dama na platéia.

Trago profundo, desgosto profundo. A brasa ainda acesa voou longe. Na palha dos leões veio a cair. Animais selvagens, instinto imediato. O rugir veio acompanhado da primeira labareda. A violência acompanhou o fogo.

O vermelho tremulou, subiu, tomou. O Pierrot por algum tempo ignorou a presença do mesmo. Invisível a seus olhos o terror comum, ele apenas percebeu que o público corria... corria e fugia... fugia e gritava. Suas piadas teriam ficado tão ruins assim? Seus contos haviam por fim causado aos outros o terror que lhe causavam? Mas então viu as dançarinas a se abrigar. Viu os anões a correr com baldes d'agua. Viu domadores controlarem os animais em debandada.

A forma do fogo lhe tomou os olhos, a fúria de um incêndio. Por algum tempo ainda ficou no meio do picadeiro. Por um tempo ainda ficou a observar a fome das chamas. Subindo, degustando, lambendo cada parte de seu palco.

Então veio a chuva. E em meio a cinzas e lágrimas dos circenses, ficou o Pierrot. Quando todos o rodiaram, uma azeda poetisa de nome Pris o perguntou:
- Senhor da lágrima solitária, que será de nossas canções? Quem escutará o rugido dos leões? Quem verá a graça dos malabaristas? Que será de nosso encanto agora sem casa?
O Pierrot permanceu imóvel a observar os escombros de seu circo. Por fim, riu baixinho, olhou a todos a sua volta e respondeu:
- Que casa? Eu estou em casa.

sábado, 10 de abril de 2010

Mão Vazia


O ato da escrita nos é impelido pelo que? Tantos escrevem diários, tantos contam contos, tantos recitam poemas. Em comum o que há? Palavras que tem como único propósito serem lidas. Por si mesmo, as vezes por outros, tantas vezes por ninguém. O lápis tenta desenhar no papel aquilo que a mente se recusa a dar forma. Escritores de mão vazia e vivência cheia.
Há aqueles que preferem a escrita que esconde a própria história, há quem não a esconda. Há aqueles que escrevem sem medo, e quem escreva por ter medo.

E tantos lindos poemas de amor,
a esconder a dor no peito do escritor.

Escrever liberta tanto quanto aprisiona. A carta que é redigida com o objetivo de aliviar a consciência, termina por criar um documento que relata permanentemente aquele momento. Cartas que lutamos para destruir, sempre voltando atrás no último segundo.

Escreve-se porque aquilo deve ser contado, porque alguém precisa ficar sabendo. Hoje, amanhã, talvez nunca. Mensagens abandonadas em papel com tinta.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Antes de Partir

É EXTREMAMENTE RECOMENDÁVEL QUE SE LEIA O TEXTO "SEMPRE MAIS" E EM SEGUIDA "TEMPO DE CAMINHADA" ANTES DE SE INICIAR A LEITURA DESTE. - O Pierrot


Me espreguicei e sentei ao lado da cama. A luz da manhã pulava pela janela e caia sobre minha mesa. Levantei e fui em sua direção. Os livros de moda abertos ao lado do notebook com a tela ainda ligada. Tinha ido dormir muito tarde e me esquecera de desligá-lo. Olhei o relógio. Sete e meia. Olhei as fotos em meu mural na parede. "James e Nika" estava escrito em uma delas. Era uma foto em preto-e-branco. Eu havia tropeçado enquanto tomava um sorvete e acabara sujando de creme a ponta do nariz. James tinha uma mão em meu ombro e me beijava na bochecha enquanto eu ria. Ele tirara a foto com o outro braço. Sorri. Beijei a ponta dos dedos e os levei até o rosto de James no mural.
Tomei banho e me arrumei para sair. Sentei à mesa da cozinha para comer uma maçã antes de partir. James havia me ligado na noite anterior. Lembrei de nossa conversa.

- Querida não vou passar ai hoje, mas amanhã jantamos juntos. Vamos naquele restaurante que você tanto gosta, ok senhorita?
Eu ri.
- Claro amor. Tudo bem, eu também estou com bastante trabalho aqui pra terminar. Escuta, você vai passar na casa do Jeff amanhã?
-Vou sim. Tenho de pegar meu paletó preferido, esqueci ele lá naquela terça que fomos visitá-lo.
- Oba! Escuta, então me encontra lá antes de irmos ao restaurante. Estou com algumas peças de uma provável nova coleção. - Eu e James rimos.
- Tudo bem Nika. Nos vemos amanhã a noite na casa dele então.
- Certo.
- Ok amor, beijos, te amo.
- Também te amo James. Beijos.

Terminei a maçã. Me levantei, peguei minha bolsa e o pacote com as roupas da nova coleção. Desci até a garagem. Coloquei o pacote na mala e a bolsa no banco do carona.

Dei a partida no motor.

Enquanto ajustava o retrovisor, lembrei dos dias em que James me ensinara a dirigir. Lembrei de como eu estava louca para aprender logo, mas me desesperava toda vez que haviam mais de dois carros na rua. James ria e pacientemente colocava sua mão sobre a minha no volante. "Embreagem", ele dizia, "agora passe a marcha com calma... isso, agora vá soltando o pedal da embreagem e pisando com calma no acelerador.". Eu acreditava que nada de ruim aconteceria enquanto a mão dele estivesse sobre a minha. Talvez estivesse certa.

Saí com o carro. No caminho avistei uma floricultura já aberta tão cedo. Resolvi parar. Tinha algum tempo sobrando e a muito não entrava numa daquelas lojas. Adorava o cheiro das flores, a beleza em cada ramo, a delicadeza em cada pétala. Uma atendente esguichava água nos botões. Vi as rosas. Tão belas. Em vermelho tão vivo, tão intenso quanto um beijo de rubros lábios. Não era de se surpreender que representassem o amor. Resolvi comprar uma. Intuição feminina, achei. Coloquei um botão de rosa em meu coque. Paguei e voltei ao carro.

Dei a partida e segui em direção ao trabalho.

Não sei exatamente quando aconteceu. Lembro do som de pneus derrapando. Um farol piscando. Vidro, muito vidro. Perfurando minha pele. Não lembro quem foi o culpado. Tive medo por não ter a mão de James sobre a minha.

Quando acordei, estava deitada em uma maca. Uma sirene tocava. Um rapaz estava ao meu lado observando uma bolsa de soro ligada a meu braço. Quando me movi ele começou a conversar comigo. Tentava me manter acordada. Disse que se chamava Allan. Disse que eu sofrera um acidente e que logo chegaríamos ao hospital. Pediu para que eu prestasse atenção em sua voz. Me mandou não adormecer.
Lembro que lentamente levei a mão à cabeça. O botão ainda estava embaraçado entre meu cabelo. Havia perdido muitas pétalas. Estava tão machucado. Lembro de colocá-lo entre as mãos de Allan e fechá-las com as minhas. Disse o nome de James, James Connor.

Quando fechei os olhos, lembro que Allan disse algo para o outro paramédico. Lembro das frias placas de metal sobre meu peito. "Limpo!", ele gritou. Então veio a corrente elétrica que atravessou meu coração. Meu corpo pulou. Tudo se tornou lento, o segundo era tão longo. Eu caía devagar. Vieram as memórias. Vi o parque por onde minha mãe costumava passear comigo. Meu primeiro cachorro, e como ele insistia em lamber meu rosto quando estava feliz. Lembrei de James e todo o amor que me dera. A mania que ele tinha de tirar fotos quando eu menos esperava. Quantas fotos em preto-e-branco tiradas no momento em que eu acordava e sorria para ele. Podia ver nossas fotos sendo carregadas pelo vento. Meu corpo terminou de cair. As chapas de ferro voltaram ao meu peito.

"Limpo!".

Um trovão.

Envolta em nuvens, uma queda macia. Talvez assim se sentissem os bebês no ventre materno. Tão silencioso.

Me vi a caminhar de mãos dadas com uma pequena criança. Ela ia na frente. Me conduzindo pelo branco sem fim. As vezes ela olhava para trás. Então eu via seu rosto. Grandes bochechas, olhos castanhos, cabelos negros. Descobri ser eu mesma quando pequena. Ela parou, coçou a cabeça com a pequena mão e me olhou curiosa.
- Nika, para onde vamos agora? - ela perguntou
- Não sei. - eu disse, olhando o infinito branco
- Estou com medo, Nika. - ela disse enquanto puxava a ponta de minha camisa
- Tudo bem querida, não se preocupe. Vai dar tudo certo. - eu afaguei-lhe a cabeça e ela se agarrou à minha perna
- Tou cansada Nika. - disse ela sonolenta
-Tudo bem, não se preocupe, venha.
Apanhei-a no colo. Ela colocou os braços em torno do meu pescoço e apoiou a cabeça em meu ombro. Não demorou muito para adormecer. Avistei um banco no meio daquela vastidão. Me sentei nele. Tinha sono. Me deixei levar. Meus olhos começaram a se fechar. Pensei em James. Desejei ter tido tempo para um último beijo, um último sorriso, uma última foto.